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Weese demorou apenas três dias para conquistar o lugar de honra nas preces noturnas de Arya.

– Weese – sussurrava, antes de todos –, Dunsen, Chiswyck, Polliver, Raff, o Querido, Cócegas e Cão de Caça. Sor Gregor, Sor Amory, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei – caso se esquecesse de apenas um deles que fosse, como poderia voltar a encontrá-lo para matá-lo?

Na estrada, Arya tinha se sentido como uma ovelha, mas Harrenhal a transformou num rato. Era cinza como um roedor em seu vestido áspero de lã e, tal como um desses bichos, mantinha-se junto aos vãos, fendas e buracos escuros do castelo, correndo apressadamente para fora do caminho dos poderosos.

Às vezes, pensava que eram todos ratos dentro daquelas grossas muralhas, até os cavaleiros e os grandes senhores. O tamanho do castelo fazia com que até Gregor Clegane parecesse pequeno. Harrenhal cobria o triplo do terreno de Winterfell, e seus edifícios eram de tal modo maiores do que os do castelo do norte, que quase não podiam ser comparados. Suas cocheiras tinham espaço para mil cavalos, seu bosque sagrado estendia-se por vinte acres, suas cozinhas eram tão grandes como o Grande Salão de Winterfell, e seu grande salão, grandiosamente chamado Salão das Cem Lareiras, embora tivesse apenas trinta e tantas (Arya tentou contá-las, duas vezes, mas uma vez chegou a trinta e três e, na outra, a trinta e cinco), era tão cavernoso que Lorde Tywin podia ter lá banqueteado a tropa inteira, embora nunca o fizesse. Muralhas, portas, salões, degraus, tudo era construído em uma escala desumana, que fazia com que Arya recordasse as histórias que a Velha Ama costumava contar a respeito dos gigantes que viviam para lá da Muralha.

E, como os senhores e senhoras nunca reparam nos ratinhos cinzentos que correm sob seus pés, Arya ouviu todo tipo de segredo só por manter os ouvidos abertos enquanto desempenhava seus deveres. A bonita Pia, da despensa, era uma devassa que passava pelas mãos de todos os cavaleiros do castelo. A mulher do carcereiro esperava um bebê, mas o verdadeiro pai era ou Sor Alyn Stackspear ou um cantor chamado Wat Sorriso-Branco. Lorde Lefford caçoava dos fantasmas à mesa, mas mantinha sempre uma vela queimando junto à cama. O escudeiro de Sor Dunaver, Jodge, não conseguia segurar a urina quando dormia. Os cozinheiros desprezavam Sor Harys Swyft e cuspiam em sua comida. Uma vez até ouviu a criada do Meistre Tothmure confidenciar ao irmão que tinham recebido uma mensagem qualquer que dizia que Joffrey era um bastardo, e não o legítimo rei.

– Lorde Tywin disse-lhe para queimar a carta e nunca mais voltar a proferir tal imundície – sussurrou a moça.

Ouviu dizer que os irmãos do Rei Robert, Stannis e Renly, tinham se juntado à luta.

– E ambos agora são reis – disse Weese. – O reino tem mais reis do que o castelo tem ratazanas – até os homens dos Lannister se interrogavam sobre quanto tempo Joffrey se manteria no Trono de Ferro.

– O rapaz não tem exército, a não ser aqueles homens de manto dourado, e é governado por um eunuco, um anão e uma mulher – Arya ouviu um fidalgo murmurar, ébrio. – De que eles servirão em batalha? – havia sempre conversas sobre Beric Dondarrion. Um arqueiro gordo disse uma vez que os Saltimbancos Sangrentos o tinham matado, mas os outros só riram.

– Lorch matou o homem nas Cataratas Impetuosas, e a Montanha já o matou duas vezes. Tenho aqui um veado de prata que diz que dessa vez também não deve ficar morto.

