– Se ao menos fosse verdade? Está me chamando de mentiroso?
– Pode provar alguma palavra dessa fábula?
Stannis rangeu os dentes.
Robert nunca poderia ter sabido, Catelyn pensou, caso contrário Cersei teria perdido a cabeça no mesmo instante.
– Lorde Stannis – ela perguntou –, se sabia que a rainha era culpada de crimes tão monstruosos, por que se manteve em silêncio?
– Não me mantive em silêncio. Levei minhas suspeitas a Jon Arryn.
– Em vez de levá-las a seu irmão?
– A consideração que meu irmão tinha por mim nunca passou de dever – Stannis respondeu. – Vindas de mim, tais acusações pareceriam impertinentes e interesseiras, uma maneira de me colocar em primeiro lugar na linha de sucessão. Achei que Robert estaria mais disposto a ouvir se as acusações viessem de Lorde Arryn, de quem ele gostava.
– Ah – Renly interveio. – Então, temos a palavra de um morto.
– Crê que ele morreu por acaso, seu idiota de vista curta? Cersei mandou envenená-lo, por temer que a desmascarasse. Lorde Jon andava reunindo certas provas…
– … Que sem dúvida morreram com ele. Que inconveniência.
Catelyn recordava, encaixando as peças umas nas outras.
– Minha irmã Lysa acusou a rainha de matar seu marido numa carta que me enviou – admitiu. – Mais tarde, no Ninho da Águia, atribuiu o homicídio a Tyrion, o irmão da rainha.
Stannis fungou:
– Se puser o pé num ninho de cobras, será que interessa qual delas morde primeiro?
– Toda essa conversa sobre cobras e incesto é divertida, mas nada muda. Pode bem ter a melhor pretensão, Stannis, mas ainda tenho o maior exército – a mão de Renly deslizou para dentro do seu manto. Stannis viu, e pegou de imediato no cabo da espada, mas, antes que conseguisse mostrar o aço, o irmão apresentou-lhe… um pêssego. – Quer um, irmão? – ele sorriu. – De Jardim de Cima. Nunca provou nada tão doce, garanto – deu uma mordida, fazendo escorrer sumo pelo canto da boca.
– Não vim até aqui para comer fruta – Stannis estava furioso.
– Senhores! – Catelyn se interpôs novamente. – Devíamos estar debatendo os termos de uma aliança, não trocando insultos.
– Um homem nunca devia recusar saborear um pêssego – Renly disse, jogando o caroço fora. – Pode não voltar a ter essa possibilidade. A vida é curta, Stannis. Lembre-se do que os Stark dizem. O Inverno está chegando – limpou a boca com as costas da mão.
– Também não vim até aqui para ser ameaçado.
– E não foi – Renly rebateu. – Quando eu fizer ameaças, saberá. Na verdade, nunca gostei de você, Stannis, mas é do meu sangue, e não tenho nenhum desejo de matá-lo. Portanto, se é o castelo de Ponta Tempestade que deseja, fique com ele… como um presente de irmão. Tal como Robert me deu um dia, dou-o a você.
– Não é seu para que me dê. É meu por direito.
Suspirando, Renly virou-se na sela:
– Que vou fazer com este meu irmão, Brienne? Recusa o pêssego, recusa o castelo, até evitou meu casamento…
– Ambos sabemos que seu casamento foi uma farsa. Há um ano conspirava para transformar a moça numa das rameiras de Robert.
– Há um ano conspirava para fazer da moça a rainha de Robert – Renly o corrigiu. – Mas, que importa? O javali ficou com Robert e eu fiquei com Margaery. Ficará feliz por saber que chegou às minhas mãos donzela.
– Na sua cama é provável que morra donzela.
– Oh, espero obter dela um filho antes do fim do ano. Diga-me, quantos filhos você tem, Stannis? Ah, sim… nenhum – Renly sorriu de forma inocente. – Quanto à sua filha, eu compreendo. Se minha esposa se parecesse com a sua, também mandaria meu bobo satisfazê-la.
– Basta! – Stannis rugiu. – Não rirá na minha cara, está me ouvindo? Não rirá! – arrancou a espada de dentro da bainha. O aço cintilou com um estranho brilho à luz pálida do sol, ora vermelho, ora amarelo, ora uma brasa branca. O ar ao seu redor parecia estremecer, como que por causa do calor.
