– Nunca me assustei com pastores. São as ovelhas que me perturbam. Mesmo assim, suponho que uma escolta talvez seja necessária.
– Posso dispensar uma centena de mantos dourados – Tyrion concordou.
– Quinhentos.
– Trezentos.
– E mais quarenta… Vinte cavaleiros com a mesma quantidade de escudeiros. Se chegar sem comitiva de cavaleiros, os Tyrell vão me julgar pouco importante.
Era verdade.
– De acordo.
– Incluirei no grupo Babeiro e Horror, e vou mandá-los depois ao senhor seu pai. Um gesto de boa vontade. Precisamos de Paxter Redwyne, ele é o mais velho amigo de Mace Tyrell, e um grande poder por si só.
– E um traidor – rebateu a rainha, contrariada. – A Árvore teria se declarado por Renly como todos os outros se esse Redwyne não soubesse perfeitamente que seus filhos sofreriam por isso.
– Renly está morto, Vossa Graça – ressaltou Mindinho. – E nem Stannis nem Lorde Paxter terão esquecido como as galés Redwyne fecharam o mar durante o cerco a Ponta Tempestade. Devolva seus gêmeos, e talvez possamos ganhar a amizade dos Redwyne.
Cersei não ficou convencida:
– Os Outros podem ficar com a sua amizade, só quero as espadas e velas. Agarrar-nos bem a esses gêmeos é a melhor forma de termos certeza de que as obteremos.
Tyrion tinha resposta para aquilo:
– Então enviemos Sor Hobber para a Árvore, e fiquemos com Sor Horas aqui. Lorde Paxter deverá ser suficientemente inteligente para desvendar o significado que isso tem, creio eu.
A sugestão foi aceita sem protestos, mas Mindinho não tinha terminado:
– Vamos precisar de cavalos. Rápidos e fortes. A luta tornará difícil a troca de montarias. Um amplo fornecimento de ouro também será necessário, para aqueles presentes de que falamos antes.
– Leve tanto quanto necessário. De qualquer forma, se a cidade cair, Stannis vai roubar tudo.
– Vou querer a minha incumbência por escrito. Um documento que não deixe qualquer dúvida a Mace Tyrell quanto à minha autoridade, dando-me plenos poderes para negociar com ele aquilo que diz respeito a esse casamento e a quaisquer outras disposições que possam ser necessárias, e para dar garantias seguras em nome do rei. Deverá ser assinado por Joffrey e por todos os membros deste conselho, e deverá levar todos os nossos selos.
Tyrion moveu-se desconfortavelmente na cadeira:
– De acordo. É tudo? Lembro-lhe de que a estrada daqui a Ponteamarga é longa.
– Estarei cavalgando por ela antes do romper da aurora – Mindinho levantou-se. – Confio que, no meu retorno, o rei tratará de me recompensar adequadamente pelos valentes esforços despendidos em prol de sua causa?
Varys soltou um risinho.
– Joffrey é um soberano tão cheio de gratidão que estou certo de que não terá do que reclamar, meu bom e bravo senhor.
A rainha era mais direta.
– O que quer, Petyr?
Mindinho olhou de relance para Tyrion com um sorriso astuto.
– Terei de pensar sobre o assunto durante algum tempo. Não tenho dúvidas de que pensarei em algo – esboçou uma reverência petulante e retirou-se de uma forma tão casual como se estivesse se dirigindo a um de seus bordéis.
Tyrion olhou de relance pela janela. O nevoeiro era tão denso que sequer conseguia ver a muralha exterior do outro lado do pátio. Algumas luzes tênues brilhavam, indistintas, através de todo aquele cinza. Um dia desagradável para viajar, pensou. Não invejava Petyr Baelish.
– É melhor que tratemos de providenciar esses documentos. Lorde Varys, mande buscar pergaminho e penas. E alguém terá de acordar Joffrey.
Ainda estava cinzento e escuro quando a reunião finalmente chegou ao fim. Varys debandou sozinho, com os chinelos moles apressando-se pelo chão afora. Os Lannister demoraram-se um momento junto à porta.
– Como anda sua corrente, irmão? – perguntou a rainha, enquanto Sor Preston prendia aos seus ombros um manto de pano de prata forrado de penas.
– Elo a elo, vai crescendo. Deveríamos agradecer aos deuses por Sor Cortnay Penrose ser tão teimoso como é. Stannis nunca marchará para o norte deixando Ponta Tempestade sem ter sua retaguarda tomada.
