– Um menino transforma-se numa menina – murmurou.
– Sempre fui uma menina. Pensava que não tinha me visto.
– Um homem vê. Um homem sabe.
Arya lembrou-se de que o odiava.
– Assustou-me. Agora é um deles, devia tê-lo deixado arder. O que está fazendo aqui? Vá embora, senão grito por Weese.
– Um homem paga as suas dívidas. Um homem tem três.
– Três?
– O Deus Vermelho tem as suas obrigações, querida menina, e só a morte pode pagar pela vida. Esta menina roubou três que eram dele. Esta menina deve dar três para o lugar das que roubou. Diga os nomes, e um homem fará o resto.
Ele quer me ajudar, Arya compreendeu, com um afluxo de esperança que a deixou tonta.
– Leve-me para Correrrio, não é longe, se roubássemos alguns cavalos podíamos…
Ele pôs um dedo sobre seus lábios.
– Três vidas terá de mim. Nada mais, nada menos. Três e estamos pagos. Por isso, uma menina tem de refletir – ele beijou suavemente seu cabelo. – Mas não durante muito tempo.
Quando Arya acendeu seu toco de vela, dele só restava um tênue odor, uma lufada de gengibre e cravo que pairava no ar. A mulher no nicho seguinte revirou-se na palha, queixando-se da luz, e Arya apagou a vela com um sopro. Quando fechou os olhos, viu rostos nadando na sua frente. Joffrey e a mãe, Ilyn Payne, Meryn Trant e Sandor Clegane… Mas estavam em Porto Real, a centenas de milhas de distância, e Sor Gregor permanecera ali apenas algumas noites antes de partir para mais pilhagem, levando consigo Raff, Chiswyck e Cócegas. Mas Sor Amory Lorch encontrava-se ali, e ela o odiava quase tanto quanto à Montanha. Não odiava? Não estava segura. E havia sempre Weese.
Voltou a pensar nele na manhã seguinte, quando a falta de sono a fez bocejar.
– Doninha – Weese ronronou –, da próxima vez que vir essa boca abrir, puxo sua língua para fora e a dou para minha cadela comer – ele torceu sua orelha entre os dedos para se certificar de que ela ouvia, e disse-lhe para voltar para os degraus, que os queria limpos até o terceiro patamar quando a noite caísse.
Enquanto trabalhava, Arya pensou nas pessoas que queria ver mortas. Fingiu que conseguia ver seus rostos nos degraus, e esfregou com mais força para se ver livre deles. Os Stark estavam em guerra com os Lannister, e ela era uma Stark, portanto, devia matar tantos Lannister quanto pudesse, era isso que se fazia nas guerras. Mas não lhe parecia que pudesse confiar em Jaqen. Devia matá-los eu mesma. Sempre que o pai condenara um homem à morte, era ele próprio quem cumpria a sentença com Gelo, sua espada. “Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo nos olhos e ouvir suas últimas palavras”, ouvira-o dizer uma vez a Robb e a Jon.
No dia seguinte e no outro evitou Jaqen H’ghar. Não era difícil. Era muito pequena e Harrenhal muito grande, cheio de lugares onde um rato podia se esconder.
E então Sor Gregor voltou, mais cedo do que o esperado, trazendo dessa vez um rebanho de cabras no lugar de prisioneiros. Arya ouviu dizer que havia perdido quatro homens num dos ataques noturnos de Lorde Beric, mas aqueles que Arya odiava regressaram incólumes e instalaram-se no segundo andar da Torre dos Gemidos. Weese mandou abastecê-los bem de bebida.
– Têm sempre muita sede, estes aí – resmungou. – Doninha, sobe e pergunta se têm alguma roupa que precise de remendos, e eu mandarei as mulheres tratarem disso.
Arya correu por seus degraus bem escovados. Ninguém prestou qualquer atenção nela quando entrou. Chiswyck estava sentado perto da lareira com um corno de cerveja na mão, contando uma de suas histórias engraçadas. Não se atreveu a interromper, porque não queria um lábio ensanguentado.
