Não podia ter mais do que vinte e um anos, pensou Catelyn, a mesma idade do seu rei… Mas o rei dela, o seu Robb, tinha mais sabedoria com quinze anos do que esse jovem conseguira arranjar. Ou pelo menos por isso ela rezava.
No pequeno canto do acampamento reservado a Catelyn, Shadd cortava cenouras em rodelas e as colocava em um caldeirão, Hal Mollen jogava dados com três de seus homens de Winterfell, e Lucas Blackwood afiava o punhal.
– Senhora Stark – disse Lucas quando a viu –, Mollen diz que haverá uma batalha à alvorada.
– Hal tem a verdade – e também uma língua solta, ao que parece.
– Lutamos ou fugimos?
– Rezamos, Lucas. Rezamos.
Sansa
–Quanto mais tempo o deixar esperando, pior as coisas correrão para você – preveniu-a Sandor Clegane.
Sansa tentava se apressar, mas os dedos atrapalhavam-se com os botões e os nós. Cão de Caça falava sempre rudemente, mas havia algo no modo como a olhava que a enchia de pavor. Teria Joffrey descoberto seus encontros com Sor Dontos? Por favor, não, pensou, enquanto escovava o cabelo. Sor Dontos era sua única esperança. Tenho de ficar bonita. Joff gosta que eu seja bonita, sempre gostou de me ver com este vestido, com esta cor. Alisou o tecido. O pano ficava justo em seu peito.
Quando saiu, Sansa caminhou à esquerda do Cão de Caça, longe do lado queimado de seu rosto.
– Diga-me o que fiz.
– Não foi você. Foi seu real irmão.
– Robb é um traidor – Sansa conhecia as palavras de cor. – Não tive nenhum papel no que quer que ele tenha feito – deuses, sejam bons, não permitam que seja o Regicida. Se Robb tivesse feito mal a Jaime Lannister, isso custaria sua vida. Pensou em Sor Ilyn, e no modo como aqueles terríveis olhos claros sem piedade olhavam naquela cara doentia e marcada pelas bexigas.
Cão de Caça fungou:
– Treinaram-na bem, passarinho.
Conduziu-a até junto da muralha interior, onde uma multidão tinha se reunido em torno dos alvos. Homens afastaram-se para deixá-los passar. Conseguia ouvir Lorde Gyles tossindo. Cavalariços indolentes olharam-na com insolência, mas Sor Horas Redwyne desviou o olhar quando ela passou, e o irmão Hobber fingiu não vê-la. Um gato amarelo morria no chão, miando que dava dó, com uma flecha de besta espetada nas costelas. Sansa contornou-o, sentindo-se agoniada.
Sor Dontos aproximou-se, montado em sua vassoura como se ela fosse um cavalo; desde que estivera bêbado demais para montar o corcel de batalha no torneio, o rei havia decretado que daí em diante devia andar sempre a cavalo.
– Seja corajosa – sussurrou, apertando seu braço.
Joffrey estava no centro da multidão, girando a manivela de uma besta ornamentada. Sor Boros e Sor Meryn acompanhavam-no. Vê-los foi o suficiente para dar nós em suas entranhas.
– Vossa Graça – Sansa caiu de joelhos.
– Ajoelhar não a salvará agora – disse o rei. – Levante-se. Está aqui para responder pelas últimas traições do seu irmão.
– Vossa Graça, seja o que for que o traidor do meu irmão fez, não participei. Sabe disso, suplico-lhe, por favor…
– Ponha-a em pé!
Cão de Caça cumpriu a ordem, mas não sem alguma gentileza.
– Sor Lancel – Joff falou em tom de ordem. – Conte-lhe esse ultraje.
Sansa sempre achara Lancel Lannister agradável e bem falante, mas não havia piedade ou gentileza no olhar que lhe lançou.
– Usando alguma vil bruxaria, seu irmão caiu sobre Sor Stafford Lannister com um exército de lobos a menos de três dias de viagem de Lanisporto. Milhares de bons homens foram massacrados enquanto dormiam, sem terem a chance de pegar na espada. Depois do massacre, os nortenhos banquetearam-se com a carne dos mortos.
O horror enrolou mãos frias em torno da garganta de Sansa.
– Não tem nada a dizer? – Joffrey perguntou.