– Tyrion, sei que nem sempre concordamos quanto aos planos de ação, mas parece que me enganei a seu respeito. Não é um tolo tão grande como imaginava. Na verdade, percebo agora que tem sido uma grande ajuda. Por isso agradeço-lhe. Tem de me perdoar se falei de forma desagradável com você no passado.
– Ah, tenho? – ele dirigiu um encolher de ombros, e um sorriso à irmã. – Querida irmã, você não disse nada que precise de perdão.
– Refere-se a hoje?
Ambos riram… e Cersei inclinou-se e plantou um beijo rápido e suave na testa do irmão. Espantado demais para falar, Tyrion só conseguiu vê-la sair da sala a passos largos, com Sor Preston ao seu lado.
– Perdi o juízo, ou minha irmã acabou de me dar um beijo? – perguntou a Bronn depois de ela sair.
– Foi assim tão bom?
– Foi… inesperado – Cersei andava se comportando estranhamente nos últimos tempos. Tyrion achava esse fato muito perturbador. – Estou tentando me lembrar da última vez que me beijou. Não podia ter mais do que seis ou sete anos. Jaime a havia desafiado a fazê-lo.
– A mulher reparou finalmente nos seus encantos.
– Não – Tyrion discordou. – Não, a mulher está tramando alguma. É melhor descobrir o que, Bronn. Sabe que detesto surpresas.
Theon
Theon limpou o cuspe do rosto com as costas da mão.
– Robb vai arrancar suas tripas, Greyjoy – Benfred Tallhart gritou. – Vai dar seu coração de vira-casaca ao lobo, seu pedaço de estrume de ovelha.
A voz de Aeron Cabelo-Molhado cortou através dos insultos como uma espada fatia o queijo.
– Agora tem de matá-lo.
– Primeiro, tenho perguntas a lhe fazer.
– Que se fodam as suas perguntas – Benfred pendia, sangrando e impotente, entre Stygg e Werlag. – Vai se engasgar com elas antes de receber respostas de mim, covarde. Vira-casaca.
Aeron, seu tio, mostrou-se inflexíveclass="underline"
– Quando cospe em mim, cospe em todos nós. Cospe no Deus Afogado. Tem de morrer.
– Meu pai deu a mim o comando aqui, tio.
– E enviou-me para aconselhá-lo.
E para me vigiar. Theon não se atrevia a levar as coisas longe demais com o tio. O comando era seu, sim, mas os homens tinham uma fé no Deus Afogado que não tinham nele, e Aeron Cabelo-Molhado apavorava-os. Não posso censurá-los por isso.
– Vai perder a cabeça por isso, Greyjoy. Os corvos vão comer a geleia de seus olhos – Benfred tentou voltar a cuspir, mas só conseguiu lançar um pouco de sangue. – Que os Outros enrabem seu Deus Molhado.
Tallhart, acaba de cuspir sua vida fora, Theon pensou.
– Stygg, silencie-o – ele ordenou.
Forçaram Benfred a se ajoelhar. Werlag arrancou a pele de coelho do seu cinto e a enfiou entre seus dentes para calar os gritos. Stygg preparou o machado.
– Não – Aeron Cabelo-Molhado interveio. – Ele deve ser dado ao deus. Pelo costume antigo.
Que importa? Morte é morte.
– Então, leve-o.
– Você também deve vir. Você comanda aqui. A oferenda deve vir de você.
Aquilo era mais do que Theon era capaz de aguentar.
– Você é o sacerdote, tio, deixo o deus com você. Faça a mesma delicadeza e deixe as batalhas comigo – fez um gesto com a mão e Werlag e Stygg puseram-se a caminho da costa, arrastando o prisioneiro. Aeron Cabelo-Molhado lançou um olhar de reprovação ao sobrinho, e depois os seguiu. Iriam até a praia de cascalho, a fim de afogar Benfred Tallhart em água salgada. Aquele era o costume antigo.
Talvez isso seja uma gentileza, disse Theon a si mesmo enquanto se afastava a passos largos na outra direção. Stygg não era, nem de longe, o mais hábil dos decapitadores, e Benfred tinha um pescoço grosso como o de um touro, cheio de músculo e gordura. Costumava zombar dele por causa disso, só para ver até que ponto conseguia irritá-lo, recordou-se. Isso tinha sido quando? Há três anos? Quando Ned Stark tinha ido à Praça de Torrhen visitar Sor Helman, Theon o acompanhara e passara uma quinzena na companhia de Benfred.