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– Weese – Arya murmurou naquela noite enquanto se debruçava sobre o rasgão na roupa. – Dunsen, Polliver, Raff, o Querido – ela dizia um nome a cada vez que puxava a agulha de osso através da lã crua. – Cócegas e Cão de Caça. Sor Gregor, Sor Amory, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei – perguntou a si mesma por quanto mais tempo teria de incluir Weese na sua prece, e flutuou para o sono, sonhando que, no dia seguinte, quando acordasse, ele estaria morto.

Mas foi a biqueira dura da bota de Weese que a acordou, como sempre. A força principal da tropa de Lorde Tywin partiria naquele dia, disse-lhes ele enquanto quebravam o jejum com bolos de aveia.

– Que nenhum de vocês esteja pensando que as coisas vão ficar fáceis depois de o senhor de Lannister ir embora – ele os preveniu. – O castelo não vai encolher, prometo, só que agora vai haver menos mãos para cuidar dele. Seu bando de dorminhocos. Vão aprender agora o que é trabalho, ah se vão.

Sob o seu comando, não. Arya bicou seu bolo de aveia. Weese franziu a testa para ela, como se farejasse seu segredo. Num movimento rápido, ela abaixou os olhos para a comida e não se atreveu a voltar a erguê-los.

Uma luz fraca enchia o pátio quando Lorde Tywin Lannister se retirou de Harrenhal. Arya observou a partida de uma janela arqueada, a meia altura da Torre dos Lamentos. Seu cavalo usava uma manta de escamas esmaltadas carmim, e focinheira, e testeira dourados, enquanto o próprio Lorde Tywin ostentava um espesso manto de arminho. O irmão, Sor Kevan, tinha um aspecto quase igualmente magnífico. Nada menos do que quatro porta-estandartes seguiam à frente dos dois, transportando enormes bandeiras carmins ornamentadas com o leão dourado. Atrás dos Lannister vinham seus grandes senhores e capitães. As bandeiras cintilavam e esvoaçavam, um suntuoso cortejo de cor: boi vermelho e montanha dourada, unicórnio purpúreo e galo bantã, javali e texugo malhados, um furão de prata e um malabarista com roupas multicoloridas, estrelas e esplendores, pavão e pantera, chaveirão e punhal, capuz preto, escaravelho azul e flecha verde.

Atrás de todos vinha Sor Gregor Clegane com seu aço cinza, montado num garanhão com um temperamento tão mau como o do cavaleiro. Polliver seguia a seu lado, com o estandarte dos cães pretos na mão e o elmo com chifres de Gendry na cabeça. Era um homem alto, mas não parecia mais do que um rapaz meio crescido quando cavalgava na sombra de seu senhor.

Um arrepio subiu pela espinha de Arya quando os viu passar sob a grande porta levadiça de Harrenhal. De repente percebeu que tinha cometido um erro terrível. Sou tão burra, pensou. Weese não importava, não importava mais do que Chiswyck. Aqueles eram os homens que importavam, eram aqueles que devia ter matado. Na noite anterior podia ter sussurrado a morte de qualquer um, se ao menos não tivesse estado tão furiosa com Weese por lhe ter batido e mentido a respeito do capão. Lorde Tywin, por que foi que não disse Lorde Tywin?

Talvez não fosse tarde demais para mudar de ideia. Weese ainda não estava morto. Se conseguisse encontrar Jaqen, dizer-lhe…

Apressadamente, Arya correu pela escada em espiral, esquecida dos deveres. Ouviu o chocalhar de correntes que a porta levadiça fazia ao ser descida com lentidão, seus espigões afundando-se profundamente no solo… E, então, outro som, um guincho de dor e medo.

Uma dúzia de pessoas chegou lá antes dela, embora nenhuma se aproximasse muito. Arya abriu caminho entre elas, contorcendo-se. Weese estava estatelado nas pedras, com a garganta transformada numa ruína vermelha, olhos abertos, sem ver, na direção de uma escarpa de nuvens cinzentas. A feia cadela malhada estava em pé sobre seu peito, bebendo o sangue que saía pulsando do seu pescoço, e de quando em quando arrancando um pedaço de carne da cara do morto.

