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– Mais um motivo para tomar Porto Real tão depressa quanto possível. Salladhor Saan disse…

– Salladhor Saan só pensa em ouro! – Stannis explodiu. – Tem a cabeça cheia de sonhos a respeito do tesouro que imagina haver por baixo da Fortaleza Vermelha, portanto, não falemos mais de Salladhor Saan. O dia em que precisar de aconselhamento militar vindo de um salteador liseno será quando porei de lado minha coroa e passarei a usar o negro – o rei fechou um punho. – Está aqui para me servir, contrabandista? Ou para me aborrecer com discussões?

– Sou seu – Davos respondeu.

– Então escute. O tenente de Sor Cortnay é primo dos Fossoway. Lorde Meadows, um rapaz inexperiente de vinte anos. Se algum azar abater Penrose, o comando de Ponta Tempestade pas-sará para esse jovem, e seus primos creem que ele aceitaria minhas condições e entregaria o castelo.

– Lembro-me de outro jovem a quem foi dado o comando de Ponta Tempestade. Não podia ter muito mais do que vinte anos.

– Lorde Meadows não é tão obstinadamente cabeça-dura como eu era.

– Cabeça-dura ou covarde, que importa? Sor Cortnay Penrose pareceu-me forte e vigoroso.

– Assim como meu irmão era no dia anterior à sua morte. A noite é escura e cheia de terrores, Davos.

Davos Seaworth sentiu os pelos de sua nuca ficarem em pé.

– Senhor, não o entendo.

– Não exijo seu entendimento. Só seu serviço. Sor Cortnay estará morto antes de amanhecer. Melisandre viu nas chamas do futuro. Sua morte, e como ela se deu. Não é necessário dizer que não morrerá num combate de cavaleiro – Stannis estendeu a taça e Devan voltou a enchê-la. – As chamas dela não mentem. Viu também o destino de Renly. Viu-o em Pedra do Dragão, e contou a Selyse. Lorde Velaryon e seu amigo Salladhor Saan queriam que eu avançasse contra Joffrey, mas Melisandre disse-me que, se me dirigisse a Ponta Tempestade, poderia conquistar a maior parte do poderio do meu irmão, e teve razão.

– M-mas – Davos gaguejou –, Lorde Renly só veio até aqui porque o senhor tinha montado cerco ao castelo. Antes marchava contra Porto Real, contra os Lannister, teria…

Stannis mexeu-se no banco, franzindo a sobrancelha.

Marchava, teria, o que é isso? Ele fez o que fez. Veio até aqui com seus estandartes e seus pêssegos, para o seu destino… E foi bom para mim que tenha feito isso. Melisandre também viu outro dia em suas chamas. Um amanhã em que Renly chegava do sul em sua armadura verde para esmagar minha tropa sob as muralhas de Porto Real. Se tivesse encontrado meu irmão lá, podia ter sido eu a morrer em seu lugar.

– Ou podia ter juntado suas forças às dele para derrubar os Lannister – Davos argumentou. – E por que não? Se ela viu dois futuros, bem… não podem ser ambos verdadeiros.

Rei Stannis apontou um dedo para ele:

– É aí que erra, Cavaleiro das Cebolas. Há luzes que lançam mais do que uma sombra. Ponha-se em frente da fogueira da noite e verá por si próprio. As chamas mudam e dançam, nunca estão quietas. As sombras crescem e encolhem, e cada homem lança uma dúzia. Algumas são mais tênues do que outras, é tudo. Pois bem, os homens lançam também as suas sombras sobre o futuro. Uma sombra ou muitas. Melisandre vê todas. Não gosta da mulher. Sei disso, Davos, não sou cego. Meus senhores tampouco simpatizam com ela. Estermont pensa que o coração flamejante foi mal escolhido e pede para lutar sob o veado coroado como antigamente. Sor Guyard diz que uma mulher não devia ser meu porta-estandarte. Outros sussurram que ela não tem lugar em meus conselhos de guerra, que devia mandá-la de volta para Asshai, que é pecaminoso mantê-la em minha tenda durante a noite. Sim, eles sussurram… enquanto ela serve.

