– Isto é bom demais para aquele idiota, e você diga a ele que eu falei isso – o homem resmungou enquanto lhe entregava a lâmina.
– Eu digo – ela mentiu. Se fizesse tal coisa, Weese a espancaria até deixá-la sangrando. Lucan que entregasse ele próprio seus insultos.
A espada longa era muito mais pesada do que Agulha, mas Arya gostou de pegá-la. O peso do aço nas mãos fazia-a sentir-se mais forte. Talvez não seja ainda uma dançarina de água, mas também não sou um rato. Um rato não poderia usar uma espada, mas eu posso. Os portões estavam abertos, com soldados entrando e saindo, carroças que entravam vazias e saíam rangendo e balançando sob o peso de suas cargas. Pensou em ir até os estábulos e dizer-lhes que Sor Lyonel queria um cavalo novo. Tinha o papel, os cavalariços não seriam mais capazes de lê-lo do que Lucan. Podia levar o cavalo e a espada e simplesmente sair. Se os guardas tentassem me parar, mostraria o papel para eles e diria que estava levando tudo a Sor Lyonel. Mas não tinha ideia alguma do aspecto de Sor Lyonel ou de onde poderia ser encontrado. Se a interrogassem, saberiam, e então Weese… Weese…
Enquanto mordia o lábio, tentando não pensar no que sentiria se cortassem seus pés, um grupo de arqueiros com justilhos de couro e elmos de ferro passou por ela, com os arcos a tiracolo. Arya ouviu fragmentos das conversas.
– … gigantes, estou te dizendo, ele tem gigantes com seis metros de altura, vindos de lá da Muralha, que o seguem como cães…
– … não é natural, caindo sobre eles tão depressa, de noite e tudo. É mais lobo do que homem, todos aqueles Stark são…
– … caguei nos seus lobos e gigantes, o rapaz ia mijar nas calças se soubesse que estamos a caminho. Não foi homem bastante para marchar sobre Harrenhal, não é? Fugiu pro outro lado, não foi? É melhor que fuja agora, se souber o que é melhor pra ele.
– Você diz isso, mas pode ser que o rapaz saiba alguma coisa que nós não sabemos, talvez sejamos nós quem devesse fugir…
Sim, Arya pensou. Sim, são vocês que deveriam fugir, vocês e Lorde Tywin, a Montanha, Sor Addam, Sor Amory e o estúpido do Sor Lyonel, seja ele quem for. É melhor que todos vocês fujam ou meu irmão vai matá-los, ele é um Stark, é mais lobo do que homem, e eu também.
– Doninha – a voz de Weese estalou como um chicote. Não chegou a ver de onde ele tinha vindo, mas de repente estava bem na sua frente. – Me dê isso. Demorou muito – arrancou a espada de seus dedos, e deu uma forte bofetada nela com as costas da mão. – Da próxima vez, apresse-se mais.
Por um momento, tinha voltado a ser uma loba, mas a bofetada de Weese roubou-lhe tudo e a deixou sem nada, a não ser o sabor do seu próprio sangue na boca. Tinha mordido a língua quando ele bateu. Odiou-o por isso.
– Quer outra? – Weese perguntou. – Não quero ver seus olhares insolentes. Vá à cervejaria e diga a Tuffleberry que tenho duas dúzias de barris para ele, mas é melhor que mande os rapazes buscá-los, senão encontro alguém que os queira mais – Arya pôs-se a caminho, mas não suficientemente depressa para Weese. – E corra, se quiser comer esta noite – ele gritou, já esquecido das promessas do capão rechonchudo e estaladiço. – E não se perca outra vez, ou juro que vou bater em você até sangrar.
Não vai, não, pensou Arya. Nunca mais fará isso. Mas correu. Os velhos deuses do norte devem ter guiado seus passos. No meio do caminho para a cervejaria, ao passar sob a ponte de pedra que se arqueava entre a Torre da Viúva e a Pira do Rei, ouviu um riso rude e um rosnado. Rorge dobrou uma esquina com outros três homens, todos eles com o símbolo da manticora de Sor Amory cosido sobre o coração. Quando a viu, ele parou e sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes tortos e marrons sob a aba de couro que às vezes usava para tapar o buraco que tinha no rosto.
