– Tem certeza de que é um Lannister?
– Não tenho certeza de nada, além do Inverno e da batalha. Venha. Vou com você até uma parte do caminho.
– Chataya?
– Conhece-me bem demais.
Saíram por uma porta falsa na muralha norte. Tyrion encostou os calcanhares no cavalo e desceu ruidosamente a Alameda da Sombra Negra. Alguns vultos furtivos precipitaram-se para vielas ao ouvir os cascos nas pedras do pavimento, mas ninguém se atreveu a abordá-los. O conselho tinha estendido o toque de recolher; ser pego nas ruas depois do toque do anoitecer significava a morte. A medida restaurara certa paz em Porto Real e diminuíra para um quarto o número de cadáveres encontrados nas vielas de manhã, mas Varys dizia que as pessoas o amaldiçoavam por isso. Deviam se sentir agradecidas por terem vida para poder lançar maldições. Um par de homens de manto dourado confrontou-os na Ruela dos Caldeireiros, mas quando compreenderam quem tinham intimado, pediram perdão à Mão e mandaram-nos seguir com um gesto. Bronn virou para sul em direção ao Portão da Lama e os dois se separaram.
Tyrion prosseguiu na direção da casa de Chataya, mas de repente a resignação o abandonou. Virou-se na sela, perscrutando a rua atrás de si. Não havia sinal de perseguidores. Todas as janelas estavam escuras ou com as venezianas bem fechadas. Nada ouviu além do vento que passava pelas vielas. Se Cersei tiver alguém me seguindo hoje, deve estar disfarçado de ratazana.
– Que se dane tudo isso – resmungou. Estava farto de cuidados. Obrigando o cavalo a se virar, esporeou-o com força. Se alguém vier atrás de mim, vamos ver se monta bem. Voou pelas ruas iluminadas pelo luar, estrondeando sobre o pavimento, precipitando-se por vielas estreitas e ruelas sinuosas, correndo para o seu amor.
Ao bater com força no portão, ouviu a música que pairava, tênue, sobre os espigões que coroavam os muros de pedra. Um dos ibbeneses o conduziu pela propriedade.
– Quem é aquele? – as vidraças em forma de diamante das janelas do salão brilhavam com a luz amarela, e Tyrion ouvia um homem cantando.
O ibbenês encolheu os ombros.
– Cantor barrigudo.
O som foi se intensificando à medida que Tyrion se afastava do estábulo onde deixara o cavalo e se aproximava da casa. Nunca gostara de cantores, e, mesmo antes de vê-lo, gostava daquele ainda menos do que da raça como um todo. Quando empurrou a porta, o homem interrompeu-se.
– Senhor Mão – ajoelhou, mostrando a careca incipiente e a barriga de tacho, murmurando: – Uma honra, uma honra.
– Senhor – Shae sorriu ao vê-lo. Gostava daquele sorriso, e da forma rápida e irrefletida com que vinha ao seu lindo rosto. A garota usava o roupão de seda roxa, preso com um cinturão de fio de prata. As cores favoreciam seu cabelo escuro e a cor creme da pele lisa.
– Querida – disse-lhe. – E quem é este?
O cantor levantou os olhos.
– Chamam-me de Symon Língua de Prata, senhor. Ator, cantor, contador de histórias…
– E um grande idiota – Tyrion terminou. – Como foi que me chamou, quando entrei?
– Chamar? Eu só… – a prata na língua de Symon parecia ter se transformado em chumbo. – Senhor Mão, eu disse, uma honra…
– Um homem mais sensato teria fingido não me reconhecer. Não que eu tivesse me deixado enganar, mas você devia ter tentado. Que vou fazer agora com você? Sabe da minha querida Shae, sabe onde ela mora, sabe que a visito à noite sozinho.
– Juro, não direi a ninguém…
– Pelo menos nisso concordamos. Boa noite – Tyrion subiu as escadas com Shae.
– Meu cantor pode agora nunca mais cantar – ela brincou. – Tirou a voz dele com o susto.
– Um pouco de medo pode ajudá-lo a atingir aquelas notas agudas.
Ela fechou a porta do quarto.
