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Morrigen irritou-se:

– Fique feliz por isso ser uma conferência, Penrose, caso contrário arrancaria sua língua por conta dessas palavras.

– E iria atirá-la na mesma fogueira onde deixou seu membro viril?

Basta! – Stannis retrucou. – Foi vontade do Senhor da Luz que meu irmão morresse pela sua traição. Quem cometeu o ato não importa.

– Talvez não importe ao senhor – Sor Cortnay revidou. – Escutei sua proposta, Lorde Stannis. Eis agora a minha – tirou a luva e a acertou em cheio no rosto do rei. – Combate singular. Espada, lança ou qualquer arma que quiser mencionar. Ou, se temer arriscar sua espada mágica e real pele contra um velho, nomeie um campeão, e eu farei o mesmo – deu a Guyard Morrigen e a Bryce Caron um olhar contundente. – Qualquer um desses cachorros servirá muito bem, creio eu.

Sor Guyard Morrigen escureceu de fúria:

– Eu aceito o desafio, se agradar ao rei.

– E eu também – Bryce Caron olhou para Stannis.

O rei rangeu os dentes:

– Não.

Sor Cortnay não pareceu surpreso.

– É da justiça de sua causa que duvida, senhor, ou da força de seu braço? Tem medo que eu mije em sua espada flamejante e a apague?

– Considera-me um completo idiota, sor? – Stannis perguntou. – Tenho vinte mil homens. Está cercado por terra e por mar. Por que escolheria um combate singular quando minha vitória é certa? – o rei apontou-lhe um dedo. – Ofereço-lhe um aviso leal. Se me forçar a tomar meu castelo de assalto, não poderá esperar misericórdia. Vou enforcá-lo por traição, e a cada um dos seus.

– Como os deuses queiram. Traga aí o seu assalto, senhor… e recorde, por obséquio, a história deste castelo – Sor Cortnay deu um puxão nas rédeas e regressou na direção ao portão.

Stannis não proferiu palavra, mas virou o cavalo e dirigiu-se ao seu acampamento. Os outros o seguiram.

– Se assaltarmos estas muralhas, milhares de homens morrerão – inquietou-se o velho Lorde Estermont, avô do rei pelo lado da mãe. – Não seria melhor arriscar uma única vida? Nossa causa é justa, e os deuses certamente abençoariam as armas do nosso campeão com a vitória.

É deus, velho, Davos pensou. Esqueceu-se, agora temos só um, o Senhor da Luz de Melisandre.

Sor Jon Fossoway disse:

– De bom grado aceitaria eu mesmo o desafio dele, ainda que esteja longe de ser um espadachim tão bom quanto Lorde Caron ou Sor Guyard. Renly não deixou cavaleiros hábeis em Ponta Tempestade. O serviço na guarnição é para velhos e rapazes inexperientes.

Lorde Caron concordou:

– Uma vitória fácil, com certeza. E que glória, conquistar Ponta Tempestade com um único golpe!

Stannis varreu-os com um olhar:

– Tagarelam como gralhas, e com menos esperteza. Quero silêncio – os olhos do rei caíram sobre Davos. – Sor. Acompanhe-me – esporeou o cavalo, afastando-o dos demais seguidores. Só Melisandre o acompanhou, transportando o grande estandarte do coração flamejante com o veado coroado no interior. Como se tivesse sido engolido inteiro.

Davos viu os olhares dos fidalgos sobre si enquanto passava por eles para ir se juntar ao rei. Aqueles não eram cavaleiros das cebolas, mas homens orgulhosos com casas cujos nomes carregavam honras antigas. De algum modo soube que Renly nunca os tinha censurado daquela forma. O mais novo dos Baratheon nascera com um dom para a cortesia fácil que infelizmente faltava ao irmão.

Reduziu o passo para um trote lento quando seu cavalo emparelhou-se ao do rei.

– Vossa Graça – visto de perto, Stannis parecia pior do que Davos julgara de longe. Seu rosto tinha se tornado macilento, e possuía círculos escuros sob os olhos.

– Um contrabandista deve ser bom em julgar os homens – disse o rei. – O que pensa desse Sor Cortnay Penrose?

– É um homem teimoso – Davos respondeu com cautela.

