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– Você e eu temos de conversar, tio – disse Theon. Dagmer não era um tio de verdade, só um homem juramentado com talvez uma pitada de sangue Greyjoy de quatro ou cinco vidas atrás, e ainda por cima vindo do lado errado dos lençóis. Apesar disso, Theon sempre o chamara de tio.

– Então suba ao meu convés – não havia senhores vindos de Dagmer, em especial quando ele se encontrava em seu convés. Nas Ilhas de Ferro, cada capitão era um rei a bordo de seu navio.

Theon subiu a prancha que levava ao convés do Bebedor de Espuma em quatro longas passadas, e Dagmer o levou até a pequena cabine de popa, onde se serviu de um corno de cerveja amarga e ofereceu outro ao jovem, que declinou.

– Não capturamos cavalos suficientes. Alguns, mas… Bem, suponho que o que tenho terá de servir. Menos homens significam mais glória.

– Que necessidade temos de cavalos? – tal como a maior parte dos homens de ferro, Dagmer preferia lutar a pé ou do convés de um navio. – Os cavalos só irão cagar em nossos conveses e ficar na nossa frente.

– Se continuássemos no mar, sim – admitiu Theon. – Tenho um plano diferente – observou o outro com cuidado para ver como encarava aquilo. Sem Boca Rachada não podia ter esperança de ser bem-sucedido. Com ou sem o comando, os homens nunca o seguiriam se tanto Aeron como Dagmer se opusessem a ele, e não tinha esperança de conquistar o sacerdote de cara amarga.

– O senhor seu pai ordenou-nos que assolássemos a costa, nada mais.

Olhos claros como espuma marinha observaram Theon por baixo daquelas hirsutas sobrancelhas brancas. Seria desaprovação que via ali, ou uma cintilação de interesse? Esta última, pensava… esperava…

– É um homem do meu pai.

– Seu melhor homem, sempre fui.

Orgulho, pensou Theon. Ele é orgulhoso, tenho de usar isso, seu orgulho será a chave.

– Não há nenhum homem nas Ilhas de Ferro com metade da habilidade com a lança ou a espada.

– Esteve longe por tempo demais, rapaz. Quando partiu, era como você diz, mas envelheci a serviço de Lorde Greyjoy. Os cantores dizem agora que Andrik é o melhor. Andrik, O Que Não Sorri, chamam-no. Um homem gigantesco. Serve ao Lorde Drumm da Velha Wyk. E Lorren Negro e Qarl, o Donzela, são quase igualmente terríveis.

– Esse Andrik pode ser um grande guerreiro, mas os homens não o temem como a você.

– Sim, é verdade – Dagmer respondeu. Os dedos enrolados em volta do corno estavam pesados de tantos anéis, de ouro, prata e bronze, incrustados com pedaços de safira, granada e vidro de dragão. Theon sabia que ele pagara o preço de ferro a cada um deles.

– Se tivesse um homem como você ao meu serviço, não o desperdiçaria nessa criancice de saquear e queimar. Este não é um serviço para o melhor homem de Lorde Balon…

O sorriso de Dagmer retorceu seus lábios e os afastou para mostrar as lascas marrons de seus dentes.

– Nem para o seu filho legítimo? – soltou. – Conheço-o bem demais, Theon. Vi-o dar seu primeiro passo, ajudei-o a dobrar seu primeiro arco. Não sou eu quem se sente desperdiçado.

– Por direito, eu devia ter o comando da minha irmã – admitiu, desconfortavelmente consciente de como aquilo soava como um choramingo.

– Leva esse assunto a sério demais, garoto. É só que o senhor seu pai não o conhece. Com seus irmãos mortos e você levado pelos lobos, sua irmã foi seu consolo. Aprendeu a confiar nela, e ela nunca lhe falhou.

– Nem eu. Os Stark conhecem meu valor. Fui um dos batedores selecionados por Brynden Peixe Negro, e participei da primeira investida no Bosque dos Murmúrios. Fiquei a esta distância de cruzar espadas com o próprio Regicida – Theon separou as mãos meio metro. – Daryn Hornwood interpôs-se entre nós, e morreu por isso.

