Aquilo era o mais perto que Davos havia chegado de Sua Graça nos oito dias que se passaram desde que o Betha Negra tinha se juntado ao resto da frota ao largo de Ponta Tempestade. Pedira audiência menos de uma hora depois de ter chegado, mas foi informado de que o rei estava ocupado. Ele estava frequentemente ocupado, soube Davos pelo filho Devan, um dos escudeiros reais. Agora que Stannis Baratheon tinha assumido o poder, os fidalgos zumbiam ao seu redor como moscas em torno de um cadáver. E ele também parece meio cadavérico, anos mais velho do que quando parti de Pedra do Dragão. Devan dizia que nos últimos tempos o rei quase não dormia.
– Desde que Lorde Renly morreu, tem sido perturbado por pesadelos terríveis – o rapaz tinha confidenciado ao pai. – As poções do meistre não lhe afetam. Só a Senhora Melisandre consegue acalmá-lo o suficiente para voltar ao sono.
Será por isso que ela divide agora seu pavilhão?, perguntou-se Davos. Para rezar com ele? Ou será que tem outra maneira de acalmá-lo o suficiente para voltar ao sono? Era uma pergunta indigna, que não se atrevia a fazer, mesmo ao seu próprio filho. Devan era um bom rapaz, mas usava orgulhosamente o coração flamejante no gibão, e o pai vira-o junto às fogueiras ao pôr do sol, implorando ao Senhor da Luz que trouxesse a alvorada. Ele é o escudeiro do rei, disse a si mesmo, era de esperar que adotasse o deus do rei.
Davos quase tinha se esquecido de como as muralhas de Ponta Tempestade se erguiam altas e espessas quando vistas de perto. Rei Stannis parou à sombra delas, a pouco mais de um metro de Sor Cortnay e de seu porta-estandarte.
– Sor – ele disse com rígida cortesia. Mas não fez nenhum movimento para desmontar.
– Senhor – aquilo era menos cortês, mas não inesperado.
– É costume tratar um rei por Vossa Graça – anunciou Lorde Florent. Uma raposa vermelha de ouro projetava o focinho brilhante da sua placa de peito através de um círculo de flores em lápis-lazúli. Muito alto, muito palaciano e muito rico, o Senhor da Fortaleza de Águas Claras tinha sido o primeiro dos vassalos de Renly a declarar apoio a Stannis, e o primeiro a renunciar aos seus antigos deuses e a adotar o Senhor da Luz. Stannis deixara sua rainha em Pedra do Dragão com o tio Axell, mas os homens da rainha eram mais numerosos e poderosos do que nunca, e Alester Florent era o que mais se destacava entre eles.
Sor Cortnay Penrose ignorou-o, preferindo se dirigir a Stannis.
– Esta é uma notável companhia. Os grandes senhores Estermont, Errol e Varner. Sor Jon dos Fossoway da maçã verde e Sor Bryan da vermelha. Lorde Caron e Sor Guyard da Guarda Arco-Íris do Rei Renly… e o poderoso Lorde Alester Florent de Águas Claras, é claro. Aquele é o seu Cavaleiro das Cebolas que vejo lá atrás? É bom vê-lo, Sor Davos. Receio não conhecer a senhora.
– Meu nome é Melisandre, sor – só ela tinha vindo sem outra armadura além de suas soltas vestes vermelhas. Na garganta, o rubi vermelho bebia a luz do dia. – Sirvo ao seu rei e ao Senhor da Luz.
– Desejo-lhe felicidades com eles, senhora – Sor Cortnay respondeu. – Mas curvo-me perante outros deuses e um rei diferente.
– Não há mais do que um rei verdadeiro e um deus verdadeiro – anunciou Lorde Florent.
– Estamos aqui para discutir teologia, senhor? Se soubesse, teria trazido um septão.
– Sabe perfeitamente bem por que motivo estamos aqui – Stannis finalmente falou. – Teve uma quinzena para refletir sobre a minha proposta. Enviou seus corvos. Nenhuma ajuda veio. Nem virá. Ponta Tempestade está sozinha, e já não tenho paciência. Pela última vez, sor, ordeno-lhe que abra os portões, e me entregue o que é legitimamente meu.
– E as condições? – Sor Cortnay quis saber.
