A voz do irmão estava cheia de uma confiança indelicada, mas Catelyn viu-se desejando que Robb não tivesse levado tio Brynden consigo para o oeste. Peixe Negro era veterano de meia centena de batalhas; Edmure era veterano de uma, e perdida.
– O plano é bom – ele concluiu. – Lorde Tytos afirma isso, e Lorde Jonos também. Quando foi que Blackwood e Bracken concordaram com qualquer coisa que não fosse certa, eu pergunto.
– Seja como for – Catelyn ficou subitamente cansada. Talvez estivesse errada em se opor ao irmão. Talvez aquele plano fosse magnífico e seus pressentimentos não passassem de temores de uma mulher. Desejou que Ned estivesse ali, ou tio Brynden, ou… – Consultou nosso pai a respeito disso?
– Nosso pai não está em estado de pesar estratégias. Há dois dias fazia planos para o seu casamento com Brandon Stark! Vá vê-lo, se não acredita em mim. Este plano vai funcionar, Cat, você verá.
– Espero que sim, Edmure. De verdade – beijou-o no rosto para que ele soubesse que falava a sério, e foi até o pai.
Lorde Hoster Tully encontrava-se num estado muito semelhante àquele em que Catelyn o deixara; acamado, abatido, com a pele pálida e úmida. O quarto cheirava a doença, um odor nauseante feito de partes iguais de suor e de remédios. Quando abriu as cortinas, o pai soltou um pequeno gemido e entreabriu os olhos. Fitou-a como se não conseguisse compreender quem ela era ou o que queria.
– Pai – beijou-o. – Voltei.
Então, pareceu reconhecê-la.
– Você veio – sussurrou de forma tênue, quase sem mover os lábios.
– Sim – ela respondeu. – Robb enviou-me para o sul, mas apressei-me em voltar.
– Sul… onde… o Ninho da Águia fica para o sul, querida? Não me lembro… Ah, querido coração, tive medo… Perdoa-me, filha? – lágrimas correram pelo seu rosto.
– Não fez nada que necessite de perdão, pai – Catelyn afagou o cabelo branco e sem energia do pai e pôs a mão na sua testa. A febre ainda o queimava por dentro, apesar de todas as poções do meistre.
– Foi o melhor – sussurrou seu pai. – Jon é um bom homem, bom… forte, bondoso… tomará conta de você… tomará… e bem-nascido, escute-me, tem de me escutar, sou seu pai… seu pai, casará quando a Cat casar, sim, senhora…
Ele pensa que sou Lysa, compreendeu Catelyn. Que os deuses sejam bons, ele fala como se ainda não estivéssemos casadas.
As mãos do pai agarraram-se às dela, tremendo como duas aves brancas e assustadas.
– Aquele moleque… maldito rapaz… não pronuncie o nome dele na minha presença, o seu dever… a sua mãe, ela teria… – Lorde Hoster gritou quando um espasmo de dor o subjugou. – Oh, deuses, perdoem-me, perdoem-me, perdoem-me. O meu remédio…
E de repente Meistre Vyman estava ali, levando uma taça aos seus lábios. Lorde Hoster sugou a poção espessa e branca com a avidez de um bebê no seio, e Catelyn viu a paz cair de novo sobre ele.
– Ele dormirá agora, senhora – disse o meistre quando a taça ficou vazia. O leite da papoula tinha deixado uma espessa película branca em torno da boca do pai. Meistre Vyman limpou-a com a manga.
Catelyn não foi capaz de ver mais. Hoster Tully tinha sido um homem forte e orgulhoso. Doía-lhe vê-lo assim, reduzido àquilo. Saiu para a varanda. O pátio, embaixo, estava repleto de refugiados e caótico com o ruído que faziam, mas para lá das muralhas os rios fluíam limpos, puros e sem fim. Estes são os seus rios, e em breve voltará a eles, para a sua última viagem.
Meistre Wyman a tinha seguido até o exterior.
– Senhora – ele disse em voz baixa –, não posso continuar muito mais tempo a afastar o fim. Devíamos mandar um cavaleiro em busca do irmão. Sor Brynden gostaria de estar aqui.
