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Ouvia os rudes sons da vitória, vindos da curva na estrada onde a batalha tinha sido travada… Se é que se podia chamar aquilo de batalha. Para falar a verdade, foi mais uma matança de ovelhas. Ovelhas cobertas de aço, mas, mesmo assim, ovelhas.

Subindo um monte de pedras, Theon olhou os homens mortos e cavalos moribundos embaixo. Os cavalos mereciam coisa melhor do que aquilo. Tymor e os irmãos reuniam as montarias que tinham saído incólumes da luta, enquanto Urzen e Lorren Negro silenciavam os animais feridos demais para serem salvos. O resto de seus homens pilhava os cadáveres. Gevin Harlaw ajoelhou sobre o peito de um morto, cortando um dedo dele para obter um anel. Pagando o preço de ferro. O senhor meu pai aprovaria. Theon pensou em vasculhar os bolsos dos dois homens que matara para ver se possuíam alguma joia que valesse a pena levar, mas a ideia lhe deixou um gosto amargo na boca. Era capaz de imaginar o que Eddard Stark teria dito. Mas esse pensamento também o zangou. Stark está morto e apodrecendo, e não é nada para mim, recordou-se.

O Velho Botley, a quem chamavam Barbas-de-Peixe, sentava-se de cenho franzido junto à sua pilha de despojos enquanto os três filhos juntavam mais coisas. Um deles estava num jogo de empurra com um gordo chamado Todric, que cambaleava entre os mortos com um corno de cerveja numa mão e um machado na outra, vestido com um manto de pele branca de raposa só ligeiramente manchado pelo sangue de seu dono anterior. Bêbado, declarou Theon, vendo-o berrar. Dizia-se que os homens de ferro de antigamente ficavam com frequência bêbados de sangue em batalha, tão enlouquecidos que não sentiam dor nem temiam nenhum inimigo, mas aquela era uma bebedeira de cerveja comum.

– Wex, meu arco e a aljava.

O rapaz trouxe correndo o que lhe fora pedido. Theon dobrou o arco e enfiou a corda nos entalhes no momento em que Todric atirava o filho de Botley ao chão e jogava cerveja em seus olhos. Barbas-de-Peixe ficou em pé de um salto, praguejando, mas Theon foi mais rápido. Apontou para a mão que segurava o corno, planejando mostrar-lhes um tiro digno de ser comentado, mas Todric estragou seus planos inclinando-se para o lado no momento em que Theon soltava a corda. A flecha atingiu-o na barriga.

Os homens pararam a pilhagem e ficaram boquiabertos. Theon abaixou o arco.

– Eu disse que não queria bêbados nem querelas por causa do saque – de joelhos, Todric morria ruidosamente. – Botley, silencie-o – Barbas-de-Peixe e os filhos foram rápidos para obedecer. Abriram a garganta de Todric enquanto ele escoiceava debilmente, e começaram a despojá-lo do manto e dos anéis ainda antes de estar morto.

Agora sabem que o que digo é a sério. Lorde Balon podia ter lhe dado o comando, mas Theon sabia que alguns de seus homens viam apenas um rapaz mole das terras verdes quando olhavam para ele.

– Alguém mais tem sede? – ninguém respondeu. – Ótimo.

Deu um pontapé no estandarte caído de Benfred, preso à mão morta do escudeiro que o transportava. Uma pele de coelho tinha sido atada por baixo da bandeira. Por que peles de coelho?, ele quisera perguntar, mas ser cuspido tinha feito com que se esquecesse das perguntas. Jogou o arco para Wex e afastou-se a passos largos, lembrando-se de como se sentira exultante após o Bosque dos Murmúrios, e perguntando a si mesmo por que isso, agora, não tinha um gosto tão bom. Tallhart, seu maldito tolo demasiado orgulhoso, nem sequer enviou um homem para bater o terreno.

Vinham trocando piadas e até cantando enquanto se aproximavam, com as três árvores de Tallhart flutuando acima deles, enquanto peles de coelho balançavam estupidamente, presas às pontas das lanças. Os arqueiros escondidos atrás dos tojos tinham estragado a canção com uma chuva de flechas, e o próprio Theon liderara o ataque dos homens de armas para acabar a carnificina com punhais, machados e martelos de guerra. Tinha ordenado que o líder fosse poupado para ser interrogado.

