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– Que alguém dê à menina alguma coisa para se cobrir – o Duende falou em voz alta. Sandor Clegane desprendeu seu manto e o atirou a ela. Sansa apertou-o contra o peito, com os punhos fechados com força na lã branca. A trama grosseira do pano arranhava seu peito, mas nenhum veludo jamais tinha agradado tanto ao seu tato.

– Esta menina está para ser sua rainha – Tyrion disse a Joffrey. – Não tem nenhuma consideração por sua honra?

– Estou punindo-a.

– Por que crime? Ela não lutou a batalha do irmão.

– Tem o sangue de um lobo.

– E você tem a inteligência de um ganso.

– Não pode falar assim comigo. O rei pode fazer o que quiser.

– Aerys Targaryen fez o que quis. Sua mãe já contou o que aconteceu a ele?

Sor Boros Blount pigarreou:

– Ninguém ameaça o rei na presença da Guarda Real.

Tyrion Lannister ergueu uma sobrancelha.

– Não estou ameaçando o rei, sor, estou educando meu sobrinho. Bronn, Timett, da próxima vez que Sor Boros abrir a boca, matem-no – o anão sorriu. – Isso foi uma ameaça, sor. Vê a diferença?

Sor Boros ficou de um tom vermelho-escuro:

– A rainha ouvirá falar disto.

– Sem dúvida que sim. E por que esperar? Joffrey, mandamos chamar sua mãe?

O rei corou.

– Nada a dizer, Vossa Graça? – prosseguiu o tio. – Ótimo. Aprenda a usar mais as orelhas e menos a boca, caso contrário seu reinado será menor do que eu. Brutalidade arbitrária não é maneira de conquistar o amor de seu povo… ou de sua rainha.

– Minha mãe diz que o medo é melhor do que o amor – Joffrey apontou para Sansa. – Ela tem medo de mim.

O Duende suspirou.

– Sim, estou vendo. Uma pena que Stannis e Renly não sejam também meninas de doze anos. Bronn, Timett, tragam-na.

Sansa os seguius como que num sonho. Julgou que os homens do Duende a levariam de volta ao seu quarto na Fortaleza de Maegor, mas, em vez disso, conduziram-na à Torre da Mão. Não pusera os pés naquele lugar desde o dia em que o pai caíra em desgraça, e voltar a subir aqueles degraus fez com que se sentisse sem forças.

Algumas criadas se encarregaram dela, proferindo palavras reconfortantes sem significado para que parasse de tremer. Uma despiu as ruínas de seu vestido e da roupa de baixo, e outra a banhou e lavou o sumo pegajoso de seu rosto e cabelo. Enquanto a esfregavam com sabão e despejavam água quente em abundância sobre sua cabeça, tudo o que Sansa conseguia ver eram os rostos no pátio. Os cavaleiros juram defender os fracos, proteger as mulheres e lutar pelo que está certo, mas nenhum deles levantou uma mão. Só Sor Dontos havia tentado ajudar, e ele já não era um cavaleiro, não mais do que o Duende ou o Cão de Caça… o Cão de Caça odiava cavaleiros… Também os odeio, pensou Sansa. Não são verdadeiros cavaleiros, nenhum deles é.

Depois de ficar limpa, o rechonchudo e ruivo Meistre Frenken veio vê-la. Pediu-lhe para se deitar de barriga para baixo no colchão enquanto espalhava um bálsamo sobre os vergões vermelhos que cobriam a parte de trás de suas pernas. Depois, misturou uma porção de vinho de sonhos com um pouco de mel para que ela bebesse com mais facilidade.

– Durma um pouco, filha. Quando acordar, tudo isso parecerá um sonho ruim.

Não, não parecerá, seu estúpido, Sansa pensou, mas bebeu mesmo assim o vinho de sonhos e adormeceu.

Estava escuro quando acordou, sem saber bem onde estava, num quarto que lhe parecia ao mesmo tempo desconhecido e estranhamente familiar. Quando se levantou, uma punhalada de dor trespassou suas pernas e fez com que se lembrasse de tudo. Lágrimas encheram seus olhos. Alguém lhe arranjara um roupão e o deixara junto da cama. Vestiu-o e abriu a porta. Lá fora estava uma mulher de rosto duro, com uma pele castanha e curtida e três colares enrolados em volta do pescoço magro. Um era de ouro, outro, de prata, e o terceiro, de orelhas humanas.

