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As forças de Renly já começavam a se desagregar à medida que os rumores se espalhavam de boca em boca. As fogueiras noturnas estavam quase extintas e, à medida que o leste começava a se iluminar, a imensa massa de Ponta Tempestade ia emergindo como um sonho de pedra, enquanto farrapos de névoa branca corriam pelo campo, fugindo do sol em asas de vento. Catelyn ouvira um dia a Velha Ama chamá-los de fantasmas da manhã, espíritos que regressavam às suas tumbas. E Renly era agora um deles, morto como o irmão Robert, como seu querido Ned.

– Nunca o tive nos braços, a não ser quando morreu – disse Brienne em voz baixa enquanto caminhavam por entre o crescente caos. A voz soava como se fosse se quebrar a qualquer instante. – Num momento estava rindo, e de repente havia sangue por todo lado… Senhora, não compreendo. Você viu, você…?

– Vi uma sombra. Pensei a princípio que fosse a sombra de Renly, mas era a do irmão.

– Lorde Stannis?

Senti-o. Não faz sentido, sei disso.

Fazia sentido suficiente para Brienne.

– Vou matá-lo – declarou a moça alta e simples. – Com a espada do meu senhor, vou matá-lo. Juro. Juro. Juro.

Hal Mollen e o resto de sua escolta esperavam com os cavalos. Sor Wendel Manderly coçava-se para saber o que estava acontecendo.

– Senhora, o acampamento enlouqueceu – exclamou ao vê-las. – Lorde Renly, ele está… – parou de súbito, com os olhos fitos em Brienne e no sangue que a ensopava.

– Morto, mas não por nossas mãos.

– A batalha… – começou Hal Mollen.

– Não haverá batalha – Catelyn montou, e a escolta adotou uma formação ao seu redor, com Sor Wendel à esquerda e Sor Perwyn Frey à direita. – Brienne, trouxemos montarias suficientes para o dobro de nós. Escolha uma e venha conosco.

– Eu tenho meu próprio cavalo, senhora. E a minha armadura…

– Deixe-os. Temos de estar bem longe antes que pensem em nos procurar. Estávamos ambas com o rei quando ele foi morto. Isso não será esquecido – sem uma palavra, Brienne virou-se e fez o que lhe era pedido. – Vamos – ordenou Catelyn à escolta depois de todos terem montado. – Se alguém tentar nos parar, abatam-no.

À medida que os longos dedos da alvorada se abriam em leque pelos campos, a cor voltava ao mundo. Onde havia homens cinzentos, montados em cavalos cinzentos e armados com lanças de sombras, cintilavam agora as pontas de dez mil lanças numa frieza prateada, e na miríade de bandeiras agitando-se Catelyn viu o desabrochar do vermelho, rosa e laranja, a riqueza de azuis e marrons, a chama do dourado e do amarelo. Todo o poderio de Ponta Tempestade e Jardim de Cima, o poderio que tinha sido de Renly uma hora antes. Pertencem agora a Stannis, compreendeu, mesmo que eles próprios ainda não saibam disso. Para onde mais devem se voltar, se não para o último Baratheon? Stannis conquistou a todos com um único golpe maligno.

Eu sou o rei legítimo, declarara ele, com o maxilar cerrado, duro como ferro, e seu filho não é menos traidor do que meu irmão aqui. O seu dia também chegará.

Um arrepio percorreu sua espinha.

Jon

O monte projetava-se por cima do denso emaranhado de floresta, erguendo-se solitário, repentinamente deixando ver suas alturas varridas pelo vento de quilômetros ao redor. Os patrulheiros diziam que os selvagens o chamavam de Punho dos Primeiros Homens. Jon pensou que realmente se parecia com um punho, atravessando a terra e a floresta, com as vertentes nuas e marrons encimadas por pedras.

Cavalgou até o topo com Lorde Mormont e os oficiais, deixando Fantasma lá embaixo, entre as árvores. O lobo gigante tinha fugido três vezes enquanto subiam, regressando relutantemente em duas delas ao som do assobio de Jon. Na terceira, o Senhor Comandante perdeu a paciência e exclamou:

– Deixe-o ir, rapaz. Quero alcançar o cume antes do anoitecer. Procure o lobo mais tarde.

