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Tyrek continuava desaparecido, tal como a coroa de cristais do Alto Septão. Nove homens de manto dourado tinham sido mortos, e havia quarenta feridos. Ninguém se incomodara em contar quantos haviam morrido entre a multidão.

– Quero Tyrek, vivo ou morto – Tyrion disse secamente quando Bywater se calou. – Ele não passa de um garoto. Filho do meu falecido tio Tygett. O pai sempre foi bom para mim.

– Vamos encontrá-lo. E a coroa do septão também.

– Por mim, os Outros bem podem enrabar-se uns aos outros com a coroa do septão.

– Quando me nomeou para comandar a Patrulha, disse que queria a verdade pura, sempre.

– Por algum motivo, tenho a sensação de que não vou gostar do que quer que tenha a dizer – Tyrion disse sombriamente.

– Hoje seguramos a cidade, senhor, mas não faço promessas para amanhã. A chaleira está perto da fervura. Há lá fora tantos ladrões e assassinos que nenhuma casa está em segurança, o fluxo sangrento espalha-se pelos refeitórios ao longo da Curva da Urina, e não há comida que se compre por cobre ou prata. Onde antes só se ouviam resmungos vindos da sarjeta, agora fala-se abertamente de traição em palácios de guildas e mercados.

– Precisa de mais homens?

– Não confio em metade dos homens que tenho agora. Slynt triplicou o tamanho da Patrulha, mas é preciso mais do que um manto dourado para fazer um vigia. Há homens bons e leais entre os novos recrutas, mas também há mais brutos, bêbados, covardes e traidores do que gostaria de saber. Estão meio treinados, mas são indisciplinados, e a lealdade que têm é para com a própria pele. Caso se chegue à batalha, temo que não resistam.

– Nunca esperei que resistissem – Tyrion respondeu. – Desde o início sei que assim que nossas muralhas abrirem uma brecha, estaremos perdidos.

– Meus homens vêm, na sua maioria, do povo. Caminham pelas mesmas ruas, bebem nas mesmas tabernas, servem-se das mesmas tigelas de castanho dos mesmos refeitórios. Seu eunuco já lhe deve ter dito que há pouco amor pelos Lannister em Porto Real. Muitos ainda se lembram de como o senhor seu pai saqueou a cidade, quando Aerys lhe abriu os portões. Sussurram que os deuses estão nos punindo pelos pecados de sua Casa… pelo assassinato do Rei Aerys por seu irmão, pelo massacre dos filhos de Rhaegar, pela execução de Eddard Stark e pela selvageria da justiça de Joffrey. Alguns falam abertamente de como as coisas eram melhores quando Robert era rei, e sugerem que os tempos voltariam a melhorar com Stannis no trono. Ouvem-se essas coisas em refeitórios, tabernas e bordéis… e temo que também se ouçam em casernas e salões de guardas.

– Odeiam minha família, é isso que está me dizendo?

– Sim… E vão se virar contra ela, se houver uma oportunidade.

– Também me odeiam?

– Pergunte ao seu eunuco.

– Estou perguntando a você.

Os olhos encovados de Bywater enfrentaram os desiguais do anão e não pestanejaram.

– Acima de tudo, senhor.

Acima de tudo? – a injustiça o sufocava. – Foi Joffrey quem lhes disse para comer seus mortos, foi Joffrey quem atiçou seu cão sobre eles. Como podem me culpar?

– Sua Graça não passa de um rapaz. Nas ruas, dizem que tem conselheiros malignos. A rainha nunca foi conhecida como uma amiga da plebe, nem chamam Lorde Varys de Aranha por amor… Mas é você quem mais culpam. Sua irmã e o eunuco estavam aqui quando os tempos eram melhores sob o reinado do Rei Robert, mas você não. Dizem que encheu a cidade de mercenários arrogantes e selvagens que não tomam banho, brutos que roubam o que desejam e não seguem nenhuma lei, a não ser a deles próprios. Dizem que exilou Janos Slynt porque o achou direto e honesto demais para o seu gosto. Dizem que atirou o sábio e gentil Pycelle na masmorra quando se atreveu a levantar a voz contra você. Alguns até dizem que planeja tomar o Trono de Ferro para si.

– Sim, e além de tudo sou um monstro, hediondo e deformado, nunca se esquecça disso – a mão de Tyrion enrolou-se num punho. – Já ouvi o suficiente. Ambos temos trabalho a fazer. Deixe-me.

