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– Sofre. Seu irmão era muito querido.

– Os tolos amam um tolo, mas eu também sofro por ele. Pelo garoto que foi, não pelo homem que se tornou – o rei ficou em silêncio durante algum tempo, e depois disse: – Como os plebeus receberam a notícia sobre o incesto de Cersei?

– Enquanto estávamos entre eles, gritaram pelo Rei Stannis. Não posso falar do que disseram depois de termos zarpado.

– Então acha que eles não acreditaram?

– Em meus tempos de contrabando, aprendi que alguns homens acreditam em tudo, e outros em nada. Encontramos dos dois tipos. E também há outra história sendo disseminada.

– Sim – Stannis cortou a palavra com uma mordida. – Selyse deu-me chifres e amarrou campainhas de bobo nas pontas deles. Minha filha gerada por um bobo retardado! Uma história tão torpe como absurda. Renly atirou-a na minha cara quando nos encontramos para conferenciar. É preciso ser tão louco como o Cara-Malhada para acreditar em uma coisa dessas.

– Pode ser que sim, meu suserano… Mas, quer acreditem na história, quer não, adoram contá-la – os boatos tinham chegado a muitos lugares antes deles, envenenando o poço para a história verdadeira que transportavam.

– Robert podia encher uma taça de urina e os homens iriam chamá-la de vinho, mas eu lhes ofereço água pura e fresca e olham-na de viés, suspeitosos, enquanto murmuram uns com os outros sobre o estranho sabor que tem – Stannis rangeu os dentes. – Se alguém dissesse que eu tinha me transformado num javali para matar Robert, provavelmente acreditariam nisso também.

– Não pode impedi-los de falar, meu suserano, mas quando levar a vingança aos verdadeiros assassinos de seu irmão, o reino saberá que tais histórias são mentiras.

Stannis só pareceu ouvir metade do que ele disse.

– Não tenho qualquer dúvida de que Cersei teve um dedo na morte de Robert. Obterei justiça por ele. Sim, e por Ned Stark e Jon Arryn também.

– E por Renly? – as palavras saíram antes que Davos conseguisse parar para pesá-las.

Durante um tempo longo o rei não falou. Então, muito baixo, disse:

– Às vezes sonho com isso. Com a morte de Renly. Uma tenda verde, velas, uma mulher gritando. E sangue – Stannis baixou os olhos para as mãos. – Eu ainda estava na cama quando ele morreu. Seu Devan vai lhe contar. Tentou me acordar. A alvorada se aproximava e os meus senhores estavam à espera, preocupados. Devia estar a cavalo, de armadura posta. Sabia que Renly atacaria ao nascer do dia. Devan diz que me sacudi com violência e gritei, mas, que importa? Era um sonho. Estava na minha tenda quando Renly morreu, e quando acordei tinha as mãos limpas.

Sor Davos Seaworth sentiu uma comichão surgindo nas pontas fantasmas de seus dedos. Há algo errado aqui, pensou o antigo contrabandista, mas acenou com a cabeça e disse:

– Estou vendo.

– Renly ofereceu-me um pêssego. Em nossa conferência. Caçoou de mim, desafiou-me, ameaçou-me e me ofereceu um pêssego. Pensei que estivesse puxando uma espada e levei as mãos à minha. Qual era o seu objetivo, fazer com que eu mostrasse medo? Ou seria uma de suas brincadeiras fora de propósito? Quando falou de como o pêssego era doce, teriam suas palavras algum significado oculto? – o rei balançou a cabeça, como um cão que sacudisse um coelho para quebrar seu pescoço. – Só Renly conseguiria me irritar tanto com um pedaço de fruta. Ele condenou-se a si próprio com a traição que cometeu, mas eu gostava dele, Davos. Sei disso agora. Juro, irei para a cova pensando no pêssego do meu irmão.

Nesse momento, já se encontravam no interior do acampamento, avançando por entre as fileiras ordenadas de tendas, as bandeiras enfunadas e as pilhas de escudos e lanças. Um fedor de estrume de cavalo pairava, pesado, no ar, misturado com a fumaça de lenha e o cheiro de carne cozinhando. Stannis parou tempo suficiente para ladrar uma brusca despedida a Lorde Florent e aos outros, ordenando-lhes que estivessem presentes em seu pavilhão dali a uma hora para um conselho de guerra. Os homens inclinaram a cabeça e se dispersaram, enquanto Davos e Melisandre se dirigiam ao pavilhão do rei.