Arya não soube quem eram os Saltimbancos Sangrentos até uma quinzena mais tarde, quando o mais estranho grupo de homens que já vira chegou a Harrenhal. Sob um estandarte com uma cabra negra dotada de cornos ensanguentados, cavalgavam homens de cobre com sinetas nas tranças; lanceiros montados em cavalos rajados de preto e branco; arqueiros com as caras empoadas; homens peludos e atarracados, segurando escudos grosseiros; homens de pele marrom com mantos de penas; um bobo delgado vestido de quadriculado verde e rosa; espadachins com fantásticas barbas divididas pintadas de verde, roxo e prateado; lanceiros com cicatrizes coloridas que cobriam suas bochechas; um homem magro vestido de septão, um outro com ar paternal, usando o cinza dos meistres, e um terceiro com um aspecto doentio, cujo manto de couro era debruado com longos cabelos louros.

À frente vinha um homem magro como um espeto e muito alto, com uma cara repuxada e sem viço que parecia ainda mais longa devido à barba negra e filamentosa que descia desde seu queixo pontiagudo quase até a cintura. O elmo pendurado no arção da sela era de aço negro, esculpido em forma de cabeça de cabra. Em torno do pescoço usava uma corrente feita de moedas interligadas, de tamanho, forma e metais diversos, e o cavalo era um dos estranhos animais pretos e brancos.

– Não quer conhecer aqueles ali, Doninha – disse Weese quando a viu olhando para o homem do elmo de cabra. Tinha consigo dois dos amigos de bebida, homens de armas a serviço de Lorde Lefford.

– Quem são eles? – Arya quis saber.

Um dos soldados soltou uma gargalhada.

– Os Peões, garota. Dedos da Cabra. Os Saltimbancos Sangrentos de Lorde Tywin.

– Cabeça de ervilha. Se fizer com que a esfolem, será você quem vai esfregar o sangue dos degraus – Weese a repreendeu. – São mercenários, Doninha. Chamam a si próprios de Bravos Companheiros. Não use os outros nomes onde eles possam ouvir, senão machucam-na muito. O do elmo de cabra é o capitão, Lorde Vargo Hoat.

– Ele não é lorde coisa nenhuma – disse o segundo soldado. – Ouvi Sor Amory dizer. É só um mercenário qualquer com a boca cheia de baba e que se acha mais do que é.

– É – Weese resmungou –, mas é melhor que ela o chame de lorde se quiser se manter inteira.

Arya voltou a olhar para Vargo Hoat. Quantos monstros tem Lorde Tywin?

Os Bravos Companheiros foram alojados na Torre da Viúva, e Arya não teve de servi-los. Sentiu-se grata por aquilo; na mesma noite em que chegaram, estourou uma luta entre os mercenários e alguns homens dos Lannister. O escudeiro de Sor Harys Swyft foi esfaqueado até a morte, e dois dos Saltimbancos Sangrentos ficaram feridos. Na manhã seguinte, Lorde Tywin enforcou ambos nas muralhas da guarita, na companhia de um dos arqueiros de Lorde Lydden. Weese disse que o arqueiro tinha dado início à discussão por insultar os mercenários em favor de Beric Dondarrion. Depois de os enforcados terem parado de se contorcer, Vargo Hoat e Sor Harys abraçaram-se, beijaram-se e juraram gostar um do outro para sempre, enquanto Lorde Tywin observava. Arya achou engraçado o modo como Vargo Hoat ceceava e se babava, mas não era tão tola a ponto de rir.

Os Saltimbancos Sangrentos não ficaram muito tempo em Harrenhal, mas, antes de voltarem a partir, Arya ouviu um deles contar como um exército de nortenhos sob a liderança de Roose Bolton tinha ocupado o vau rubi do Tridente.

– Se atravessar, Lorde Tywin vai esmagá-lo de novo, como fez no Ramo Verde – disse um arqueiro Lannister, mas os companheiros zombaram dele.

– Bolton nunca atravessará, pelo menos até que o Jovem Lobo se ponha em marcha de Correrrio com seus nortenhos selvagens e os lobos todos.

Arya não sabia que o irmão estava tão perto. Correrrio ficava muito mais próximo do que Winterfell, embora não estivesse certa de sua posição em relação a Harrenhal. Podia arranjar maneira de saber, sei que podia, se ao menos conseguisse sair daqui. Quando pensou em voltar a ver o rosto de Robb, Arya teve de morder o lábio. E também quero ver Jon, e Bran, e Rickon, e a mãe. Até Sansa… iria beijá-la e lhe pedir seu perdão como uma verdadeira senhora, ela iria gostar.