– Com fome de morte, diria eu. Jogou meu perdão na minha cara. Sim, e joga a vida fora ao mesmo tempo, com as vidas de todos os homens que estão dentro daquelas muralhas. Combate singular? – o rei soltou uma fungadela de escárnio. – Certamente confundiu-me com Robert.

– É mais provável que estivesse desesperado. Que outra esperança tem?

– Nenhuma. O castelo cairá. Mas, como fazê-lo rapidamente? – Stannis cismou com aquilo por um momento. Sob o ritmado clac-clac dos cascos, Davos conseguia ouvir o tênue som do rei rangendo os dentes. – Lorde Alester insiste para que traga aqui o velho Lorde Penrose. Pai de Sor Cortnay. Conhece o homem, creio?

– Quando vim como seu enviado, Lorde Penrose recebeu-me mais cortesmente do que a maioria. É um homem velho e acabado, senhor. Enfermiço e abatido.

– Florent gostaria de abatê-lo mais visivelmente. À vista do filho, com uma corda em volta do pescoço.

Era perigoso opor-se aos homens da rainha, mas Davos tinha jurado dizer sempre a verdade ao rei.

– Penso que seria ruim fazer isso, meu suserano. Sor Cortnay ficará vendo o pai morrer antes de pensar em trair sua confiança. Nada nos acrescentaria, e traria desonra à nossa causa.

– Que desonra? – Stannis se irritou. – Será que quer que poupe a vida de traidores?

– Poupou a vida daqueles que vêm atrás de nós.

– Censura-me por isso, contrabandista?

– Não cabe a mim fazer tal coisa – Davos temeu ter dito demais.

O rei estava implacável.

– Estima este Penrose mais do que os senhores meus vassalos. Por quê?

– Ele é fiel.

– Uma fidelidade mal dirigida a um usurpador morto.

– Sim. Mas, apesar disso, é fiel.

– E aqueles que vêm atrás de nós, não?

Davos tinha chegado longe demais com Stannis para se acanhar agora.

– No ano passado eram homens de Robert. Há uma lua eram de Renly. Hoje são nossos. De quem serão amanhã?

Stannis riu. Uma súbita gargalhada, rouca e cheia de desdém.

– Eu lhe disse, Melisandre – falou à mulher vermelha. – Meu Cavaleiro das Cebolas diz a verdade para mim.

– Vejo que o conhece bem, Vossa Graça – a mulher vermelha retrucou.

– Davos, senti imensamente a sua falta – o rei disse. – Sim, tenho um séquito de traidores, seu nariz não o engana. Os senhores meus vassalos são inconstantes até em suas traições. Necessito deles, mas deve saber como me enoja perdoar gente assim quando puni homens melhores por crimes menores. Tem todo o direito de me censurar, Sor Davos.

– Censura-se a si mesmo mais do que eu alguma vez seria capaz de fazer, Vossa Graça. Precisa desses grandes senhores para conquistar seu trono…

– Com os dedos e tudo, ao que parece – Stannis deu um sorriso sombrio.

Sem pensar, Davos levou a mão mutilada à bolsa pendurada ao pescoço e sentiu os ossos dos dedos lá dentro. Sorte.

O rei viu o movimento.

– Ainda estão aí, Cavaleiro das Cebolas? Não os perdeu?

– Não.

– Por que motivo os guarda? Questiono-me sobre isso com frequência.

– Lembram-me daquilo que eu era. De onde vim. Lembram-me da sua justiça, meu suserano.

– E foi justiça – Stannis afirmou. – Um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons. Cada um deve ter sua recompensa. Você foi um herói e um contrabandista – olhou de relance para trás, para Lorde Florent e os outros, cavaleiros do arco-íris e vira-casacas, que o seguiam a distância. – Aqueles senhores perdoados fariam bem em refletir sobre isso. Homens bons e leais lutarão por Joffrey, considerando-o erroneamente o legítimo rei. Um nortenho até pode dizer o mesmo de Robb Stark. Mas estes senhores que se reuniram aos estandartes do meu irmão sabiam que ele era um usurpador. Viraram as costas ao seu legítimo rei por nenhum motivo melhor do que sonhos de poder e glória, e eu tomei nota do que eles são. Perdoei-lhes, sim. Estão desculpados. Mas não esqueci – caiu no silêncio por um momento, meditando sobre seus planos de justiça. E então, abruptamente, disse: – O que o povo diz da morte de Renly?