– Não vai lhe fazer mal, não é? – Shae acendeu uma vela perfumada e ajoelhou-se para tirar suas botas. – Suas canções alegram-me nas noites em que você não vem.
– Bem que gostaria de poder vir todas as noites – ele disse enquanto ela esfregava seus pés nus. – Ele canta bem?
– Melhor do que alguns. Não tão bem quanto outros.
Tyrion abriu seu roupão e enterrou o rosto entre seus seios. Ela sempre cheirava limpa, mesmo naquela pocilga fedorenta de cidade.
– Fique com ele, se quiser, mas mantenha-o por perto. Não o quero vagueando pela cidade e espalhando histórias pelas casas de pasto.
– Ele não… – ela começou.
Tyrion cobriu sua boca com um beijo. Estava farto de conversas; precisava da doce simplicidade do prazer que encontrava entre as coxas de Shae. Ali, pelo menos, era bem-vindo, desejado.
Mais tarde, puxou o braço de debaixo da cabeça dela, enfiou-se na túnica e desceu ao jardim. Uma meia-lua prateava as folhas das árvores frutíferas e brilhava na superfície da piscina para banhos esculpida em pedra. Tyrion sentou-se junto à água. Em algum lugar, à sua direita, um grilo cantava, um som curiosamente acolhedor. Este lugar é pacífico, pensou, mas, por quanto tempo?
Uma lufada de alguma coisa malcheirosa fez Tyrion virar a cabeça. Shae estava à porta, por trás dele, vestida com o roupão prateado que lhe dera. Amei uma donzela branca como o Inverno, com o luar nos cabelos. Atrás dela encontrava-se um dos irmãos mendicantes, um homem corpulento com trajes imundos e remendados, os pés descalços cobertos com uma crosta de sujeira e uma tigela pendurada por uma correia de couro que trazia ao pescoço, na posição em que um septão usaria um cristal. O cheiro que exalava teria dado náuseas a uma ratazana.
– Lorde Varys veio vê-lo – Shae anunciou.
O irmão mendicante a olhou, piscando os olhos, espantado. Tyrion soltou uma gargalhada.
– Com certeza. Como foi que o reconheceu e eu não?
Shae encolheu os ombros.
– É ele mesmo assim. Só que vestido de outra forma.
– Um visual diferente, um cheiro diferente, uma maneira diferente de caminhar – Tyrion observou. – A maior parte dos homens se enganaria.
– E a maior parte das mulheres também, provavelmente. Mas não as prostitutas. Uma prostituta aprende a ver o homem, não seu traje, caso contrário acaba morta numa viela.
Varys fez uma expressão de dor, que não era devida às falsas feridas que tinha nos pés. Tyrion soltou um risinho.
– Shae, traga-nos um pouco de vinho? – podia precisar de uma bebida. O que quer que tivesse trazido o eunuco ali na calada da noite não devia ser boa coisa.
– Quase temo contar o motivo por que vim, senhor – Varys disse, quando Shae saiu. – Trago notícias terríveis.
– Devia se vestir de penas negras, Varys, é de tão mau agouro como um corvo – desajeitadamente, Tyrion ficou de pé, meio receoso de fazer a pergunta seguinte. – É Jaime? – se lhe fizeram mal, nada os salvará.
– Não, senhor. É outro assunto. Sor Cortnay Penrose está morto. Ponta Tempestade abriu os portões a Stannis Baratheon.
A consternação varreu todos os outros pensamentos da mente de Tyrion. Quando Shae retornou com o vinho, ele bebeu um gole e arremessou a taça contra a parede da casa, fazendo-a explodir. Shae levantou uma mão para se proteger dos cacos enquanto o vinho escorria pelas pedras em longos dedos, negros à luz do luar.
– Maldito seja! – Tyrion esbravejou.
Varys sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes podres.
– Quem, senhor? Sor Cortnay ou Lorde Stannis?
– Os dois – Ponta Tempestade era forte, devia ter sido capaz de resistir durante meio ano ou mais… Tempo suficiente para seu pai acabar com Robb Stark. – Como foi que isso aconteceu?
Varys olhou de relance para Shae.
– Senhor, temos de perturbar o sono de sua doce senhora com uma conversa tão sombria e sangrenta?