– Vossa Graça, a pobre criança está em choque – Sor Dontos murmurou.
– Silêncio, bobo – Joffrey ergueu a besta e apontou-a para o rosto de Sansa. – Vocês, os Stark, são tão desnaturados quanto esses seus lobos. Não me esqueci de como seu monstro me atacou.
– Esse foi o lobo de Arya – ela disse. – Minha Lady nunca lhe fez mal, mas matou-a mesmo assim.
– Não, foi seu pai quem o fez. Mas eu mandei matar seu pai. Gostaria de ter feito isso eu mesmo. Ontem à noite matei um homem que era maior do que seu pai. Vieram ao portão gritar meu nome e exigir pão, como se eu fosse algum padeiro, mas dei-lhes uma lição. Atingi o mais barulhento bem na garganta.
– E ele morreu? – com a feia cabeça de ferro da flecha olhando-a de frente, era difícil pensar em outra coisa a dizer.
– Claro que morreu, tinha a minha flecha na garganta. Havia uma mulher atirando pedras, e também a acertei, mas só no braço – franzindo a testa, ele abaixou a besta. – Mataria você também, mas, se o fizer, minha mãe diz que matarão meu tio Jaime. Em vez disso, será punida e mandaremos contar ao seu irmão o que lhe acontecerá se não se render. Cão, bata nela.
– Permita que seja eu a bater – Sor Dontos abriu caminho aos empurrões, com a armadura de lata tinindo. Estava armado com uma “maça de armas” cuja cabeça era um melão. Meu Florian. Poderia beijá-lo, mesmo com a pele manchada e as veias estouradas. Ele trotou na vassoura em volta dela, gritando: “Traidora, traidora”, batendo na sua cabeça com o melão. Sansa cobriu-se com as mãos, cambaleando cada vez que o fruto a atingia, com o cabelo pegajoso desde o segundo golpe. Havia gente rindo. O melão voou em pedaços. Ria Joffrey, Sansa rezou enquanto o sumo escorria pelo seu rosto e pela parte da frente do vestido de seda azul. Ria e fique satisfeito.
Joffrey nem sequer um risinho soltou.
– Boros, Meryn.
Sor Meryn Trant agarrou Dontos pelo braço e o atirou bruscamente para longe. O bobo de cara vermelha estatelou-se, com vassoura, melão e tudo o mais. Sor Boros pegou Sansa.
– Não toque em seu rosto – Joffrey ordenou. – Gosto dela bonita.
Boros atirou um punho contra a barriga de Sansa, deixando-a sem ar. Quando se dobrou, o cavaleiro agarrou-a pelo cabelo e puxou a espada, e por um hediondo instante ela teve certeza de que pretendia abrir sua garganta. Quando bateu com a parte lateral da lâmina nas suas coxas, pensou que suas pernas se quebrariam com a força do golpe. E gritou. Lágrimas cobriram seus olhos. Terminará em breve. Mas, depressa perdeu a conta dos golpes.
– Basta – Sansa ouviu Cão de Caça rouquejar.
– Não, não basta – o rei rebateu. – Boros, tire a roupa dela.
Boros enfiou uma mão carnuda na parte da frente do corpete de Sansa e puxou com força. A seda rasgou-se, desnudando-a até a cintura. Sansa cobriu os seios com as mãos. Ouvia risos abafados, distantes e cruéis.
– Bata nela até sangrar – Joffrey esbravejou. – Vamos ver se o irmão gosta…
– O que significa isso?
A voz do Duende estalou como um chicote, e de repente Sansa ficou livre. Tropeçou e caiu de joelhos, com os braços cruzados sobre o peito e a respiração entrecortada.
– É esta a sua ideia de cavalaria, Sor Boros? – quis saber Tyrion Lannister numa voz zangada. Tinha consigo o mercenário de estimação e um dos selvagens, aquele com o olho queimado. – Que tipo de cavaleiro espanca donzelas indefesas?
– O tipo de cavaleiro que serve seu rei, Duende – Sor Boros ergueu a espada, e Sor Meryn ficou ao seu lado, com a lâmina raspando na bainha enquanto dela saía.
– Cuidado com isso – preveniu o mercenário do anão. – Não vão querer ficar com esses bonitos mantos brancos cheios de sangue.