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– … Humilde? – Catelyn sugeriu.

Renly soltou uma gargalhada:

– Tem de permitir a um rei alguns defeitos, senhora.

Catelyn sentia-se muito cansada. Tudo fora em vão. Os irmãos Baratheon iriam afogar-se um ao outro em sangue, enquanto seu filho teria de enfrentar os Lannister sozinho, e nada do que pudesse dizer ou fazer mudaria alguma coisa. Já é mais que hora de voltar a Correrrio para fechar os olhos do meu pai, pensou. Pelo menos isso posso fazer. Posso ser uma enviada fraca, mas sou boa carpideira. Que os deuses me salvem.

O acampamento de Renly situava-se no topo de uma pequena cumeada pedregosa que corria do norte para o sul. Era muito mais ordenado do que o grande acampamento junto ao Vago, embora tivesse apenas um quarto do tamanho. Quando soube do assalto do irmão a Ponta Tempestade, Renly dividiu suas forças de forma muito semelhante ao que Robb fizera nas Gêmeas. Deixou a grande massa de infantaria para trás em Ponteamarga, com a jovem rainha, e carroças, carros, animais de carga e toda a pesada maquinaria de cerco, enquanto ele mesmo liderava os cavaleiros e cavaleiros livres numa incursão rápida para o Leste.

Como era parecido com o irmão Robert, mesmo nisso… Só que Robert sempre tivera Eddard Stark para temperar sua ousadia com cautela. Ned teria certamente convencido Robert a levar todas as suas forças para rodear Stannis e sitiar seu cerco. Renly negara a si próprio essa possibilidade com sua corrida precipitada para lutar com o irmão. Tinha estendido demais suas linhas de abastecimento, deixou os alimentos para homens e animais a dias de viagem, com todas as suas carroças, mulas e seus bois. Tinha de dar batalha em breve, ou passaria fome.

Catelyn mandou Hal Mollen cuidar dos cavalos enquanto acompanhava Renly de volta ao pavilhão real no coração do acampamento. Dentro das paredes de seda verde, os capitães e senhores vassalos do jovem Baratheon esperavam para ouvir notícias da conferência.

– Meu irmão não mudou – disse-lhes seu jovem rei, enquanto Brienne desprendia seu manto e tirava sua coroa de ouro e jade da cabeça. – Castelos e honrarias não o apaziguarão, precisa derramar sangue. Bem, tenho a intenção de lhe conceder o desejo.

– Vossa Graça, não vejo aqui necessidade de batalha – interveio Lorde Mathis Rowan. – O castelo tem uma guarnição forte e está bem aprovisionado, Sor Cortnay Penrose é um comandante experiente, e ainda não foi construída uma máquina de guerra que consiga abrir uma brecha nas muralhas de Ponta Tempestade. Que Lorde Stannis faça seu cerco. Não encontrará nele alegrias, e enquanto fica aqui, no frio, com fome e sem ganhar nada, nós tomaremos Porto Real.

– E ter homens dizendo que temi enfrentar Stannis?

– Só tolos dirão tal coisa – Lorde Mathis argumentou.

Renly olhou para os outros.

– O que vocês dizem?

– Digo que Stannis é um perigo para o senhor – declarou Lorde Randyll Tarly. – Deixe-o sem derramar sangue, e só ficará mais forte, enquanto seu poder é diminuído pela batalha. Os Lannister não serão vencidos em um dia. Quando terminar com eles, Lorde Stannis poderá ser tão forte quanto você… ou mais.

Outros concordaram em coro. O rei pareceu satisfeito.

– Então lutaremos.

Falhei a Robb, tal como falhei a Ned, pensou Catelyn.

– Senhor – ela anunciou. – Se está decidido a dar batalha, já não tenho motivo para ficar aqui. Peço-lhe licença para regressar a Correrrio.

– Não a tem – Renly sentou-se numa cadeira de campanha.

Catelyn ficou tensa.

– Tive esperança de ajudá-lo a fazer a paz, senhor. Não o ajudarei a fazer a guerra.

Renly encolheu os ombros.

– Atrevo-me a dizer que triunfaremos sem os seus vinte e cinco homens, senhora. Não pretendo que participe na batalha, apenas que a observe.

