– A Muralha tem duzentos metros de altura e é tão espessa na base, que seriam necessários cem homens durante um ano para abrir caminho com picaretas e machados.
– Mesmo assim.
Mormont afagou a barba, franzindo a testa:
– Como?
– Como haveria de ser? Feitiçaria – Qhorin arrancou metade do ovo com uma mordida. – Por qual outro motivo Mance teria decidido reunir suas forças nas Presas de Gelo? É um lugar ermo e duro, e é uma longa e cansativa marcha de lá até a Muralha.
– Eu tinha esperança de que ele tivesse escolhido as montanhas para esconder sua reunião dos olhos de meus patrulheiros.
– Talvez – Qhorin respondeu, acabando de comer o ovo. – Mas parece-me que há mais. Ele procura algo nos lugares elevados e frios. Anda atrás de alguma coisa que lhe faz falta.
– Alguma coisa? – o corvo de Mormont ergueu a cabeça e soltou um guincho. O som soou aguçado como uma faca no acanhamento da tenda.
– Algum poder. O que será, nosso prisioneiro não soube nos dizer. Talvez tenha sido interrogado com demasiada intensidade, e morreu deixando muito por contar. De qualquer forma, duvido que soubesse.
Jon conseguia ouvir o vento lá fora. Fazia um som agudo enquanto tremia por entre as pedras da muralha circular e puxava com força as cordas da tenda. Mormont esfregou pensativamente a boca.
– Algum poder – repetiu. – Tenho de saber o que é.
– Então deve enviar batedores para as montanhas.
– Estou relutante em arriscar mais homens.
– Só podemos morrer. Por que motivo vestimos estes mantos negros, se não for para morrer em defesa do reino? Eu enviaria quinze homens, em três grupos de cinco. Um para sondar o Guadeleite, outro ao Passo dos Guinchos, e outro para subir a Escada do Gigante. Jarman Buckell, Thoren Smallwood e eu ao comando. Para investigar o que espera naquelas montanhas.
“Espera”, gritou o corvo. “Espera.”
O Senhor Comandante Mormont soltou um suspiro profundo:
– Não vejo outra escolha – concedeu –, mas se não retornar…
– Alguém descerá das Presas de Gelo, senhor – disse o patrulheiro. – Se formos nós, tudo estará ótimo. Se não, será Mance Rayder, e o senhor está bem no caminho dele. Ele não pode marchar para sul deixando-o para trás, para que o siga e atormente sua retaguarda. Tem de atacar. E este é um lugar forte.
– Não é tão forte assim – Mormont observou.
– Então é possível que morramos todos. Nossa morte irá ganhar tempo para os nossos irmãos na Muralha. Tempo para guarnecer os castelos vazios e congelar os portões, a fim de convocar senhores e reis para virem em seu auxílio, tempo para afiarem os machados e repararem as catapultas. Nossas vidas serão moedas bem gastas.
“Morre”, resmungou o corvo, percorrendo os ombros de Mormont. “Morre, morre, morre, morre.” O Velho Urso ficou sentado, dobrado e silencioso, como se o fardo de falar tivesse se tornado pesado demais para que o suportasse. Mas, por fim, disse:
– Que os deuses me perdoem. Escolha os seus homens.
Qhorin Meia-Mão virou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Jon e prenderam-se neles durante um longo momento.
– Muito bem. Escolho Jon Snow.
Mormont pestanejou:
– Ele é pouco mais do que um rapaz. E, além disso, é meu intendente. Nem sequer é patrulheiro.
– Tollett também pode cuidar do senhor – Qhorin ergueu sua mão mutilada, com apenas dois dedos. – Os deuses antigos ainda são fortes para lá da Muralha. Os deuses dos Primeiros Homens… e dos Stark.
Mormont olhou para Jon:
– Qual é a sua vontade nisto?
– Ir – Jon respondeu de imediato.
O velho deu um sorriso triste:
– Foi o que achei que seria.
A alvorada já tinha rompido quando Jon saiu da tenda ao lado de Qhorin Meia-Mão. O vento rodopiava em volta deles, agitando os mantos negros e fazendo voar da fogueira uma chuva de fagulhas vermelhas.
– Partimos ao meio-dia – disse-lhe o patrulheiro. – É melhor que encontre esse seu lobo.
