Выбрать главу

Sor Lancel fez uma reverência rígida e se retirou.

Tyrion concedeu a si próprio um momento para sentir pena do rapaz. Outro tolo, e também fraco, mas não merece o que Cersei e eu estamos lhe fazendo. Era bom que seu tio Kevan tivesse mais dois filhos, porque este provavelmente não chegaria ao fim do ano. Cersei mandaria matá-lo imediatamente se soubesse que a andava traindo e, se por alguma graça dos deuses, não o fizesse, Lancel nunca sobreviveria ao dia em que Jaime Lannister voltasse a Porto Real. A única questão que restava era saber se Jaime o abateria num ataque de ciúmes, ou se Cersei o assassinaria primeiro, a fim de evitar que Jaime descobrisse. A prata de Tyrion estava posta em Cersei.

Sentia-se desassossegado, e Tyrion sabia perfeitamente que não voltaria a dormir naquela noite. Não aqui, pelo menos. Deparou-se com Podrick Payne dormindo numa cadeira à porta do aposento privado, e sacudiu seu ombro.

– Chame Bronn, e depois corra aos estábulos e mande selar dois cavalos.

Os olhos do escudeiro estavam enevoados de sono.

– Cavalos.

– Aqueles grandes animais marrons que gostam de maçãs, com certeza já os viu. Quatro patas e uma cauda. Mas, primeiro, Bronn.

O mercenário não demorou a aparecer.

– Quem mijou na sua sopa? – o homem quis saber.

– Cersei, como sempre. Seria de se esperar que a essa altura já estivesse habituado ao gosto, mas, esqueça. Minha amável irmã parece ter me confundido com Ned Stark.

– Ouvi dizer que ele era mais alto.

– Depois de Joff ter cortado sua cabeça, não. Devia ter vestido uma roupa mais quente. A noite está fria.

– Vamos a algum lugar?

– Os mercenários são todos tão espertos como você?

As ruas da cidade eram perigosas, mas com Bronn a seu lado Tyrion sentia-se bastante seguro. Os guardas deixaram-nos sair por uma pequena porta na muralha norte, e eles desceram a Alameda da Sombra Negra até o sopé da Grande Colina de Aegon, e daí dirigiram-se ao Beco do Porco Corrido, passando por fileiras de janelas fechadas e altos edifícios de madeira e pedra, cujos andares superiores se estendiam tanto por cima da rua, que quase se beijavam. A lua parecia segui-los enquanto avançavam, brincando de se esconder por entre as chaminés. Não encontraram ninguém além de uma velha que arrastava um gato morto pelo rabo. Lançou-lhes um olhar temeroso, como se receasse que tentassem roubar dela o jantar, e desvaneceu-se nas sombras sem uma palavra.

Tyrion refletiu sobre os homens que tinham sido Mão antes dele e que se revelaram incapazes de vencer os ardis da irmã. E como seria de outro modo? Homens assim… Honrosos demais para viver, nobres demais para cagar... Cersei devora tais tolos todas as manhãs no desjejum. A única forma de derrotá-la era jogar o seu jogo, e isso era algo que os Senhores Stark e Arryn nunca fariam. Pouco admirava que ambos estivessem mortos, já Tyrion Lannister nunca se sentira mais vivo. Suas pernas deformadas podiam transformá-lo num grotesco cômico de um baile das colheitas, mas conhecia aquela dança.

Apesar da hora, o bordel estava apinhado. Chataya saudou-os agradavelmente e os levou para a sala comum. Bronn subiu com uma moça de olhos escuros, de Dorne, porque Alayaya estava ocupada.

– Ficará tão satisfeita por saber que veio – Chataya lhe disse. – Mandarei preparar o quarto da torre. O senhor aceita uma taça de vinho enquanto espera?

– Aceito – Tyrion respondeu.

O vinho era fraco se comparado com as colheitas da Árvore que a casa servia habitualmente.

– Tem de nos perdoar, senhor – Chataya se desculpou. – Ultimamente não consigo encontrar bom vinho por nenhum preço.

– Temo que não seja só você.

