– Senhora Stark – disse Stannis Baratheon com uma cortesia gelada, quando refreou o cavalo. Inclinou a cabeça, mais calva do que Catelyn se recordava.
– Lorde Stannis – ela respondeu.
Sob a barba bem aparada, seu pesado maxilar apertou-se com força, mas não a incomodou com títulos. Por esse fato, Catelyn sentiu-se devidamente grata.
– Não esperava encontrá-la em Ponta Tempestade.
– Não esperava estar aqui.
Seus olhos cavos olharam-na com desconforto. Aquele não era um homem dado a cortesias fáceis.
– Lamento a morte de seu senhor – disse –, muito embora Eddard Stark não fosse meu amigo.
– Nunca foi seu inimigo, senhor. Quando os senhores Tyrell e Redwyne o tiveram prisioneiro naquele castelo, faminto, foi Eddard Stark quem quebrou o cerco.
– Às ordens de meu irmão, não por gostar de mim – Stannis respondeu. – Lorde Eddard cumpriu seu dever, não nego. Terei alguma vez feito menos do que isso? Eu é que devia ter sido Mão de Robert.
– Isso foi vontade de seu irmão. Ned nunca quis o cargo.
– Mas o aceitou. Aquilo que devia ter sido meu. Mesmo assim, dou-lhe minha palavra, terá justiça por seu assassinato.
Como adoram prometer cabeças, esses homens que querem ser reis.
– Seu irmão prometeu-me o mesmo. Mas, a bem da verdade, preferia ter minhas filhas de volta, e deixar a justiça para os deuses. Cersei ainda detém minha Sansa, e de Arya não há notícias desde o dia da morte de Robert.
– Se suas filhas forem encontradas quando eu tomar a cidade, serão enviadas – vivas ou mortas, era o que vinha implícito naquele tom de voz.
– E quando será isso, Lorde Stannis? Porto Real fica perto de sua Pedra do Dragão, mas, em vez disso, encontro-o aqui.
– É franca, Senhora Stark. Muito bem, responderei com franqueza. Para tomar a cidade, necessito das forças desses senhores do sul que vejo no campo. É meu irmão que os possui. Tenho, portanto, de tirá-los dele.
– Os homens depositam sua lealdade onde desejam, senhor. Esses senhores juraram fidelidade a Robert e à Casa Baratheon. Se o senhor e seu irmão pusessem de lado sua querela…
– Não tenho qualquer querela com Renly, se ele se mostrar respeitador. Sou seu irmão mais velho, e seu rei. Desejo apenas o que é meu por direito. Renly deve-me lealdade e obediência, e pretendo conquistá-las. Dele e desses outros senhores – Strannis estudou o rosto de Catelyn. – E que causa a traz até este campo, senhora? A Casa Stark aliou-se ao meu irmão, é isso?
Este nunca se vergará, pensou Catelyn, mas tinha de tentar mesmo assim. Havia muita coisa em jogo.
– Meu filho reina como Rei no Norte, pela vontade de nossos senhores e do povo. Não dobra o joelho perante nenhum homem, mas estende a mão em amizade a todos.
– Os reis não têm amigos – Stannis disse bruscamente –, só súditos e inimigos.
– E irmãos – gritou uma voz alegre atrás de Catelyn. Ela relanceou por cima do ombro e viu o palafrém de Lorde Renly escolhendo caminho por entre os tocos. O Baratheon mais novo estava magnífico em seu gibão de veludo verde e manto de cetim forrado de arminho. A coroa de rosas douradas cingia suas têmporas, com a cabeça de veado em jade erguendo-se sobre a testa e o longo cabelo negro derramando-se por baixo. Pedaços irregulares de diamante negro estavam incrustados em seu cinto, e uma corrente de ouro e esmeraldas enrolava-se em torno de seu pescoço.
Renly também havia escolhido uma mulher para transportar seu estandarte, embora Brienne escondesse o rosto e as formas por trás de uma armadura que não mostrava qualquer vislumbre de seu sexo. No topo da lança com três metros e meio, o veado coroado empinava-se, negro sobre ouro, quando o vento vindo do mar enrugava o tecido.
A saudação do irmão foi seca.
– Lorde Renly.