– A xaninha de Yoren – assim ele a chamou. – Parece que já sabemos por que é que aquele bastardo preto queria você na Muralha, não é? – voltou a rir, e os outros riram com ele. – Onde está agora seu pedaço de pau? – quis saber de súbito, desaparecido o sorriso tão depressa como tinha surgido. – Acho que prometi fodê-la com ele – deu um passo na direção dela. Arya recuou. – Agora que não estou a ferros já não é tão corajosa, não é?
– Eu salvei você – manteve um bom metro entre ambos, pronta para fugir, rápida como uma serpente, se ele tentasse agarrá-la.
– Parece que lhe devo outra foda por causa disso. Yoren encheu sua xaninha, ou gostava mais desse cuzinho apertadinho?
– Estou procurando Jaqen – ela disse. – Há uma mensagem.
Rorge parou. Algo em seus olhos… seria possível que tivesse medo de Jaqen H’ghar?
– No balneário. Saia da minha frente.
Arya virou-se e correu, ligeira como uma corça, com os pés voando sobre as pedras arredondadas até o balneário. Encontrou Jaqen de molho numa banheira, com vapor erguendo-se à sua volta enquanto uma criada despejava água quente na sua cabeça. Seus longos cabelos, vermelhos de um lado e brancos do outro, caíam sobre seus ombros, molhados e pesados.
Arya aproximou-se, silenciosa como uma sombra, mas ele abriu os olhos mesmo assim.
– Ela vem furtiva em pequenos pés de rato, mas um homem ouve – ele disse. Como pode ter me ouvido?, Arya se perguntou, e foi como se ele também tivesse ouvido aquilo. – O raspar de couro em pedra canta tão alto como trombetas de guerra para um homem com os ouvidos abertos. Meninas espertas andam descalças.
– Trago uma mensagem – Arya olhou a criada com incerteza. Quando lhe pareceu que não era provável que fosse embora, inclinou-se para a frente até quase encostar sua boca na orelha dele. – Weese – ela murmurou.
Jaqen H’ghar voltou a fechar os olhos, flutuando, lânguido, meio adormecido.
– Diga a sua senhoria que um homem irá servi-la a seu tempo – ele moveu subitamente a mão, salpicando-a de água quente, e Arya teve de saltar para trás para evitar ficar ensopada.
Quando transmitiu a Tuffleberry o que Weese tinha dito, o cervejeiro praguejou em voz alta:
– Diga a Weese que meus moços têm deveres a cumprir, e diga-lhe também que é um bastardo bexiguento, e que os sete infernos hão de congelar antes que ele prove outro corno da minha cerveja. Ou eu tenho esses barris dentro da próxima hora, ou Lorde Tywin vai ouvir do assunto. Ele logo verá se não.
Weese também praguejou quando Arya trouxe aquela mensagem de volta, embora tivesse deixado de lado a parte sobre ele ser um bastardo bexiguento. Enfureceu-se e lançou ameaças, mas, por fim, reuniu seis homens e, resmungando, mandou-os levar os barris à cervejaria.
O jantar, naquela noite, foi um guisado aguado de cevada, cebola e cenouras, com uma fatia de pão de centeio duro. Uma das mulheres andava dormindo na cama de Weese, e recebeu também um bom pedaço de queijo azul e uma asa do capão de que Weese tinha falado de manhã. Ele comeu o resto sozinho, com a gordura escorrendo numa linha brilhante por entre os furúnculos que ulceravam no canto da boca. A ave estava quase no fim quando ergueu o olhar da travessa e viu que Arya o fitava.
– Doninha, venha cá.
Ainda havia algumas dentadas de carne escura presas a uma coxa. Ele esqueceu, mas agora lembrou, ela pensou. Sentiu-se mal por ter dito a Jaqen que o matasse. Saiu do banco e dirigiu-se ao topo da mesa.
– Vi você olhando para mim – Weese limpou os dedos no peito da camisa dela. Depois agarrou sua garganta com uma mão e esbofeteou-a com a outra. – O que foi que lhe disse? – voltou a esbofeteá-la, com as costas da mão. – Guarde esses olhos para você, senão, da próxima vez arranco um deles com a colher e o dou de comer à minha cadela – um empurrão atirou-a ao chão, aos tropeções. A bainha prendeu-se num prego solto no banco de madeira lascada e rasgou-se quando ela caiu. – E vai remendar isso antes de dormir – anunciou Weese enquanto arrancava o último pedaço de carne do capão. Quando terminou, chupou sonoramente os dedos, e atirou os ossos ao seu feio cão malhado.