O caminho era íngreme e pedregoso, e o cume era coroado por um muro de pedras desprendidas dos rochedos, cuja altura chegava à altura do peito. O grupo foi forçado a dar uma grande volta para oeste até encontrar uma brecha suficientemente larga para que os cavalos passassem.

– Esta é uma boa posição, Thoren – proclamou o Velho Urso, quando enfim atingiram o topo. – Dificilmente encontraremos melhor. Faremos aqui o acampamento para esperar pelo Meia-Mão – o Senhor Comandante saltou da sela, desalojando o corvo do ombro. Queixando-se sonoramente, a ave levantou voo.

A vista do topo do monte era abrangente, mas o que atraiu os olhos de Jon foi o muro circular, as pedras cinzentas desgastadas, com suas manchas brancas de líquens e suas barbas de musgo verde. Dizia-se que o Punho tinha sido um forte anelar dos Primeiros Homens, na Idade da Alvorada.

– Um lugar velho e forte – disse Thoren Smallwood.

Velho”, gritou o corvo de Mormont, batendo as asas em círculos ruidosos em volta da cabeça dos homens. “Velho, velho, velho.

– Cale-se – rosnou Mormont para a ave. O Velho Urso era orgulhoso demais para admitir fraqueza, mas Jon não se deixava enganar. O esforço de acompanhar os homens mais novos estava custando caro.

– Esta elevação será fácil de defender se for necessário – notou Thoren enquanto levava o cavalo ao longo do anel de pedras, com o vento agitando seu manto forrado de zibelina.

– Sim, este lugar servirá – o Velho Urso ergueu uma mão para o vento, e o corvo aterrissou em seu antebraço, arranhando com as garras a cota de malha negra.

– E a água, senhor? – Jon quis saber.

– Atravessamos um riacho no sopé do monte.

– Uma longa subida para beber água – Jon observou –, e fora do anel de pedra.

Thoren rebateu:

– É preguiçoso demais para subir um monte, rapaz?

Lorde Mormont interveio:

– Não é provável que encontremos outro local tão forte como este. Vamos transportar água e nos assegurar de estarmos bem abastecidos.

Jon sabia que não devia discutir. E, assim, a ordem foi dada e os irmãos da Patrulha da Noite montaram o acampamento por trás do anel de pedra que os Primeiros Homens tinham construído. Tendas negras nasceram como cogumelos depois da chuva, e cobertores e camas de campanha cobriram o terreno nu. Intendentes amarraram os garranos em longas fileiras, e lhes deram água e alimento. Lenhadores levaram seus machados até as árvores, à luz da tarde que se escoava, a fim de colher madeira suficiente para a noite. Vinte construtores puseram-se a limpar a vegetação rasteira, cavar latrinas e desatar os feixes de estacas endurecidas pelo fogo que tinham trazido.

– Quero ver todas as aberturas do muro entrincheiradas e com estacas antes de a noite cair – ordenou o Velho Urso.

Depois de armar a tenda do Senhor Comandante e de cuidar dos cavalos, Jon Snow desceu o monte em busca de Fantasma. O lobo gigante veio de imediato, num silêncio total. Num momento, Jon caminhava a passos largos por entre as árvores, assobiando e gritando, sozinho no verde, com pinhas e folhas caídas sob os pés; no seguinte, o grande lobo gigante branco andava a seu lado, alvo como a neblina da manhã.

Mas, quando chegaram ao forte anelar, Fantasma voltou a se mostrar renitente. Avançou com cautela para farejar a abertura nas pedras e depois recuou, como se não tivesse gostado do cheiro que sentiu. Jon tentou agarrá-lo pelo cangote e arrastá-lo à força para dentro do anel, o que não era tarefa fácil; o lobo pesava tanto quanto ele, e era muito mais forte.

– Fantasma, qual é o seu problema? – o lobo não era de se mostrar tão perturbado. Por fim, Jon teve de desistir: – Faça como quiser. Vai, pode caçar – os olhos vermelhos ficaram observando-o enquanto abria caminho por entre as pedras cobertas de musgo.