– Serve como? – Davos perguntou, temendo a resposta.

– Como é necessário – o rei o encarou. – E você?

– Eu… – Davos lambeu os lábios. – Estou às suas ordens. O que quer que faça?

– Nada que não tenha feito antes. Basta que acoste um barco sob o castelo, sem ser visto, na calada da noite. Pode fazer isso?

– Sim. Esta noite?

O rei confirmou com um brusco meneio.

– Vai precisar de um barco pequeno. O Betha Negra não. Ninguém pode saber o que faz.

Davos quis protestar. Era agora um cavaleiro, não mais um contrabandista, e nunca tinha sido um assassino. Mas, quando abriu a boca, as palavras não quiseram vir. Aquele era Stannis, seu senhor justo, ao qual devia tudo o que era. E também tinha de pensar nos filhos. Que os deuses sejam bons, o que ela lhe fez?

– Está quieto – Stannis observou.

E assim devia ficar, disse Davos a si mesmo, mas falou:

– Meu suserano, tem que tomar o castelo, compreendo isso agora, mas certamente deve haver outras maneiras. Maneiras mais limpas. Deixe que Sor Cortnay fique com o bastardo, e ele provavelmente cederá.

– Eu preciso ter o rapaz, Davos. Preciso ter. Melisandre também viu isso nas chamas.

Davos procurou outra resposta.

– Ponta Tempestade não tem nenhum cavaleiro que seja capaz de se opor a Sor Guyard ou a Lorde Caron, ou a qualquer outro de uma centena de cavaleiros que tem ao seu lado. Esse combate singular… Será possível que Sor Cortnay procure uma maneira de se render com honra? Mesmo que isso signifique sua vida?

Uma expressão perturbada cruzou o rosto do rei como uma nuvem passageira.

– O mais provável é que planeje alguma traição. Não haverá nenhum combate de campeões. Sor Cortnay estava morto antes mesmo de arremessar aquela luva. As chamas não mentem, Davos.

E no entanto precisam de mim para que se tornem verdadeiras, pensou. Há muito tempo Davos Seaworth não se sentia tão triste.

E foi assim que deu por si atravessando mais uma vez a Baía dos Naufrágios na noite cerrada, manobrando um barco minúsculo com uma vela negra. O céu era o mesmo, e o mar também. Havia o mesmo cheiro salgado no ar, e os risinhos da água contra o casco eram tal e qual se lembrava. Mil fogueiras oscilantes ardiam em torno do castelo, tal como as fogueiras que os Tyrell e os Redwyne tinham dezesseis anos antes. Mas todo o resto era diferente.

Da última vez foi vida o que trouxe a Ponta Tempestade, moldada para se parecer com cebolas. Dessa vez é morte, sob a forma de Melisandre de Asshai. Dezesseis anos antes, as velas tinham rangido e batido a cada mudança de vento, até que ele as recolheu e prosseguiu com remos envoltos em panos. Mesmo assim, avançara com o coração na garganta. Mas os homens nas galés Redwyne tinham relaxado depois de tanto tempo, e ele deslizara através da guarda com a suavidade de cetim negro. Daquela vez, os únicos navios à vista pertenciam a Stannis, e o único perigo viria dos vigias nas muralhas do castelo. Mesmo assim, Davos sentia-se tenso como a corda de um arco.

Melisandre aconchegou-se em uma bancada, perdida nas dobras de um manto vermelho-escuro que a cobria da cabeça aos pés, com a face pálida sob o capuz. Davos adorava a água. Dormia melhor quando tinha um convés balançando por baixo do corpo, e o suspiro do vento no cordame era para ele um som mais doce do que qualquer coisa que um cantor conseguisse tirar das cordas de sua harpa. Mas nem mesmo o mar lhe trazia conforto naquela noite.