– Rei Renly. É mesmo você, Stannis?
Stannis franziu a testa.
– Quem mais haveria de ser?
Renly encolheu descontraidamente os ombros.
– Quando vi esse estandarte, não consegui ter certeza. De quem é a bandeira que usa?
– Minha.
A sacerdotisa vestida de vermelho interveio.
– O rei escolheu para seu símbolo o coração em chamas do Senhor da Luz.
Renly pareceu se divertir com aquilo.
– Melhor assim. Se usássemos ambos o mesmo estandarte, a batalha seria terrivelmente confusa.
Catelyn interveio:
– Esperemos que não haja batalha. Nós três partilhamos um inimigo comum que gostaria de destruir a todos.
Stannis a estudou, sem sorrir.
– O Trono de Ferro é legitimamente meu. Todos os que negam isso são meus inimigos.
– É o reino inteiro que nega isso, irmão – Renly rebateu. – Velhos negam-no com os estertores da morte, e crianças por nascer negam-no nos ventres das mães. Negam-no em Dorne e negam-no na Muralha. Ninguém o quer como rei. Lamento.
Stannis cerrou o maxilar com uma expressão tensa no rosto.
– Jurei que nunca lidaria com você enquanto usasse sua coroa de traidor. Gostaria de ter mantido essa promessa.
– Isso é uma loucura – Catelyn se interpôs num tom áspero. – Lorde Tywin espera em Harrenhal com vinte mil espadas. O restante do exército do Regicida reagrupou-se no Dente Dourado, outra tropa Lannister reúne-se à sombra de Rochedo Casterly, e Cersei e seu filho defendem Porto Real e o seu precioso Trono de Ferro. Cada um de vocês se autodenomina rei, mas o reino sangra, e ninguém levanta uma espada para defendê-lo, a não ser meu filho.
Renly encolheu os ombros:
– Seu filho ganhou algumas batalhas. Eu vencerei a guerra. Os Lannister podem esperar.
– Se tem propostas a fazer, faça-as – Stannis os desafiou bruscamente –, senão vou embora.
– Muito bem. Proponho que desmonte, dobre o joelho e me jure fidelidade.
Stannis abafou a ira.
– Não terá isso jamais.
– Serviu a Robert, por que não a mim?
– Robert era meu irmão mais velho. Você é o mais novo.
– Mais novo, mais ousado, e muito mais agradável…
– … E também um ladrão e usurpador.
Renly encolheu os ombros:
– Os Targaryen chamavam Robert de usurpador. Ele pareceu ser capaz de suportar a vergonha. Eu também serei.
Assim não será possível, Catelyn pensou.
– Escutem a si mesmos! Se fossem meus filhos, bateria suas cabeças uma na outra e trancaria os dois no quarto até que se lembrassem de que são irmãos.
Stannis franziu-lhe o cenho:
– Mostra presunção demais, Senhora Stark. Eu sou o rei legítimo, e seu filho não é menos traidor do que meu irmão aqui. Seu dia também chegará.
A ameaça clara alimentou sua fúria:
– Está muito à vontade para chamar os outros de traidor e usurpador, senhor, mas em que é diferente? Diz que só o senhor é o rei legítimo, mas parece-me que Robert teve dois filhos. Por todas as leis dos Sete Reinos, Príncipe Joffrey é seu legítimo herdeiro, e o dele é Tommen… e nós somos todos traidores, por melhores que sejam nossos motivos.
Renly soltou uma gargalhada:
– Tem de perdoar a Senhora Catelyn, Stannis. Ela vem de Correrrio, uma longa viagem a cavalo. Temo que nunca tenha visto sua cartinha.
– Joffrey não é da semente do meu irmão – Stannis disse sem cerimônia. – Nem Tommen. São bastardos. A menina também. Todos abominações nascidas do incesto.
Seria possível que Cersei fosse louca a esse ponto? Catelyn estava sem fala.
– Não é uma bela história, senhora? – Renly perguntou. – Estava acampado em Monte Chifre quando Lorde Tarly recebeu sua carta, e devo dizer que me deixou sem fôlego – sorriu para o irmão. – Nunca suspeitei que fosse tão esperto, Stannis. Se ao menos fosse verdade, seria realmente herdeiro de Robert.