Por fim, alguém trouxe uma besta e matou a cadela enquanto esta se entretinha com uma das orelhas de Weese.

– Que coisa maldita – ouviu um homem dizer. – Ele tinha aquela cadela desde filhote.

– Este lugar está amaldiçoado – disse o homem com a besta.

– É o fantasma de Harren, é o que é – lamentou-se a governanta Amabel. – Não durmo aqui nem mais uma noite, juro.

Arya ergueu o olhar do homem e do seu cão, ambos mortos. Jaqen H’ghar estava encostado na parede da Torre dos Lamentos. Quando a viu olhando, ergueu uma mão e pousou casualmente dois dedos no rosto.

Catelyn

A dois dias de viagem de Correrrio, um batedor os viu dando água aos cavalos num riacho lamacento. Catelyn nunca se sentira tão feliz por ver o símbolo da dupla torre da Casa Frey.

Quando pediu ao homem para levá-los à presença do tio, ele disse:

– Peixe Negro foi para oeste com o rei, senhora. Martyn Rivers comanda os batedores no seu lugar.

– Estou vendo – tinha conhecido Rivers nas Gêmeas; um filho ilegítimo de Lorde Walder Frey, meio-irmão de Sor Perwyn. Não a surpreendia ficar sabendo que Robb atacara o coração do poder dos Lannister; era claro que pensava em fazer exatamente isso quando a enviara para conferenciar com Renly. – Onde Rivers está agora?

– Seu acampamento fica a duas horas de viagem, senhora.

– Leve-nos até ele – ela ordenou. Brienne ajudou-a a subir na sela, e puseram-se imediatamente a caminho.

– Vem de Ponteamarga, senhora? – perguntou o batedor.

– Não.

Não se atrevera. Com Renly morto, Catelyn se sentiu insegura a respeito da recepção que poderia receber da jovem viúva e de seus protetores. Em vez disso, atravessara o coração da guerra, passando pelas férteis terras fluviais transformadas num deserto enegrecido pela fúria dos Lannister, e todas as noites seus batedores traziam histórias que a deixavam mal.

– Lorde Renly está morto – ela acrescentou.

– Tínhamos esperança de que essa história fosse alguma mentira Lannister, ou…

– Bem que eu gostaria que fosse. Meu irmão comanda em Correrrio?

– Sim, senhora. Sua Graça deixou a Sor Edmure a defesa de Correrrio e de sua retaguarda.

Que os deuses lhe concedam a força para fazer isso, pensou Catelyn. E também a sabedoria.

– Há notícias de Robb no ocidente?

– Não soube? – o homem parecia surpreso. – Sua Graça conquistou uma grande vitória em Cruzaboi. Sor Stafford Lannister está morto e sua tropa desbaratada.

Sor Wendel Manderly soltou um grito de prazer, mas Catelyn limitou-se a acenar com a cabeça. As dificuldades do amanhã interessavam-lhe mais do que os triunfos de ontem.

Martyn Rivers tinha montado seu acampamento dentro do esqueleto de um castro despedaçado, ao lado de um estábulo sem telhado e de uma centena de sepulturas frescas. Ele se dobrou sobre um joelho quando Catelyn desmontou.

– É bom encontrá-la, senhora. Seu irmão nos encarregou de manter um olho atento ao seu grupo e de escoltá-los de volta para Correrrio com toda pressa, caso os encontrássemos.

Catelyn gostou pouco de como aquilo soava.

– É o meu pai?

– Não, senhora. A condição de Lorde Hoster permanece inalterada – Rivers era um homem corado, com escassa semelhança com seus meios-irmãos. – É só por temermos que pudessem acabar encontrando batedores Lannister. Lorde Tywin deixou Harrenhal e marcha para o oeste com todo o seu poder.

– Levante-se – ela disse a Rivers, franzindo a testa. Stannis Baratheon também iria se pôr em marcha em breve, que os deuses os ajudassem a todos. – Temos quanto tempo até que Lorde Tywin caia sobre nós?

– Três dias, talvez quatro; é difícil saber. Temos olhos colocados ao longo de todas as estradas, mas seria melhor não nos demorarmos.