– Estive no Bosque dos Murmúrios, senhor. Vi matança suficiente. Vim até aqui como embaixadora…

– E como embaixadora partirá, mas mais sábia do que quando chegou. Verá com seus próprios olhos o que está reservado aos rebeldes, para que seu filho possa escutá-lo de seus lábios. Nada tema, manteremos a senhora a salvo – Renly virou-lhe as costas para dar suas ordens. – Lorde Mathis, você liderará o centro da batalha principal. Bryce, você ficará com o flanco esquerdo. O direito é meu. Lorde Estermont, você comandará a reserva.

– Não falharei ao senhor, Vossa Graça – este último respondeu.

Lorde Mathis Rowan interveio:

– Quem comandará a vanguarda?

– Vossa Graça – Sor Jon Fossoway se fez ouvir. – Suplico essa honra.

– Suplique o que quiser – Sor Guyard, o Verde interveio. – O correto é que seja um dos sete a dar o primeiro golpe.

– É preciso mais do que um manto bonito para investir sobre uma muralha de escudos – Randyll Tarly bradou. – Quando eu já comandava a vanguarda de Mace Tyrell, você ainda mamava na teta da mãe, Guyard.

Um clamor encheu o pavilhão quando outros homens avançaram sonoramente com suas reivindicações. Os cavaleiros do Verão, pensou Catelyn. Renly ergueu uma mão:

– Basta, senhores. Se eu tivesse uma dúzia de vanguardas, todos deveriam ter uma, mas a maior glória pertence por direito ao maior dos cavaleiros. Sor Loras dará o primeiro golpe.

– Com um coração feliz, Vossa Graça – o Cavaleiro das Flores ajoelhou-se perante o rei. – Dê-me a sua bênção, e um cavaleiro para cavalgar a meu lado com o seu estandarte. Deixe que o veado e a rosa partam para a batalha lado a lado.

Renly olhou em volta.

– Brienne.

– Vossa Graça? – ela ainda usava a armadura de aço azul, embora tivesse tirado o elmo. A tenda cheia de gente estava quente, e o suor colava seus cabelos amarelos e sem vigor no rosto largo e simples. – Meu lugar é ao seu lado. Sou sua protetora juramentada…

– Uma entre sete – lembrou-lhe o rei. – Nada tema, quatro de seus companheiros estarão comigo durante a luta.

Brienne caiu de joelhos.

– Se tenho de me separar de Vossa Graça, conceda-me a honra de armá-lo para a batalha.

Catelyn ouviu alguém soltar um riso abafado atrás de si. Ela o ama, coitada, pensou com tristeza. Quer se fazer de escudeiro só para poder tocá-lo, e não se importa que os outros a considerem uma tola.

– Concedido – Renly respondeu. – Deixem-me agora, todos vocês. Até os reis devem descansar antes de uma batalha.

– Senhor – Catelyn se adiantou. – Há um pequeno septo na última aldeia por onde passamos. Se não me permite que parta para Correrrio, dê-me licença para ir até lá e rezar.

– Como quiser. Sor Robar, dê à Senhora Catelyn uma escolta segura até esse septo… Mas certifique-se de que ela volte para junto de nós de madrugada.

– Talvez fizesse bem em rezar também – ela acrescentou.

– Por uma vitória?

– Por sabedoria.

Renly soltou uma gargalhada:

– Loras, fique e ajude-me a rezar. A última vez foi há tanto tempo que me esqueci de como se faz. Quanto ao resto de vocês, quero todos os homens em seus lugares à primeira luz da aurora, armados, com as armaduras postas e montados. Daremos a Stannis uma alvorada de que não se esquecerá tão cedo.

Caía o ocaso quando Catelyn saiu do pavilhão. Sor Robar Royce pôs-se ao seu lado. Conhecia-o um pouco… Um dos filhos de Bronze Yohn, bem-apessoado à sua maneira dura, um guerreiro de torneios de certo renome. Renly presenteara-o com um manto de arco-íris e uma armadura vermelho-sangue, e nomeara-o um de seus sete.

– Está muito longe do Vale, sor – disse-lhe.

– E você longe de Winterfell, senhora.

– Eu sei o que me trouxe aqui, mas por que você veio? Essa batalha não é mais sua do que minha.

– Fiz dela minha batalha quando fiz de Renly meu rei.

– Os Royce são vassalos da Casa Arryn.

– O senhor meu pai deve lealdade à Senhora Lysa, e ao seu herdeiro também. Um segundo filho deve encontrar a glória onde puder – Sor Robar encolheu os ombros. – Um homem se cansa de torneios.