– Foi depois do Torneio da Mão, antes de a guerra chegar – Chiswyck estava dizendo. – Seguíamos no caminho de volta para o oeste, sete, mais Sor Gregor. Raff ia comigo, e o jovem Joss Stilwood, que tinha servido de escudeiro ao sor nas liças. Bom, chegamos a um mijinho de rio, que corria cheio porque tinha chovido. Não havia maneira de atravessar, mas tinha uma cervejaria ali perto, portanto, nem tudo estava perdido. Sor empurrou o cervejeiro e lhe disse para manter nossos cornos cheios até que as águas baixassem. Deviam ter visto os olhos de porco do homem brilhando ao ver a prata. Então veio nos trazer cerveja, ele e a filha, e era um negócio ralo e aguado, nada mais que mijo marrom, que não me deixou feliz, e ao sor também não. E o cervejeiro o tempo todo dizendo como estava contente por nos ter ali, que a freguesia andava fraca por causa das chuvas. O babaca não fechava a matraca, mesmo com o sor não dizendo uma palavra, pensando no Cavaleiro dos Maricas e naquele truque de velhaco que tinha usado. Dava pra ver como a boca dele se apertava, e então eu e os outros rapazes bem sabíamos que não era boa ideia dirigir-lhe nem que fosse um guincho, mas aquele cervejeiro tinha que falar, e até perguntou como o sor se saíra na justa. O sor só lhe deu aquele olhar – Chiswyck soltou um cacarejo, emborcou a cerveja e limpou a espuma com as costas da mão. – Entretanto, a filha dele andava de um lado para o outro servindo e indo buscar mais cerveja, uma coisinha gorda, com dezoito anos, por aí…
– O mais certo é treze – disse Raff, o Querido, com voz arrastada.
– Bem, seja como for, ela não era grande coisa de se ver, mas Eggon tinha bebido e ficou pegando nela, e pode ser que eu também tenha lhe dado umas pegadas, e Raff disse ao jovem Stilwood que devia arrastá-la lá pra cima e virar um homem, dando coragem ao rapaz. Por fim, Josse meteu a mão debaixo da saia, e ela guinchou, deixou cair o jarro e fugiu pra cozinha. Bom, devia ter ficado por ali, mas, o que fez o velho idiota? Foi até o sor e lhe pediu para nos obrigar a deixar a moça em paz, porque era um cavaleiro ungido, e isso tudo. Sor Gregor não tava prestando atenção à nossa zoeira, mas, então, olhou, cês sabem como ele faz, e ordenou que a moça fosse trazida à sua presença. E o velho teve de arrastá-la da cozinha, e não pôde se queixar de ninguém a não ser dele mesmo. O sor olhou-a de cima a baixo e disse: “Então é esta a puta com que está tão preocupado”, e aquele velho pateta respondeu: “A minha Layna não é puta, sor”, bem na cara de Gregor. O sor nem pestanejou, só disse: “Agora é”. Atirou ao velho outra prata, arrancou o vestido da mulher e a comeu ali mesmo, na mesa, na frente do pai, com ela saltando e se remexendo como um coelho e fazendo barulho. A expressão na cara do velho… ri tanto, que saiu cerveja pelo meu nariz. Então, um rapaz ouviu o barulho, o filho, acho eu, saiu correndo da cave, e o Raff teve de espetar uma adaga na sua barriga. Aí o sor já tinha acabado, e voltou pra bebida, e todos tivemos a nossa vez. O Tobbot, sabem como ele é, virou a moça de barriga para baixo e entrou por trás. Quando chegou a minha vez, a menina já tinha parado de lutar, quem sabe tinha achado que, afinal, gostava, ainda que, pra dizer a verdade, eu não tivesse me importado se se remexesse um pouco. Agora vem a melhor parte… quando tudo chegou ao fim, o sor disse ao velho que queria o troco. A moça não valia uma moeda de prata, ele disse… E não é que o velho foi buscar um punhado de cobres, pedindo perdão ao sor e agradecendo pela preferência!
Todos os homens estouraram em gargalhadas, nenhum tão alto quanto o próprio Chiswyck, que ria tanto de sua história que deixou escorrer ranho de seu nariz para a áspera barba grisalha. Arya ficou nas sombras da escada observando-o. Deslizou de volta para o porão sem proferir uma palavra. Quando Weese descobriu que não tinha perguntado nada sobre a roupa, puxou seus calções para baixo e bateu nela com um pau até que sangue escorresse por suas coxas, mas Arya fechou os olhos e pensou em todos os ditados que Syrio lhe ensinara, e, assim, não sentiu o corretivo.