Talvez o senhor meu pai tivesse razão em me desprezar ao longo de todos esses anos, se isto é o melhor que consigo realizar, Tyrion pensou depois de ficar sozinho. Fitou os restos do jantar, sentindo um incômodo na barriga ao ver o capão frio e gorduroso. Repugnado, afastou-o para longe de si, gritou por Pod, e enviou o rapaz para chamar, correndo, Varys e Bronn. Meus conselheiros de maior confiança são um eunuco e um mercenário, e minha senhora é uma prostituta. O que isso diz de mim?

Bronn queixou-se da escuridão quando chegou, e insistiu em acender a lareira, que já ardia bem quando Varys surgiu.

– Onde esteve? – Tyrion quis saber.

– Tratando de assuntos do rei, meu querido senhor.

– Ah, sim, o rei... Meu sobrinho não é capaz de se sentar numa latrina, quanto mais no Trono de Ferro.

Varys encolheu os ombros:

– Deve-se ensinar o ofício a um aprendiz.

– Metade dos aprendizes da Alameda dos Vapores conseguiriam governar melhor do que esse seu rei – Bronn sentou-se do outro lado da mesa e arrancou uma asa do capão.

Tyrion tinha desenvolvido o hábito de ignorar as frequentes insolências do mercenário, mas naquela noite achava-as vexatórias.

– Não me lembro de lhe dar licença para acabar meu jantar.

– Não parecia estar comendo – Bronn respondeu com a boca cheia de carne. – A cidade passa fome, desperdiçar comida é um crime. Tem vinho?

A seguir vai querer que o sirva, pensou Tyrion sombriamente.

– Você vai longe demais – preveniu-o.

– E você nunca vai longe o suficiente – Bronn atirou, com fúria, o osso da asa. – Já pensou em como a vida seria fácil se o outro tivesse nascido primeiro? – enfiou os dedos no capão e arrancou um pedaço de peito. – O chorão, Tommen. Parece que faria tudo o que lhe dissessem, como um bom rei devia fazer.

Um arrepio desceu pela espinha de Tyrion quando compreendeu o que o mercenário estava sugerindo. Se Tommen fosse rei…

Só havia uma maneira de Tommen se tornar rei. Não, nem podia pensar nisso. Joffrey pertencia ao seu sangue, e era tanto filho de Jaime como de Cersei.

– Podia mandar decapitá-lo por dizer isso – disse a Bronn, mas o mercenário limitou-se a rir.

– Amigos – disse Varys –, discussões de nada nos servem. Peço a ambos, ponham o coração nas mãos.

– O coração de quem? – Tyrion perguntou com amargura. Conseguia pensar em várias hipóteses tentadoras.

Davos

Sor Cortnay Penrose não usava armadura. Montava um garanhão alazão, e seu porta-estandartes, um cinza sarapintado. Por cima deles esvoaçavam o veado coroado de Baratheon e as penas cruzadas de Penrose, brancas em fundo ferrugem. A barba de Sor Cortnay, em forma de pá, era também cor de ferrugem, embora ele tivesse se tornado completamente calvo. Se o tamanho e esplendor do grupo do rei o impressionava, não o demonstrava naquele rosto desgastado.

Aproximaram-se a trote, com muito tinir de cotas de malha e chocalhar de placas de armadura. Até Davos usava cota de malha, embora não pudesse explicar por quê; seus ombros e o lombo doíam devido ao peso pouco habitual. Fazia-o sentir-se oprimido e tolo, e perguntou uma vez mais a si mesmo por que motivo estava ali. Não me cabe questionar as ordens do rei, e, no entanto…

Todos os membros do grupo eram de melhor nascimento e posição mais elevada do que Davos Seaworth, e os grandes senhores cintilavam ao sol da manhã. Aço prateado e relevos de ouro abrilhantavam suas armaduras, e seus elmos de guerra eram ornamentados com uma profusão de plumas de seda, penas e animais heráldicos destramente trabalhados com olhos de pedras preciosas. O próprio Stannis parecia deslocado naquela companhia rica e régia. Tal como Davos, o rei vinha simplesmente vestido de lã e couro fervido, embora o diadema de ouro vermelho que emoldurava suas têmporas lhe emprestasse uma certa grandeza. A luz do sol relampejava nas pontas em forma de chama sempre que ele movia a cabeça.