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– Deixe-a, Vossa Graça – Cersei gritou ao filho –, ela está para lá da nossa ajuda, coitada.

A mãe ouviu. De algum modo a voz da rainha abriu caminho através da inteligência devastada da mulher. Seu rosto descuidado contorceu-se com repugnância.

Puta! – ela guinchou. – Puta do Regicida! Fode-irmãos! – seu filho morto caiu de seus braços como uma saca de farinha quando apontou para Cersei. – Fode-irmãos, fode-irmãos, fode-irmãos.

Tyrion não chegou a ver quem atirou o esterco. Só ouviu o arquejo de Sansa e a praga berrada por Joffrey, e, quando virou a cabeça, o rei limpava sujeira marrom do rosto. Havia mais no seu cabelo dourado e salpicos pelas pernas de Sansa.

– Quem atirou isso? – Joffrey gritou. Levou os dedos ao cabelo, fez uma cara furiosa e atirou ao chão mais um punhado de bosta. – Quero o homem que atirou isso! – gritou. – Cem dragões de ouro para o homem que o denunciar.

– Ele estava ali em cima! – gritou alguém da multidão. O rei obrigou o cavalo a descrever um círculo a fim de inspecionar os telhados e as varandas abertas acima deles. Na multidão havia pessoas apontando, empurrando, amaldiçoando-se umas às outras e ao rei.

– Por favor, Vossa Graça, deixe-o ir – Sansa suplicou.

O rei não prestou atenção.

– Tragam o homem que atirou aquela imundície! – Joffrey ordenou. – Há de lambê-la de cima de mim, caso contrário corto sua cabeça. Cão, traga-o aqui!

Obediente, Sandor Clegane saltou da sela, mas não havia maneira de passar através daquela muralha de carne, muito menos de subir ao telhado. Aqueles que estavam mais próximos começaram a se contorcer e a empurrar para se afastar, enquanto outros faziam pressão para a frente, queriam ver. Tyrion sentiu o cheiro do desastre.

– Clegane, deixe-o, o homem já fugiu há muito tempo.

– Eu quero esse homem! – Joffrey apontou para o telhado. – Ele estava ali em cima! Cão, abra caminho com a espada através deles e traga-me…

Um tumulto de som afogou suas últimas palavras, um trovão rolante de raiva, medo e ódio que os submergiu por todos os lados. “Bastardo!”, alguém gritou para Joffrey, “monstro bastardo.” Outras vozes lançavam nomes como “Puta” e “Fode-irmãos” à rainha, enquanto Tyrion era crivado com gritos de “Aborto” e “Meio-Homem”. Misturados com os insultos, ouviu alguns gritos por “Justiça” e “Robb, Rei Robb, o Jovem Lobo”, por “Stannis!” e até por “Renly!”. De ambos os lados da rua, a multidão encapelou-se contra os cabos das lanças enquanto os homens de mantos dourados lutavam para manter a fileira. Pedras, bosta e coisas piores zumbiam por cima das cabeças. “Dê-nos comida!”, guinchou uma mulher. “Pão!”, trovejou um homem atrás dela. “Queremos pão, bastardo!” Num instante, mil vozes juntaram-se ao cântico. Rei Joffrey, Rei Robb e Rei Stannis foram esquecidos, e o Rei Pão governou sozinho. “Pão!”, gritaram. “Pão, pão!

Tyrion esporeou o cavalo para o lado da irmã, gritando:

– De volta ao castelo. Agora.

Cersei fez um aceno brusco, e Sor Lancel desembainhou a espada. À frente da coluna, Jacelyn Bywater rugia ordens. Seus homens a cavalo baixaram as lanças e avançaram em cunha. O rei fazia o palafrém rodopiar em círculos ansiosos enquanto mãos atravessavam a fileira de mantos dourados, tentando agarrá-lo. Uma conseguiu pegar sua perna, mas só por um instante. A espada de Sor Mandon desceu, separando a mão do pulso.

Cavalga! – Tyrion gritou ao sobrinho, dando uma forte palmada na garupa do cavalo. O animal empinou-se, relinchando, e mergulhou à frente, obrigando a multidão a dispersar.

