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Tyrion passou os olhos pelo pátio.

– Onde está a menina Stark?

Por um momento, ninguém respondeu. Finalmente Joffrey falou:

– Ela cavalgava a meu lado. Não sei para onde foi.

Tyrion apertou as têmporas latejantes com dedos ásperos. Se algo tivesse acontecido a Sansa Stark, Jaime era um homem morto.

– Sor Mandon, você era o escudo dela.

O homem permaneceu impassíveclass="underline"

– Quando atacaram Cão de Caça, pensei primeiro no rei.

– E com razão – Cersei interveio. – Boros, Meryn, voltem e encontrem a menina.

– E a minha filha? – soluçou a Senhora Tanda. – Por favor, sores…

Sor Boros não pareceu contente com a perspectiva de abandonar a segurança do castelo.

– Vossa Graça – disse à rainha –, ver nossos mantos brancos pode enfurecer o povo.

Tyrion tinha engolido o máximo que conseguia.

– Que os Outros levem a porra de seus mantos! Tire-o, se tem medo de usá-lo, maldito imbecil… Mas encontre Sansa Stark ou, juro, mandarei que Shagga abra essa sua cabeça feia para ver se há alguma coisa aí dentro além de chouriços.

Sor Boros ficou roxo de raiva.

– Você está me chamando de feio? Você? – começou a erguer a espada ensanguentada que ainda agarrava com o punho coberto de cota de malha. Bronn empurrou Tyrion sem-cerimônia para trás de seu corpo.

Parem! – Cersei exclamou. – Boros, vá fazer o que lhe é pedido, ou encontraremos outra pessoa para usar esse manto. Seu voto…

– Ali está ela! – Joffrey gritou, apontando.

Sandor Clegane entrou pelos portões a um meio-galope, vivo, montado no corcel castanho de Sansa. A garota vinha sentada atrás, apertando o peito do Cão de Caça com ambos os braços.

Tyrion gritou:

– Está ferida, Senhora Sansa?

Escorria sangue pela testa de Sansa, vindo de um golpe profundo em seu couro cabeludo.

– Eles… Eles estavam atirando coisas… Pedras e sujeira, ovos… Tentei lhes dizer, não tinha pão para lhes dar. Um homem tentou me puxar da sela. Acho que Cão de Caça o matou… o braço dele… – seus olhos esbugalharam-se e ela colocou uma mão sobre a boca. – Ele cortou seu braço fora.

Clegane pôs Sansa no chão. Seu manto branco estava rasgado e manchado, e saía sangue de um rasgo irregular na manga esquerda.

– O passarinho está sangrando. Alguém tem que levá-lo de volta à gaiola e tratar daquele golpe – Meistre Franken aproximou-se rapidamente para obedecer. – Despacharam Santagar – prosseguiu Cão de Caça. – Quatro homens seguraram-no no chão e revezaram-se para bater em sua cabeça com uma pedra de pavimentação. Estripei um deles, não que isso tenha feito algum bem a Sor Aron.

Senhora Tanda dirigiu-se a ele:

– A minha filha...

– Não cheguei a vê-la – Cão de Caça passou os olhos pelo pátio, de cenho carregado. – Onde está o meu cavalo? Se aconteceu alguma coisa àquele cavalo, alguém vai ter de pagar.

– Ele veio correndo conosco durante algum tempo – Tyrion respondeu –, mas não sei o que houve depois disso.

Fogo! – gritou uma voz de cima da barbacã. – Senhores, há fumaça na cidade. A Baixada das Pulgas está ardendo.

Tyrion estava indizivelmente cansado, mas não havia tempo para desespero.

– Bronn, leve tantos homens quanto precisar e assegure-se de que os carros de água não sejam molestados – que os deuses sejam bons, o fogovivo, se alguma chama chegar até ele… – Podemos perder toda a Baixada das Pulgas se for preciso, mas em hipótese alguma o fogo poderá atingir o Palácio dos Alquimistas, está entendido? Clegane, você vai com ele.

Durante meio segundo, Tyrion pensou vislumbrar medo nos olhos escuros do Cão de Caça. Fogo, compreendeu. Que os Outros me levem, claro que ele odeia fogo, já o experimentou bem demais. A expressão desapareceu num instante, substituída pela carranca familiar de Clegane.