Tyrion
–A rainha pretende mandar o Príncipe Tommen para longe – estavam ajoelhados, sozinhos, na escuridão calma do septo, rodeados por sombras e velas tremeluzentes, mas mesmo assim Lancel mantinha a voz baixa. – Lorde Gyles irá levá-lo para Rosby e escondê-lo lá, disfarçado de pajem. Planejam escurecer seu cabelo e dizer a todo mundo que é filho de um pequeno cavaleiro.
– Ela tem medo do povo? Ou de mim?
– De ambos – Lancel respondeu.
– Ah... – Tyrion nada soubera daqueles planos. Pela primeira vez, teriam os passarinhos de Varys falhado? Imaginava que até as aranhas tinham de se distrair… ou será que o eunuco estaria jogando um jogo mais profundo e sutil do que imaginara? – Tem os meus agradecimentos, sor.
– Vai me conceder o favor que lhe pedi?
– Talvez – Lancel queria um comando na batalha seguinte. Uma maneira magnífica de morrer antes de acabar de cultivar aquele bigode, mas os jovens cavaleiros sempre se julgavam invencíveis.
Tyrion permaneceu lá depois de o primo ir sorrateiramente embora. No altar do Guerreiro, usou uma vela para acender outra. Proteja meu irmão, seu bastardo sangrento, ele é um dos seus. Acendeu uma segunda vela ao Estranho, esta para si mesmo.
Nessa noite, quando a Fortaleza Vermelha estava escura, Bronn chegou e o encontrou selando uma carta.
– Leve isto a Sor Jacelyn Bywater – o anão derramou cera dourada e quente sobre o pergaminho.
– O que é que diz? – Bronn não sabia ler, por isso fazia perguntas impertinentes.
– Diz para ele levar cinquenta de seus melhores espadachins e bater a estrada das rosas – Tyrion pressionou seu selo contra a cera mole.
– É mais provável que Stannis chegue pela estrada do rei.
– Ah, eu sei. Diga a Bywater para desconsiderar o que a carta diz e levar seus homens para o norte. Deverá montar uma armadilha na estrada de Rosby. Lorde Gyles vai partir para o seu castelo dentro de um ou dois dias, com uma dúzia de homens de armas, alguns criados e meu sobrinho. Príncipe Tommen pode estar vestido de pajem.
– Quer o garoto trazido de volta, é isso?
– Não. Quero que o levem para o castelo – Tyrion chegou à conclusão de que tirar o rapaz da cidade havia sido uma das melhores ideias da irmã. Em Rosby, Tommen estaria a salvo do povo, e mantê-lo afastado do irmão também tornava as coisas mais difíceis para Stannis; mesmo se tomasse Porto Real e executasse Joffrey, ainda teria um pretendente Lannister com quem lutar. – Lorde Gyles é doente demais para fugir, e covarde demais para lutar. Ele ordenará ao castelão que abra os portões. Uma vez dentro do castelo, Bywater deverá expulsar a guarnição e manter Tommen a salvo lá dentro. Pergunte-lhe como soa Lorde Bywater.
– Lorde Bronn soaria melhor. Eu podia apanhar o garoto tão bem como ele. Embalaria-o no joelho e lhe cantaria canções de ninar se nisso estivesse envolvido um título.
– Preciso de você aqui – Tyrion respondeu. E não confio em você com meu sobrinho. Se algo acontecesse a Joffrey, a pretensão Lannister ao Trono de Ferro cairia sobre os jovens ombros de Tommen. Os homens de manto dourado de Sor Jacelyn defenderiam o garoto; os mercenários de Bronn eram mais capazes de vendê-lo aos seus inimigos.
– O que deve o novo senhor fazer com o antigo?
– O que bem entender, desde que se lembre de alimentá-lo. Não o quero morrendo – Tyrion afastou-se da mesa. – Minha irmã enviará um membro da Guarda Real com o príncipe.
Bronn não se mostrou preocupado.
– Cão de Caça é cão de Joffrey, não o abandonará. Os mantos dourados do Mão de Ferro devem ser capazes de lidar com os outros com bastante facilidade.
– Se as coisas chegarem ao ponto de matar, diga a Sor Jacelyn que não quero isso feito na frente de Tommen – Tyrion pôs um pesado manto de lã marrom-escura. – Meu sobrinho tem bom coração.