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Deviam estar em segurança ali. O monte tinha uma posição dominante, e as vertentes norte e oeste formavam precipícios e eram apenas um pouco mais suaves para leste. No entanto, à medida que o ocaso se aprofundava e a escuridão deslizava pelos espaços vazios entre as árvores, a sensação de mau agouro cresceu dentro de Jon. Esta é a floresta assombrada, disse a si mesmo. Talvez haja fantasmas aqui, o espírito dos Primeiros Homens. Um dia, este lugar lhes pertenceu.

– Pare de agir como um garoto – murmurou consigo mesmo. Subindo nas pedras empilhadas, Jon dirigiu o olhar para o sol poente. Conseguia ver a luz tremeluzindo como ouro martelado na superfície do Guadeleite no ponto em que o rio curvava para sul. Em direção à nascente, o terreno era mais irregular, a floresta densa dava lugar a uma série de montes pedregosos e nus que subiam, altos e bravios, para norte e oeste. No horizonte, as montanhas erguiam-se como uma grande sombra, cordilheira após cordilheira estendendo-se na distância azul-acinzentada, com os picos recortados, perpetuamente revestidos de neve. Mesmo de longe, pareciam vastas, frias e inóspitas.

Mais perto dali, eram as árvores que governavam. Para sul e para leste, a floresta estendia-se até o horizonte, um vasto emaranhado de raízes e ramos pintado em diversos tons de verde, com uma mancha de vermelho aqui e ali, onde um represeiro abria caminho por entre os pinheiros e as árvores-sentinela, ou uma gota de amarelo nos locais em que algumas árvores latifoliadas tinham começado a mudar de cor. Quando o vento soprou, Jon conseguiu ouvir o estalar e ranger de galhos mais velhos do que ele. Mil folhas esvoaçaram, e por um momento a floresta pareceu um mar de um verde profundo, tempestuoso e palpitante, eterno e impossível de conhecer.

Jon refletiu que não era provável que Fantasma estivesse sozinho lá embaixo. Qualquer coisa podia estar em movimento sob aquele mar, rastejando através da escuridão dos bosques na direção do forte anelar, escondida sob aquelas árvores. Qualquer coisa. Como poderiam chegar a saber? Ficou ali por muito tempo, até o sol desaparecer por trás dos picos serrados das montanhas e a escuridão começar a deslizar pela floresta.

– Jon? – Samwell Tarly o chamou. – Bem que achei que fosse você. Está bem?

– Suficientemente bem – Jon saltou para baixo. – Como passou o dia hoje?

– Bem. Passei bem. De verdade.

Jon não dividiria suas inquietações com o amigo, ainda mais no momento em que Samwell Tarly parecia por fim começar a encontrar sua coragem.

– O Velho Urso pretende esperar aqui por Qhorin Meia-Mão e pelos homens vindos da Torre Sombria.

– Parece um local seguro – Sam respondeu. – Um forte anelar dos Primeiros Homens. Acha que houve batalhas travadas aqui?

– Sem dúvida. É melhor que prepare uma ave. Mormont vai querer enviar notícias.

– Gostaria de poder enviar todas. Detestam estar engaioladas.

– Também detestaria, se pudesse voar.

– Se eu pudesse voar, estaria de volta ao Castelo Negro, comendo um empadão de porco.

Com a mão queimada, Jon deu uma palmada no ombro do amigo. Atravessaram juntos o acampamento. Fogueiras para cozinhar eram acesas por todo lado. Em cima, as estrelas iam aparecendo. A longa cauda vermelha do Archote de Mormont ardia, luminosa como a lua. Jon ouviu os corvos antes de vê-los. Alguns chamavam por seu nome. As aves não se acanhavam quando se tratava de fazer barulho.

Eles também sentem isso.

– É melhor que eu vá atender ao Velho Urso – Jon falou. – Ele também fica barulhento quando não é alimentado.

Foi encontrar Mormont conversando com Thoren Smallwood e meia dúzia de outros oficiais.

– Aqui está você – disse o velho em tom rabugento. – Traga-nos um pouco de vinho quente, por favor. A noite está gelada.

– Sim, senhor.