– Permanecem as mesmas. Vou perdoá-lo por sua traição, assim como perdoei estes senhores que vê atrás de mim. Os homens de sua guarnição serão livres para entrar ao meu serviço ou para voltar às suas casas sem ser incomodados. Pode conservar suas armas e tanta propriedade quanto um homem for capaz de transportar. No entanto, necessitarei de seus cavalos e animais de carga.
– E quanto a Edric Storm?
– O bastardo do meu irmão deve ser entregue a mim.
– Neste caso, minha resposta continua a ser não, senhor.
O rei apertou o maxilar. E nada disse.
Em seu lugar, foi Melisandre quem falou:
– Que o Senhor da Luz o proteja na escuridão, Sor Cortnay.
– Que os Outros comam o cu do seu Senhor da Luz – cuspiu Penrose de volta –, e limpem-no com esse trapo que você transporta.
Lorde Alester Florent pigarreou:
– Sor Cortnay, tenha tento na língua. Sua Graça não deseja nenhum mal ao rapaz. O garoto é do seu sangue, e também do meu. A mãe foi minha sobrinha Delena, como todos sabem. Se não confia no rei, confie em mim. Conhece-me como um homem de honra…
– Conheço-o como um homem de ambição – Sor Cortnay o interrompeu. – Um homem que troca de reis e de deuses como eu troco de botas. Tal como esses outros vira-casacas que vejo à minha frente.
Um clamor irado ergueu-se entre os homens do rei. Ele não se engana muito, Davos pensou. Pouco tempo antes, os Fossoway, Guyard Morrigen e os Lordes Caron, Varner, Errol e Estermont tinham pertencido a Renly. Tinham se sentado em seu pavilhão, ajudado-o a fazer seus planos de batalha, e planejado o modo de subjugar Stannis. E Lorde Florent estivera com eles… Podia ser tio da Rainha Selyse, mas isso não havia impedido o Senhor de Águas Claras de dobrar o joelho a Renly quando a estrela deste subia.
Bryce Caron fez o cavalo avançar alguns passos, com o longo manto listrado de arco-íris retorcendo-se sob o vento vindo da baía.
– Nenhum homem aqui é um vira-casaca, sor. Minha lealdade pertence a Ponta Tempestade, e Rei Stannis é o seu senhor legítimo… e o nosso verdadeiro rei. É o último da Casa Baratheon, herdeiro de Robert e de Renly.
– Se é assim, por que o Cavaleiro das Flores não está entre vocês? E onde está Matthis Rowan? Randyll Tarly? A Senhora Oakheart? Por que eles não se encontram aqui em sua companhia, aqueles que mais amavam Renly? Onde está Brienne de Tarth, pergunto-lhes?
– Essa? – Sor Guyard Morrigen soltou uma gargalhada dura. – Fugiu. E foi o que lhe valeu. Foi dela a mão que matou o rei.
– Mentira – Sor Cortnay reagiu. – Conheci Brienne quando não passava de uma menina que brincava aos pés do pai no Solar do Entardecer, e conheci-a ainda melhor quando o Estrela da Tarde a mandou para cá, para Ponta Tempestade. Ela amou Renly desde o momento em que pôs os olhos sobre ele, qualquer cego podia ver.
– Com certeza – declarou Lorde Florent com desenvoltura –, e estaria longe de ser a primeira donzela enlouquecida e levada ao assassinato pela rejeição de um homem. Se bem que, a meu ver, creio que quem matou o rei foi a Senhora Stark. Ela tinha vindo de Correrrio para apelar por uma aliança, e Renly recusara. Não há dúvida de que viu nele um perigo para o filho e o removeu.
– Foi Brienne – insistiu Lorde Caron. – Sor Emmon Cuy jurou que assim era antes de morrer. Você tem a minha palavra, Sor Cortnay.
O desprezo engrossou a voz de Sor Cortnay.
– E de que vale isso? Usa seu manto de muitas cores, pelo que vejo. Aquele que Renly lhe deu quando jurou com sua palavra protegê-lo. Se ele está morto, como é que você permanece vivo? – voltou seu desdém para Guyard Morrigen. – Podia perguntar-lhe o mesmo, Sor Guyard, o Verde, não é? Da Guarda Arco-Íris? Que jurou dar a vida pela do rei? Se eu tivesse um manto desses, teria vergonha de usá-lo.