– Onde pensa que vai? – perguntou a mulher, apoiando-se numa grande lança.

– Ao bosque sagrado – tinha de encontrar Sor Dontos, suplicar-lhe que a levasse para casa já, antes que fosse tarde demais.

– O meio-homem disse que não devia sair. Reze aqui, os deuses ouvirão.

Docilmente, Sansa abaixou os olhos e retirou-se para dentro do quarto. Compreendeu subitamente por que é que aquele lugar lhe parecia tão familiar. Puseram-me no antigo quarto de Arya, de quando o pai era Mão do Rei. Todas as suas coisas desapareceram, e a mobília foi movida, mas é o mesmo…

Pouco tempo depois, uma criada trouxe uma bandeja com queijo, pão, azeitonas e um jarro de água fria.

– Leve tudo – Sansa ordenou, mas a moça deixou a comida sobre uma mesa. De repente, percebeu que tinha sede. Cada passo espetava facas em suas coxas, mas obrigou-se a atravessar o quarto. Bebeu duas taças de água, e estava mordiscando a azeitona quando ouviu um toque na porta.

Ansiosa, virou-se e alisou as dobras do roupão.

– Sim?

A porta abriu-se, e Tyrion Lannister entrou:

– Senhora. Espero não estar perturbando.

– Sou sua prisioneira?

– Minha hóspede – estava usando a corrente de seu cargo, um colar de mãos de ouro interligadas. – Pensei que podíamos conversar.

– Como meu senhor ordenar – Sansa descobriu que era difícil não olhá-lo fixamente; suas feições eram tão feias que lhe causavam um estranho fascínio.

– A comida e os trajes são do seu agrado? Se houver algo mais que lhe fizer falta, só tem de pedir.

– É muito gentil. E esta manhã… foi muito bom de sua parte me ajudar.

– Tem o direito de saber por que Joffrey estava tão irado. Há seis noites, seu irmão caiu sobre meu tio Stafford, acampado com sua tropa numa aldeia chamada Cruzaboi, a menos de três dias de viagem de Rochedo Casterly. Seus nortenhos conquistaram uma vitória esmagadora. Só recebemos a notícia hoje de manhã.

Robb matará todos vocês, Sansa pensou, exultante.

– É… terrível, senhor. Meu irmão é um vil traidor.

O anão deu um sorriso triste.

– Bem, não é nenhum novato, isso ele já deixou bem claro.

– Sor Lancel disse que Robb liderou um exército de lobos…

O Duende soltou uma gargalhada desdenhosa.

– Sor Lancel é um guerreiro de taberna que seria incapaz de distinguir um lobo de uma verruga. Seu irmão tinha consigo seu lobo gigante, mas suspeito que não passava disso. Os nortenhos penetraram no acampamento do meu tio e cortaram as amarrações de seus cavalos, e Lorde Stark enviou o lobo para o meio deles. Até os corcéis de batalha treinados para a guerra enlouqueceram. Cavaleiros foram pisoteados até a morte em seus pavilhões, e a plebe acordou aterrorizada e fugiu, sem armas para correr mais depressa. Sor Stafford foi morto enquanto perseguia um cavalo. Lorde Rickard Karstark enfiou uma lança em seu peito. Sor Rubert Brax também está morto, bem como Sor Lymund Vikary, Lorde Crakehall e Lorde Jast. Meia centena de outros foram feitos cativos, incluindo os filhos de Jast e meu primo Martyn Lannister. Os que sobreviveram andam espalhando histórias fantásticas, e juram que os antigos deuses do norte marcham com seu irmão.

– Então… não houve feitiçaria?

Lannister deu uma fungadela.

– Feitiçaria é o molho que os tolos espalham sobre o fracasso para esconder o sabor de sua incompetência. Ao que parece, o cabeça de carneiro do meu tio nem sequer tinha se incomodado em colocar sentinelas. Sua tropa estava crua… aprendizes, mineiros, camponeses, pescadores, o lixo de Lanisporto. O único mistério está em como seu irmão chegou até ele. Nossas forças ainda controlam o forte no Dente Dourado, e juram que ele não passou por lá – o anão encolheu os ombros, irritado. – Bem, Robb Stark é o tormento do meu pai. Joffrey é o meu. Diga-me, o que sente por meu real sobrinho?