Tyrion conduziu o cavalo para a abertura, na cola dos cascos do rei. Bronn acompanhou-o, de espada na mão. Uma pedra irregular passou voando perto de sua cabeça enquanto cavalgava, e uma couve podre explodiu contra o escudo de Sor Mandon. À esquerda do grupo, três homens de manto dourado caíram sob a força da multidão, que correu em frente, pisoteando os homens derrubados. Cão de Caça tinha desaparecido, embora seu cavalo cavalgasse sem cavaleiro ao lado deles. Tyrion viu Aron Santagar ser puxado de cima da sela, enquanto o veado dourado e negro dos Baratheon era arrancado de suas mãos. Sor Balon Swann deixou o leão dos Lannister cair para pegar a espada. Lançou golpes à direita e à esquerda, enquanto o estandarte caído era rasgado e mil pedaços esfarrapados rodopiavam para longe, como folhas carmesins num vento de tempestade, e, num instante, desapareceram. Alguém cambaleou para a frente do cavalo de Joffrey e berrou quando o rei o atropelou. Tyrion não seria capaz de dizer se tinha sido homem, mulher ou criança. Joffrey galopava ao seu lado, pálido como leite coalhado, com Sor Mandon Moore à sua esquerda como uma sombra branca.

De repente, a loucura ficou para trás e ressoou pela praça pavimentada que se abria diante da barbacã do castelo. Uma fileira de lanceiros defendia os portões. Sor Jacelyn fazia seus lanceiros descreverem meia-volta para outra investida. As lanças abriram-se para deixar o grupo do rei passar sob a porta levadiça. Muralhas vermelho-claras erguiam-se em volta deles, tranquilizadoramente altas e repletas de besteiros.

Tyrion não se lembrava de ter desmontado. Sor Mandon ajudava o abalado rei a descer do cavalo, enquanto Cersei, Tommen e Lancel atravessavam os portões com Sor Meryn e Sor Boros logo atrás. A lâmina de Boros estava coberta de sangue, e o manto branco de Meryn tinha sido arrancado de seus ombros. Sor Balon Swann entrou sem elmo, com a montaria espumando e a boca sangrando. Horas Redwyne trouxe a Senhora Tanda, meio enlouquecida de medo pela filha Lollys, que tinha sido derrubada da sela e deixada para trás. Lorde Gyles, com o rosto mais cinzento do que nunca, gaguejou uma história sobre ter visto o Alto Septão sendo derrubado da liteira, gritando preces enquanto a multidão o arrastava. Jalabhar Xho disse que pensava ter visto Sor Preston Greenfield da Guarda Real cavalgar na direção da liteira virada do Alto Septão, mas não tinha certeza.

Tyrion ouviu vagamente um meistre perguntando se ele estava ferido. Abriu caminho pelo pátio aos empurrões até onde estava o sobrinho, com a coroa suja de esterco acomodada de lado na cabeça.

– Traidores – Joffrey balbuciava, nervoso –, vou cortar as cabeças de todos, vou…

O anão deu um tapa tão forte em sua cabeça coroada que a coroa voou. Depois, empurrou-o com ambas as mãos e o derrubou, fazendo-o estatelar-se no chão.

– Seu maldito e cego idiota.

– Eles eram traidores – do chão, Joffrey guinchou. – Chamaram-me de nomes e atacaram-me!

Você atiçou seu cão sobre eles! Que imaginava que fizessem, que dobrassem docilmente o joelho enquanto Cão de Caça cortava alguns braços e pernas? Seu garotinho mimado e imbecil, matou Clegane, e só os deuses sabem quantos mais, e, no entanto, você escapou sem um arranhão. Maldito seja! – Tyrion o chutou. A sensação era tão boa que poderia tê-lo feito mais vezes, mas Sor Mandon Moore o puxou para trás enquanto Joffrey uivava, e rapidamente Bronn estava ali para contê-lo. Cersei ajoelhou junto ao filho, enquanto Sor Balon Swann continha Sor Lancel. Tyrion libertou-se de Bronn com uma sacudida. – Quantos ainda estão lá fora? – gritou para ninguém e para todos.

– Minha filha – chorou a Senhora Tanda. – Por favor, alguém tem de voltar à procura de Lollys…

– Sor Preston não regressou – relatou Sor Boros Blount –, nem Aron Santagar.

– Nem a Ama de Leite – disse Sor Horas Redwyne. Era o apelido jocoso que os outros escudeiros tinham atribuído a Tyrek Lannister.