Perseguiu o lobo por um quarto de hora ao redor do Punho antes de voltar a perdê-lo de vista. Por fim, parou para recuperar o fôlego em meio aos arbustos, espinheiros e pedras tombadas no sopé do monte. Para lá da luz da tocha, a escuridão apertava-se.
Um som suave, como o de algo sendo arranhado, fez com que ele se virasse. Andou na direção do som, pondo os pés com cuidado entre pedregulhos e espinheiros. Atrás de uma árvore caída, voltou a encontrar Fantasma. O lobo gigante cavava furiosamente, arremessando terra para todos os lados.
– O que encontrou? – Jon abaixou a tocha, e a luz lhe revelou um montículo arredondado de terra mole. Uma sepultura, pensou. Mas de quem?
Jon se ajoelhou e espetou a tocha na terra a seu lado. A terra era solta, arenosa. Ele começou a cavar com as mãos. Não havia pedras nem raízes. O que quer que ali estivesse, tinha sido lá colocado recentemente. Meio metro mais abaixo, seus dedos tocaram em tecido. Esperara encontrar um cadáver, temera encontrá-lo, mas aquilo era outra coisa. Fez força contra o tecido e sentiu por baixo formas pequenas e duras, que não cediam. Não havia nenhum cheiro, nenhum sinal de vermes. Fantasma recuou e se sentou, observando.
Jon sacudiu a terra solta, revelando uma trouxa arredondada com cerca de meio metro de diâmetro. Enfiou os dedos pelas beiradas e conseguiu soltá-la. Quando a puxou, o que quer que estivesse lá dentro deslocou-se e tiniu. Um tesouro, pensou, mas a forma não correspondia à de moeda, e o som não era o de metal.
Um pedaço de corda gasta atava a trouxa. Jon desembainhou o punhal e a cortou, procurou cuidadosamente as extremidades do tecido e puxou. A trouxa se abriu, e seu conteúdo espalhou-se no chão, cintilando, escuro e brilhante. Viu uma dúzia de facas, pontas de lança em forma de folha, numerosas pontas de flecha. Jon pegou uma lâmina de punhal, leve como uma pena e de um negro brilhante, sem cabo. A luz da tocha correu ao longo de seu gume, uma fina linha laranja que indicava algo afiado como uma navalha. Vidro de dragão. Aquilo que os meistres chamam de obsidiana. Teria Fantasma descoberto algum antigo esconderijo dos filhos da floresta, ali enterrado há milhares de anos? O Punho dos Primeiros Homens era um lugar antigo, mas…
Por baixo do vidro de dragão estava um velho corno de guerra, feito de chifre de auroque com faixas de bronze. Jon sacudiu-o, e uma torrente de pontas de flecha jorrou lá de dentro. Deixou-as cair, e puxou um canto do pano em que as armas tinham sido envolvidas, esfregando-o entre os dedos. Boa lã, espessa, de malha dupla, úmida, mas não apodrecida. Não podia ter ficado muito tempo no chão. E era escura. Agarrou um pedaço e aproximou-o do archote. Escura não. Negra.
Mesmo antes de Jon se levantar e sacudir o que tinha na mão, sabia o que era: o manto negro de um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite.
Bran
Alebelly foi encontrá-lo na forja, trabalhando nos foles para Mikken.
– Meistre o quer no torreão, senhor príncipe. Chegou uma ave do rei.
– De Robb?
Excitado, Bran não esperou por Hodor, e deixou que Alebelly subisse os degraus levando-o no colo. Era um homem grande, embora não tanto quanto Hodor, e nem de longe tão forte. Quando chegaram ao torreão do meistre, o homem tinha o rosto vermelho e arquejava. Rickon chegara antes deles, e ambos os Walder Frey também.
Meistre Luwin mandou Alebelly embora e fechou a porta.
– Senhores – disse em tom grave –, recebemos uma mensagem de Sua Graça, com boas e más notícias. Conseguiu uma grande vitória no oeste, desbaratando um exército Lannister num lugar chamado Cruzaboi, e tomou também vários castelos. Escreve-nos de Cinzamarca, anteriormente o castro da Casa Marbrand.
Rickon puxou a toga do meistre:
– Robb vem para casa?