O cavalo de Catelyn relinchou e recuou um passo, mas Brienne interpôs-se entre os irmãos, de espada na mão.
– Guarde seu aço! – ela gritou para Stannis.
Cersei Lannister está rindo até ficar sem fôlego, pensou Catelyn, sentindo-se fatigada.
Stannis apontou a espada cintilante para o irmão.
– Não sou desprovido de misericórdia – trovejou o homem que era notório por ser desprovido de misericórdia. – E não quero macular a Luminífera com o sangue de um irmão. Em nome da mãe que nos deu à luz, darei esta noite para você repensar sua loucura, Renly. Arreie suas bandeiras e venha me encontrar antes da alvorada, e lhe darei Ponta Tempestade e seu antigo lugar no conselho, e até o nomearei meu herdeiro até que eu gere um filho. De outra forma, vou destruí-lo.
Renly riu.
– Stannis, esta é uma espada muito bonita, concordo, mas acho que o brilho que ela emite estragou seus olhos. Olhe os campos, irmão. Vê todos aqueles estandartes?
– Acredita que alguns pedaços de pano farão de você um rei?
– As espadas dos Tyrell o farão… Rowan, Tarly e Caron farão de mim rei, com machados, maças e martelos de guerra. Flechas Tarth e lanças Penrose, Fossoway, Cuy, Mullendore, Estermont, Selmy, Hightower. Oakheart, Crane, Caswell, Blackbar, Morrigen, Beesbury, Shermer, Dunn, Footly… Até a Casa Florent, tios e primos de sua esposa. São eles que me farão rei. Toda a cavalaria do sul me acompanha, e esta é a menor parte do meu poder. Minha infantaria vem atrás, cem mil espadas, lanças e piques. E você vai me destruir? Com o que, pergunto? Aquela miserável ralé que ali vejo amontoada sob as muralhas do castelo? Estimo-os em cinco mil, e estou sendo generoso, senhores do bacalhau, cavaleiros da cebola e mercenários. Metade deles é capaz de passar para o meu lado antes que a batalha se inicie. Meus batedores dizem-me que tem menos de quatrocentos homens a cavalo… cavaleiros livres vestidos de couro fervido que não aguentarão um instante contra lanceiros com armadura. Não me interessa o quão experiente você se ache como guerreiro, Stannis, mas aquela sua tropa não sobreviverá à primeira investida da minha vanguarda.
– Veremos, irmão – uma pequena luz pareceu ter saído do mundo quando Stannis voltou a enfiar a espada na bainha. – Quando chegar a alvorada, veremos.
– Espero que seu novo deus seja misericordioso, irmão.
Stannis respondeu com uma fungadela e afastou-se a galope, desdenhoso. A sacerdotisa vermelha ficou um momento para trás.
– Olhe seus pecados, Lorde Renly – disse, enquanto virava o cavalo.
Catelyn e Lorde Renly voltaram juntos ao acampamento, onde milhares de seus homens e o punhado de homens dela esperavam pelo retorno de ambos.
– Aquilo foi divertido, embora não muito útil – ele comentou. – Gostaria de saber onde posso encontrar uma espada como aquela. Bem, sem dúvida Loras a dará a mim após a batalha. Desgosta-me que tenha de acabar assim.
– Tem um modo alegre de mostrar desgosto – disse Catelyn, cuja aflição não era fingida.
– Tenho? – Renly encolheu os ombros. – Que seja. Stannis nunca foi o mais querido dos irmãos, confesso. Acha que aquela sua história é verdadeira? Se Joffrey for descendente do Regicida…
– … Seu irmão é o legítimo herdeiro.
– Enquanto viver – Renly admitiu. – Embora esta seja uma lei tola, não concorda? Por que o filho mais velho, e não o mais adequado? A coroa condiz comigo, como nunca condisse com Robert e não condiz com Stannis. Tenho o que é necessário para ser um grande rei, forte, mas generoso, inteligente, justo, diligente, leal para com os meus amigos, e terrível para os inimigos, mas capaz de perdoar, paciente…