– Por que me conta isso? – Dagmer quis saber. – Fui eu quem pôs a primeira espada na sua mão. Sei que não é nenhum covarde.

– E meu pai, sabe?

O velho e grisalho guerreiro parecia ter mordido alguma coisa cujo sabor não lhe agradava.

– É só que… Theon, o Rapaz Lobo é seu amigo, e esses Stark tiveram-no durante dez anos.

– Não sou nenhum Stark – Lorde Eddard assegurou-se disso. – Sou um Greyjoy, e pretendo ser herdeiro de meu pai. Como posso fazer isso a menos que prove meu valor com algum grande feito?

– É jovem. Outras guerras virão, e terá seus grandes feitos. Por ora, foi-nos ordenado que assolemos a Costa Pedregosa.

– Que meu tio Aeron trate disso. Darei seis navios a ele, todos, menos Bebedor de Espuma e Cadela do Mar, e poderá queimar e afogar gente até deixar seu deus empanturrado.

– O comando foi dado a você, não a Aeron Cabelo-Molhado.

– Desde que a pilhagem aconteça, que importa? Nenhum sacerdote seria capaz de realizar o que pretendo fazer, nem a incumbência que lhe dou. Tenho uma tarefa que só Dagmer Boca Rachada pode realizar.

Dagmer bebeu um grande gole de seu corno:

– Conte-me.

Está tentado, pensou Theon. Não gosta desse trabalho de corsário mais do que eu.

– Se minha irmã pode tomar um castelo, eu também posso.

– Asha tem quatro ou cinco vezes mais homens do que nós.

Theon permitiu-se um sorriso astuto.

– Mas nós temos quatro vezes mais inteligência, e cinco vezes mais coragem.

– Seu pai…

– … vai me agradecer, quando lhe entregar o seu reino. Pretendo realizar um feito sobre o qual os harpistas cantarão durante mil anos.

Sabia que aquilo faria Dagmer hesitar. Um cantor tinha feito uma canção sobre o machado que rachara seu maxilar ao meio, e o velho adorava ouvi-la. Sempre que estava bêbado, gritava por uma canção de saque, algo sonoro e tempestuoso que falasse de heróis mortos e feitos de grande valor. Tem cabelos brancos e dentes podres, mas ainda possui gosto pela glória.

– Qual seria o meu papel nesse seu plano, garoto? – Dagmer Boca Rachada falou após um longo silêncio, e Theon soube que tinha ganhado.

– Inspirar o terror no coração do inimigo, como só alguém com seu nome será capaz de fazer. Levará a maior parte de nossas forças e marchará sobre Praça de Torrhen. Helman Tallhart levou os melhores homens para o sul, e Benfred morreu aqui com os filhos deles. Tio Leobald ainda estará lá, com uma pequena guarnição – se tivesse tido oportunidade de interrogar Benfred, saberia precisamente quão pequena é. – Não mantenha segredo sobre sua aproximação. Cante todas as bravas canções que quiser. Quero que fechem os portões.

– Esta Praça de Torrhen é uma fortaleza forte?

– Bastante forte. As muralhas são de pedra, com nove metros de altura, torres quadradas nos cantos e uma fortaleza quadrada lá dentro.

– Não é possível incendiar muralhas de pedra. Como poderemos tomá-las? Não temos homens suficientes sequer para assaltar um castelo pequeno.

– Montará acampamento junto às muralhas e começará a construir catapultas e máquinas de cerco.

– Isso não é o Costume Antigo. Esqueceu? Os homens de ferro lutam com espadas e machados, não com o arremesso de pedras. Não há glória nenhuma em matar um inimigo de fome.

– Leobald não saberá disso. Quando o vir erguendo torres de cerco, seu sangue de velha gelará, e ele balirá por ajuda. Segure os arqueiros, tio, e deixe o corvo voar. O castelão em Winterfell é um homem corajoso, mas a idade endureceu sua inteligência tanto quanto seus membros. Quando souber que um dos vassalos de seu rei está sob ataque do temível Dagmer Boca Rachada, reunirá suas forças para ir socorrer Tallhart. É o dever dele. Se tem uma coisa que Sor Rodrik faz bem, é cumprir seu dever.