A tenda tinha de ser grande, visto ser ali que os senhores seus vassalos vinham para os conselhos. No entanto, nada havia de grandioso nela. Era de tecido grosseiro, pintado de amarelo-escuro que às vezes passava por dourado. Só a bandeira real que esvoaçava no topo do mastro central a identificava como a tenda de um rei. Isso, e os guardas à porta; homens da rainha apoiados em longas lanças, com o símbolo do coração flamejante cosido sobre os próprios corações.

Cavalariços aproximaram-se para ajudá-los a desmontar. Um dos guardas aliviou Melisandre do pesado estandarte, espetando profundamente o mastro na terra mole. Devan estava de um lado da porta, esperando o momento de levantar a aba para o rei passar. Um escudeiro mais velho aguardava ao seu lado. Stannis tirou a coroa e a entregou a Devan.

– Água fria, taças para dois. Davos, fique ao meu serviço. Senhora, mandarei chamá-la quando necessitar.

– Às ordens do rei – Melisandre fez uma reverência.

Após o brilho da manhã, o interior do pavilhão parecia frio e sombrio. Stannis sentou-se num simples banco de acampar e indicou outro a Davos com um gesto.

– Um dia talvez faça de você um senhor, contrabandista. Nem que seja para atormentar os Celtigar e os Florent. Mas não me agradecerá. Significará que terá de aguentar esses conselhos e fingir interesse no zurrar de mulas.

– Por que motivo os reúne, se não servem a nenhum propósito?

– As mulas adoram o som de seus zurros, por que outro motivo? E eu preciso delas para puxarem minha carroça. Ah, com certeza, muito de vez em quando é sugerida uma ideia útil. Mas não hoje, parece … Ah, eis o seu filho com a nossa água.

Devan apoiou o tabuleiro na mesa e encheu duas taças de barro. O rei borrifou uma pitada de sal na sua antes de beber; Davos tomou a sua água pura, desejando que fosse vinho.

– Falava do seu conselho…

– Permita-me que lhe diga como se desenrolará. Lorde Velaryon insistirá para que eu assalte as muralhas do castelo à primeira luz da aurora, opondo pequenos arpões e escadas a flechas e azeite fervente. As mulas jovens acharão essa ideia magnífica. Estermont preferirá que nos instalemos para vencê-los pela fome, como os Tyrell e os Redwyne um dia tentaram fazer comigo. Isso pode levar um ano, mas as mulas velhas são pacientes. E Lorde Caron e os outros que gostam de escoicear vão querer aceitar o desafio de Sor Cortnay e arriscar tudo num combate singular. Cada um deles imaginando que seria ele o meu campeão e conquistaria uma fama imortal – o rei terminou a água. – O que você me aconselharia a fazer, contrabandista?

Davos pensou por um momento antes de responder.

– Avançar de imediato contra Porto Real.

O rei bufou.

– E deixar Ponta Tempestade sem tomá-la?

– Sor Cortnay não possui poder suficiente para lhe causar dano. Os Lannister sim. Um cerco levaria tempo demais, o combate singular é muito arriscado, e um assalto custaria milhares de vidas sem certeza de sucesso. E não há necessidade. Uma vez Joffrey destronado, esse castelo deve passar para o seu controle com todo o resto. Dizem, no acampamento, que Lorde Tywin Lannister corre para o oeste, a fim de salvar Lanisporto da vingança dos nortenhos…

– Tem um pai bastante esperto, Devan – disse o rei ao rapaz que se encontrava em pé ao seu lado. – Faz com que eu deseje ter mais contrabandistas a meu serviço. E menos senhores. Apesar de se enganar num aspecto, Davos. Existe necessidade. Se deixar Ponta Tempestade por tomar na minha retaguarda, vão dizer que fui derrotado aqui. E isso não posso permitir. Os homens não me adoram como adoraram meus irmãos. Seguem-me porque me temem… e a derrota é a morte para o medo. O castelo tem que cair – sua mandíbula moveu-se de um lado para o outro. – Sim, e depressa. Doran Martell convocou os vassalos e fortificou os passos de montanha. Seus homens de Dorne estão em posição para cair sobre a Marca. E Jardim de Cima está longe de esgotado. Meu irmão deixou a maior parte de seu poderio em Ponteamarga, cerca de seis mil homens a pé. Enviei o irmão da minha esposa, Sor Errol, com Sor Parmen Crane, para colocar essa força sob o meu comando, mas não retornaram. Temo que Sor Loras Tyrell tenha chegado a Ponteamarga antes de meus enviados e tomado essa tropa para si.