Jon acendeu uma fogueira, requisitou aos homens do abastecimento um pequeno barril do tinto encorpado que Mormont preferia e despejou-o numa chaleira. Pendurou-a sobre as chamas enquanto reunia o resto dos ingredientes. O Velho Urso era exigente com o vinho quente condimentado. Tanto de canela, tanto de noz-moscada e tanto de mel, nem um tiquinho a mais. Passas, nozes e bagas secas sim, mas nada de limão, isso era o mais asqueroso tipo de heresia sulista… O que, para Jon, era estranho, uma vez que sempre punha limão na cerveja matinal. A bebida devia estar quente para aquecer devidamente um homem, insistia o Senhor Comandante, mas nunca se podia permitir que o vinho começasse a ferver. Jon vigiou a chaleira com olhos cuidadosos.

Enquanto trabalhava, conseguia ouvir as vozes que vinham de dentro da tenda. Jarman Buckwell disse:

– O caminho mais fácil para subir as Presas de Gelo é seguindo o Guadeleite até a nascente. Mas se formos por aí, Rayder saberá da nossa aproximação, tão certo como o nascer do sol.

– A Escada do Gigante pode servir – Sor Mallador Locke observou –, ou o Passo dos Guinchos, se estiver limpo.

O vinho fumegava. Jon tirou a chaleira do fogo, encheu oito taças e as levou para a tenda. O Velho Urso espiava o mapa rudimentar que Sam lhe havia desenhado na Fortaleza de Craster. Tirou uma taça do tabuleiro de Jon, experimentou o vinho e fez um aceno brusco de aprovação. O corvo saltou de seu braço. “Grão. Grão. Grão.”

Sor Ottyn Wythers recusou o vinho com um gesto.

– Eu preferia evitar a todo custo a entrada nas montanhas – o homem disse numa voz fraca e fatigada. – As Presas de Gelo mordem cruelmente, mesmo no Verão, e agora… Se formos apanhados por uma tempestade…

– Não pretendo arriscar as Presas, a menos que tenhamos de fazer isso – Mormont respondeu. – Os selvagens não são mais capazes de viver de neve e pedra do que nós. Irão emergir das alturas em breve, e para qualquer tropa de um tamanho razoável, a única rota possível segue o Guadeleite. Se assim for, temos aqui uma posição forte. Eles não podem esperar escapar de nós.

– Podem não querer escapar. São milhares, e nós seremos trezentos quando Meia-Mão nos alcançar – Sor Mallador aceitou a taça que Jon lhe oferecia.

– Se chegar a haver batalha, não poderíamos desejar posição melhor do que esta – Mormont voltou a insistir. – Reforçaremos as defesas. Fossos e espigões, estrepes espalhadas pelas vertentes, com todas as brechas fechadas. Jarman, quero seus olhos mais aguçados como vigias. Dispostos em anel, à nossa volta e ao longo do rio, para nos prevenirem de qualquer aproximação. Esconda-os nas árvores. E é melhor começarmos também a trazer água para cima, mais do que precisamos. Escavaremos cisternas. Isso manterá os homens ocupados, e pode se mostrar necessário mais tarde.

– Meus patrulheiros… – começou Thoren Smallwood.

– Seus patrulheiros limitarão as patrulhas a este lado do rio até que Meia-Mão nos alcance. Depois disso, veremos. Não perderei mais de meus homens.

– Mance Ryder pode estar reunindo sua tropa a um dia de viagem daqui, e nunca o saberemos – Smallwood protestou.

– Nós sabemos onde os selvagens estão se juntando – Mormont rebateu. – Craster nos disse. Não gosto do homem, mas não me parece que tenha mentido quanto a isso.

– Às suas ordens – Smallwood saiu carrancudo. Os outros terminaram o vinho e seguiram-no, com mais cortesia.

– Devo trazer seu jantar, senhor? – Jon perguntou.

Grão”, gritou o corvo. Mormont não respondeu logo. E, quando o fez, disse apenas:

– Seu lobo encontrou caça hoje?

– Ainda não voltou.

– Seria bom termos carne fresca – Mormont enfiou a mão num saco e ofereceu um punhado de milho ao corvo. – Acha que faço mal em manter os patrulheiros por perto?

– Isso não me cabe dizer, senhor.

– Cabe, se eu perguntar.

– Se os patrulheiros tiverem de permanecer à vista do Punho, não vejo como podem ter esperança de encontrar meu tio – Jon admitiu.