– Temo que não. Ainda há batalhas para lutar.
– Foi Lorde Tywin que ele derrotou? – Bran perguntou.
– Não – o meistre respondeu. – Quem comandava a tropa inimiga era Sor Stafford Lannister. Foi morto na batalha.
Bran nunca ouvira falar de Sor Stafford Lannister. Acabou concordando com o Grande Walder quando ele disse:
– Lorde Tywin é o único que importa.
– Diga a Robb que quero que venha para casa – Rickon pediu. – Também pode trazer o lobo dele, e a mãe e o pai – embora soubesse que Lorde Eddard estava morto, às vezes Rickon se esquecia… e Bran suspeitava que fazia isso de propósito. O irmão mais novo era teimoso como só um garoto de quatro anos sabia ser.
Bran sentia-se contente pela vitória de Robb, mas também inquieto. Lembrou-se do que Osha dissera no dia em que o irmão saíra de Winterfell à frente de seu exército. Ele marcha na direção errada, insistira a selvagem.
– Infelizmente, não há vitória que não tenha seu preço – Meistre Luwin virou-se para os Walder. – Senhores, seu tio, Sor Stevron Frey, está entre aqueles que perderam a vida em Cruzaboi. Robb escreve que foi ferido na batalha. Não achavam que fosse algo sério, mas três dias mais tarde morreu na tenda enquanto dormia.
Grande Walder encolheu os ombros:
– Era muito velho. Sessenta e cinco anos, acho eu. Velho demais para batalhas. Andava sempre dizendo que estava cansado.
Pequeno Walder soltou um assobio:
– Cansado de esperar que o nosso avô morra, você quer dizer. Isso significa que Sor Emmon é agora o herdeiro?
– Não seja burro – o primo rebateu. – Os filhos do primogênito vêm antes do segundo filho. O seguinte na linha de sucessão é Sor Ryman, e depois Edwyn, e Walder Negro e Petyr Espinha. E depois Aegon, e todos os filhos dele.
– Ryman também é velho – disse o Pequeno Walder. – Já passou dos quarenta, aposto. E tem uma barriga ruim. Acha que ele vai ser o senhor?
– Eu serei o senhor. Não me interessa se ele é ou não.
Meistre Luwin o interrompeu com intensidade:
– Deveriam ter vergonha dessa conversa, senhores. Onde está o pesar de vocês? Seu tio está morto.
– Sim – disse o Pequeno Walder. – Estamos muito tristes.
Mas não estavam. Bran teve uma sensação estranha na barriga. Gostam mais do sabor deste prato do que eu. Pediu ao Meistre Luwin licença para se retirar.
– Muito bem – o meistre fez soar a sineta para que a ajuda viesse. Hodor devia estar ocupado nos estábulos. Foi Osha quem apareceu. Mas a mulher era mais forte do que Alebelly, e não teve problemas em erguer Bran nos braços e levá-lo degraus abaixo.
– Osha – Bran perguntou enquanto atravessavam o pátio. – Você conhece o caminho para o norte? Até a Muralha e… e mesmo para além dela?
– O caminho é simples. Procure o Dragão de Gelo e siga a estrela azul no olho do cavaleiro – ela atravessou uma porta de costas e começou a subir os degraus em espiral.
– E ainda existem gigantes lá, e… o resto… os Outros, e também os filhos da floresta?
– Os Gigantes eu vi, dos filhos ouvi falar em histórias, e os caminhantes brancos… Por que você quer saber?
– Alguma vez viu um corvo com três olhos?
– Não – ela riu. – E não posso dizer que queira vê-lo – Osha abriu a porta do quarto de Bran com um chute e colocou-o no banco da janela, de onde podia observar o pátio lá embaixo.
Pareceu não se passar mais do que alguns instantes antes de a porta voltar a se abrir e Jojen Reed entrar sem ser convidado, com a irmã Meera logo atrás.
– Ouviu falar do pássaro? – Bran perguntou. O outro rapaz fez que sim com a cabeça. – Não foi um jantar, como você disse. Foi uma carta de Robb, e não a comemos, mas…
– Às vezes, os sonhos verdes tomam estranhas formas – Jojen admitiu. – A verdade que contêm nem sempre é fácil de compreender.