– Sim – Catelyn concordou, com a voz carregada de desgosto.
– E a Senhora Lysa também, talvez?
– Lysa não virá.
– Se escrevesse para ela em pessoa, talvez…
– Porei algumas palavras no papel, se isso lhe agrada.
Perguntou a si mesma quem teria sido o “maldito moleque” de Lysa. Algum jovem escudeiro ou pequeno cavaleiro, provavelmente… Se bem que, pela veemência com que Lorde Hoster se opusera a ele, pudesse ter sido um filho de um mercador ou um aprendiz bastardo, ou até um cantor. Lysa sempre tinha gostado demais de cantores. Não posso culpá-la. Jon Arryn era vinte anos mais velho do que nosso pai, por mais nobre que fosse.
A torre que o irmão tinha separado para seu uso era a mesma que ela e Lysa haviam dividido quando donzelas. Seria bom voltar a dormir numa cama de penas, com um fogo quente na lareira. Quando estivesse descansada, o mundo pareceria menos desolador.
Mas, à porta de seus aposentos, encontrou Utherydes Wayn esperando, na companhia de duas mulheres vestidas de cinza, com os rostos escondidos por capuzes, deixando apenas os olhos à vista. Catelyn soube imediatamente por que motivo estavam ali.
– Ned?
As irmãs abaixaram os olhos. Utherydes respondeu:
– Sor Cleos trouxe-o de Porto Real, senhora.
– Levem-me até ele – Catelyn ordenou.
Tinham-no deitado numa mesa de montar e haviam-no coberto com um estandarte, o estandarte branco da Casa Stark com seu símbolo do lobo gigante cinza.
– Quero olhar para ele – ela pediu.
– Só restam os ossos, senhora.
– Quero olhar para ele – Catelyn repetiu.
Uma das irmãs silenciosas puxou o estandarte para baixo.
Ossos, pensou Catelyn. Isto não é Ned, não é o homem que amei, o pai de meus filhos. As mãos dele estavam apertadas sobre o peito, com dedos esqueléticos dobrados em torno do cabo de uma espada longa qualquer, mas não eram as mãos de Ned, tão fortes e cheias de vida. Tinham vestido os ossos com a túnica de Ned, o veludo branco e fino com o símbolo do lobo gigante sobre o coração, mas nada restava da carne quente que tinha servido tantas noites de almofada à sua cabeça, dos braços que a tinham abraçado. A cabeça havia sido reunida ao corpo com fino fio de prata, mas um crânio é muito semelhante aos outros, e naquelas órbitas vazias não viu sinal dos olhos cinza-escuros do seu senhor, olhos que podiam ser suaves como nevoeiro ou duros como pedra. Deram seus olhos aos corvos, recordou.
Catelyn virou o rosto.
– Aquela não é a espada dele.
– Gelo não nos foi devolvida, senhora – disse Utherydes. – Só os ossos de Lorde Eddard.
– Suponho que deva agradecer à rainha até por isso.
– Agradeça ao Duende, senhora. Foi obra dele.
Um dia vou agradecer a todos eles.
– Estou grata por seus serviços, irmãs – Catelyn agradeceu –, mas devo atribuir-lhes outra tarefa. Lorde Eddard era um Stark, e seus ossos devem ser postos em repouso sob Winterfell – farão uma estátua dele, um retrato de pedra que se sentará no escuro com um lobo gigante aos pés e uma espada pousada nos joelhos. – Assegurem-se de que as irmãs tenham cavalos descansados, e qualquer outra coisa de que necessitem para a viagem – ela disse a Utherydes Wayn. – Hal Mollen vai escoltá-las de volta a Winterfell, é tarefa dele como capitão dos guardas – ela desceu os olhos para os ossos que eram tudo o que restava do seu senhor e amor. – Deixem-me agora, todos vocês. Desejo ficar a sós com Ned esta noite.
As mulheres de cinza inclinaram a cabeça. As irmãs silenciosas não falam com os vivos, recordou-se Catelyn, entorpecida, mas há quem diga que são capazes de falar com os mortos. E como invejava esse poder…