Chataya lamentou-se com ele durante um momento, depois pediu desculpas e afastou-se. Uma mulher bonita, refletiu Tyrion enquanto a via partir. Raramente vira tal elegância e dignidade numa prostituta, embora ela se visse mais como um tipo de sacerdotisa. Talvez seja este o segredo. Não é o que fazemos, mas o motivo por que o fazemos. De algum modo, aquele pensamento o confortou.

Alguns dos outros clientes a olhavam de canto de olho. Da última vez que se aventurara a sair, um homem tinha cuspido nele… bem, tentara fazê-lo. Em vez disso, cuspiu em Bronn, e dali em diante passou a cuspir sem o auxílio dos dentes.

– O senhor está se sentindo carente? – Dancy tinha deslizado para o seu colo e mordiscava sua orelha. – Tenho cura para isso.

Sorrindo, Tyrion balançou a cabeça:

– É tão bela que não tenho palavras, doçura, mas tornei-me amigo do remédio de Alayaya.

– Nunca experimentou o meu. O senhor nunca escolhe ninguém a não ser a ‘Yaya. Ela é boa, mas eu sou melhor, não quer ver?

– Talvez da próxima vez – Tyrion não tinha dúvidas de que com Dancy teria um bocado de diversão. Possuía um nariz achatado, com sardas e uma juba de espessos cabelos ruivos que caía até depois da cintura. Mas ele tinha Shae à espera na mansão.

Aos risinhos, ela pousou a mão entre as suas coxas e apertou através dos calções.

– Acho que ele não quer esperar até a próxima vez – ela anunciou. – Acho que ele quer sair e contar todas as minhas sardas.

– Dancy – Alayaya estava na porta, escura e calma em suas sedas verdes e transparentes. – Sua senhoria veio me visitar.

Tyrion desembaraçou-se gentilmente da outra garota e pôs-se em pé. Dancy não pareceu se importar.

– Da próxima vez – ela disse, enfiando um dedo na boca para chupá-lo.

Enquanto subia as escadas à sua frente, a moça de pele negra disse:

– Pobre Dancy. Tem uma quinzena para conseguir que o senhor a escolha. Caso contrário, perde as pérolas negras para Marei.

Marei era uma garota calma, de pele clara e delicada em que Tyrion reparara uma ou duas vezes. Olhos verdes e pele de porcelana, longos cabelos lisos e prateados, muito encantadora, mas muito mais pomposa do que devia ser.

– Detestaria que a pobre moça perdesse as pérolas por minha causa.

– Então suba com ela da próxima vez.

– Talvez o faça.

Ela sorriu:

– Creio que não, senhor.

Ela tem razão, Tyrion pensou. Não o farei. Shae pode ser apenas uma prostituta, mas à minha maneira lhe sou fiel.

No quarto do torreão, enquanto abria a porta do guarda-roupa, olhou com curiosidade para Alayaya:

– O que você vai fazer enquanto eu não estiver aqui?

Ela ergueu os braços e espreguiçou-se como uma gata negra cheia de saúde:

– Dormirei. Tenho descansado muito mais desde que começou a nos visitar, senhor. E Marei anda nos ensinando a ler, talvez em breve seja capaz de passar o tempo com um livro.

– Dormir é bom – ele respondeu. – E os livros são melhores – deu-lhe um beijo rápido na face. Depois seguiu pelo alçapão abaixo e pelo túnel afora.

Ao sair do estábulo no seu castrado malhado, Tyrion ouviu o som de música pairando sobre os telhados. Era agradável pensar que os homens ainda cantavam, mesmo no meio dos massacres e da fome. Notas recordadas encheram sua cabeça, e por um momento quase conseguiu ouvir Tysha cantando para ele como cantara meia vida antes. Puxou as rédeas para escutar. A melodia estava errada, e as palavras indistintas demais para que as compreendesse. Era então uma canção diferente, e por que não? Sua querida e inocente Tysha tinha sido uma mentira do início ao fim, nada mais do que uma prostituta que o irmão Jaime contratara para fazer dele um homem.

Agora estou livre de Tysha, pensou. Ela me assombrou durante metade da minha vida, mas já não preciso dela, não mais do que preciso de Alayaya, Dancy ou Marei, ou das centenas de mulheres iguais a elas com que fui me deitando ao longo dos anos. Agora tenho Shae. Shae.