Mas não esperara que fosse Benfred Tallhart.

Seu corpo sem vida estava sendo arrastado para fora das ondas quando Theon regressou ao Cadela do Mar. Os mastros de seus dracares delineavam-se contra o céu ao longo da praia pedregosa. Da aldeia de pescadores nada restava além de cinzas frias que fediam quando chovia. Os homens tinham sido passados na espada, todos, exceto um punhado que Theon deixara fugir a fim de levar a notícia até Praça de Torrhen. As esposas e filhas, aquelas que eram suficientemente jovens e bonitas, tinham sido mantidas vivas como esposas de sal. As velhas e as feias foram simplesmente violadas e mortas, ou capturadas como servas se possuíssem aptidões úteis e não parecessem dispostas a causar problemas.

Theon também havia planejado aquele ataque, trazendo os navios ao longo da costa na escuridão gelada que antecedera a alvorada, e saltando da proa com um machado de cabo longo na mão para liderar seus homens no ataque à aldeia adormecida. Não gostava do sabor de nada daquilo, mas, que escolha tinha?

Sua três vezes maldita irmã conduzia o Vento Negro para o norte naquele exato instante, certa de conquistar para si um castelo. Lorde Balon não deixara que nenhuma notícia sobre a reunião da frota escapasse das Ilhas de Ferro, e o trabalho sangrento de Theon ao longo da Costa Pedregosa seria atribuído a piratas em busca de saque. Os nortenhos não perceberiam o verdadeiro perigo em que se encontravam antes que os martelos caíssem sobre Bosque Profundo e Fosso Cailin. E depois de tudo feito e conquistado, farão canções para aquela cadela da Asha, e vão se esquecer de que estive aqui. Isto é, se assim ele permitir.

Dagmer Boca Rachada estava ao lado da grande proa esculpida do seu dracar, Bebedor de Espuma. Theon confiara-lhe a tarefa de guardar os navios; de outra forma, os homens teriam dito que aquela era uma vitória de Dagmer, e não sua. Um homem mais suscetível teria tomado aquilo como uma desfeita, mas Boca Rachada apenas riu.

– O dia está ganho – gritou Dagmer para baixo. – E, no entanto, não sorri garoto? Os vivos devem sorrir, porque os mortos não podem – e sorriu, para mostrar como se fazia. Era uma visão hedionda. Sob uma cabeleira branca como a neve, Dagmer Boca Rachada tinha a cicatriz mais repugnante que Theon jamais tinha visto, o legado do machado que quase o matara quando criança. O golpe tinha rachado seu maxilar, estilhaçado os dentes da frente e o deixado com quatro lábios onde os outros homens não tinham mais que dois. Uma barba hirsuta cobria seu rosto e seu pescoço, mas os pelos não cresciam sobre a cicatriz, e um veio brilhante de carne pregueada e retorcida dividia seu rosto como uma fenda num campo de neve. – Conseguíamos ouvi-los cantando – disse o velho guerreiro. – Era uma boa canção, e cantaram-na bravamente.

– Cantavam melhor do que lutavam. Harpas teriam servido tão bem a eles como as lanças serviram.

– Quantos homens foram perdidos?

– Dos nossos? – Theon encolheu os ombros. – Todric. Matei-o por se embebedar e lutar pelo saque.

– Há homens que nasceram para ser mortos.

Um homem menor teria tido receio de mostrar um sorriso tão assustador como o dele, mas Dagmer sorria mais frequente e largamente do que Lorde Balon alguma vez sorrira. Feio como era, aquele sorriso trazia de volta diversas recordações. Theon via-o frequentemente quando garoto, quando saltava a cavalo por cima de um muro coberto de musgo, ou atirava um machado e rachava um alvo. Viu-o quando bloqueou um golpe da espada de Dagmer, quando atingiu uma gaivota em voo com uma flecha, quando tomou a cana do leme na mão e guiou um dracar em segurança por entre um emaranhado de rochedos cobertos de espuma. Ele deu-me mais sorrisos do que meu pai e Eddard Stark juntos. Até Robb… Devia ter ganhado um sorriso naquele dia em que salvara Bran daquele selvagem, mas, em vez disso, recebera uma descompostura, como se fosse algum cozinheiro que tivesse deixado queimar o guisado.