– Irei – ele concordou –, mas não por sua ordem. Tenho de encontrar aquele cavalo.

Tyrion virou-se para os três cavaleiros restantes da Guarda Real.

– Cada um de vocês irá escoltar um arauto. Ordenem a todos que retornem às suas casas. Qualquer homem que for encontrado nas ruas depois do último repique do toque de anoitecer será morto.

– Nosso lugar é ao lado do rei – disse Sor Meryn com complacência.

Cersei empinou-se como uma víbora:

– Seu lugar é onde o meu irmão disser que é – ela cuspiu. – A Mão fala com a voz do rei, e desobediência é traição.

Boros e Meryn trocaram um olhar.

– Devemos usar nossos mantos, Vossa Graça? – Sor Boros perguntou.

– Por mim podem até ir nus. Isso talvez lembre à multidão que são homens. É provável que tenham se esquecido disso depois de verem o modo como se comportaram lá fora.

Tyrion deixou a irmã enfurecer-se. Sentia a cabeça latejando. Achava que conseguia sentir o cheiro de fumaça, embora talvez fosse apenas o odor de seus nervos desgastados. Dois dos Corvos de Pedra guardavam a porta da Torre da Mão.

– Vão atrás de Timett, filho de Timett.

– Os Corvos de Pedra não correm gritando atrás de Homens Queimados – informou-o um dos selvagens com altivez.

Por um momento, Tyrion tinha se esquecido de com quem lidava.

– Então vão atrás de Shagga.

– Shagga dorme.

Não gritar era um esforço.

– Acorde-o. Vá.

– Não é nada fácil acordar Shagga, filho de Dolf – o homem protestou. – Sua ira é temível – e foi embora resmungando.

O homem dos clãs entrou calmamente, bocejando e se coçando.

– Metade da cidade está amotinada, a outra metade está ardendo, e Shagga ronca – Tyrion o recebeu.

– Shagga não gosta da água lamacenta que aqui tem, por isso tem de beber da sua cerveja fraca e do seu vinho azedo, e depois a cabeça dói.

– Tenho Shae numa mansão perto do Portão de Ferro. Quero que vá até lá e a mantenha a salvo, aconteça o que acontecer.

O enorme homem sorriu, com os dentes transformados numa fenda amarela no território selvagem e peludo de sua barba.

– Shagga vai trazê-la para cá.

– Somente assegure-se de que nenhum mal lhe aconteça. Diga-lhe que irei encontrá-la assim que puder. Talvez ainda esta noite, ou com certeza amanhã.

Mas, ao cair da noite, a cidade continuava em tumulto, embora Bronn relatasse que os incêndios tinham sido apagados e que a maior parte dos grupos errantes tinha se dispersado. Por mais que Tyrion ansiasse pelo conforto dos braços de Shae, compreendeu que naquela noite não iria a lugar nenhum.

Sor Jacelyn Bywater entregou a fatura do carniceiro enquanto Tyrion jantava capão frio e pão de centeio entre as sombras de seu aposento privado. Àquela altura, o ocaso já havia se transformado em trevas, mas quando os criados vieram acender suas velas e um fogo na lareira, Tyrion rugira e os pusera para correr. Seu humor estava tão negro como o aposento, e Bywater não disse nada que o iluminasse.

A lista dos mortos era encabeçada pelo Alto Septão, destroçado enquanto gritava aos seus deuses por misericórdia. Homens famintos olham com olhos duros para sacerdotes gordos demais para andar, Tyrion refletiu.

O cadáver de Sor Preston, a princípio, não tinha sido notado; os homens de manto dourado tinham andado à procura de um cavaleiro em armadura branca, mas ele havia sido tão cruelmente apunhalado e golpeado que estava vermelho-amarronzado da cabeça aos pés.

Sor Aron Santagar tinha sido encontrado numa sarjeta, com a cabeça transformada numa polpa vermelha dentro de um elmo esmagado.

A filha da Senhora Tanda cedera sua virgindade a meia centena de homens aos gritos atrás de uma tanoaria. Os homens de manto dourado tinham-na encontrado vagueando, nua, pelo Quarteirão do Porco Salgado.