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Seu cotovelo cicatrizado latejava, rangendo sempre que o cavalo punha um casco no chão. Às vezes, quase conseguia imaginar que ouvia os ossos roçando um no outro lá dentro. Talvez devesse consultar um meistre, obter alguma poção para as dores… Mas, desde que Pycelle tinha revelado o que era, Tyrion desconfiava dos meistres. Só os deuses sabiam com quem andariam conspirando, ou o que teriam misturado naquelas poções que ministravam.

– Varys. Tenho de trazer Shae para o castelo sem que Cersei perceba – fez um esboço rápido de seu plano envolvendo as cozinhas.

Quando terminou, o eunuco soltou um pequeno cacarejo:

– Farei o que o senhor ordenar, naturalmente… Mas devo preveni-lo de que as cozinhas estão cheias de olhos e ouvidos. Mesmo se a garota não cair sob nenhuma suspeita propriamente dita, será alvo de mil perguntas. Onde nasceu? Quem eram seus pais? Como veio para Porto Real? A verdade não servirá, então ela terá de mentir… e mentir, e mentir – olhou de relance para Tyrion. – E uma jovem moça de cozinha tão bonita instigará tanto desejo como curiosidade. Será tocada, beliscada, acariciada e levará tapinhas. Ajudantes de cozinha vão se enfiar sob as suas mantas de noite. Algum cozinheiro solitário pode tentar se casar com ela. Padeiros vão amassar seus seios com mãos cheias de farinha.

– Prefiro que ela seja acariciada a que seja apunhalada – Tyrion respondeu.

Varys avançou mais alguns passos, e disse:

– Pode haver outra maneira. Acontece que a aia que serve a filha da Senhora Tanda tem andado surrupiando suas joias. Se eu informasse a Senhora Tanda disso, ela seria forçada a despedir imediatamente a moça. E a filha precisaria de uma nova aia.

– Entendo – Tyrion compreendeu de imediato que aquilo abria possibilidades. Uma criada de quarto de uma senhora usava roupas melhores do que uma ajudante de cozinha, e frequentemente até exibia uma ou duas joias. Shae devia ficar contente com isso. E Cersei achava a Senhora Tanda entediante e histérica, e Lollys, uma bovina imbecil. Não era provável que lhes fizesse visitas de cortesia.

– Lollys é tímida e confia nas pessoas – Varys acrescentou. – Acreditará em qualquer história que lhe seja contada. Desde que sua virgindade foi roubada pelos populares, ela tem medo de sair de seus aposentos, portanto, Shae permanecerá fora de vista… mas convenientemente próxima, caso você tenha necessidade de consolo.

– Sabe tão bem como eu que a Torre da Mão está vigiada. Cersei certamente ficaria curiosa se a aia de Lollys começasse a me visitar.

– Eu talvez consiga introduzir a moça em seu quarto sem ser vista. A casa de Chataya não é a única a ter uma porta escondida.

– Um acesso secreto? Aos meus aposentos? – Tyrion sentia-se mais aborrecido do que surpreso. Por que motivo teria Maegor, o Cruel, ordenado a morte de todos os construtores que tinham trabalhado em seu castelo, se não fosse para proteger tais segredos? – Sim, suponho que teria de existir. Onde posso encontrar a porta? No aposento privado? No quarto de dormir?

– Meu amigo, não quer me obrigar a revelar todos os meus pequenos segredos, não é?

– De hoje em diante, pense neles como os nossos pequenos segredos, Varys – Tyrion olhou de soslaio o eunuco em seu fedido traje de saltimbanco. – Partindo do princípio de que você está do meu lado…

– Consegue duvidar disso?

– Ora, não, confio tacitamente em você – uma gargalhada amarga ecoou das janelas fechadas. – Na verdade, confio em você como se fosse do meu sangue. Agora conte-me como morreu Cortnay Penrose.

– Dizem que se atirou de uma torre.

– Que se atirou? Não, não vou acreditar nisso.

– Os guardas não viram ninguém entrando em seus aposentos, nem encontraram ninguém lá dentro depois da queda.

– Então o assassino entrou mais cedo e se escondeu debaixo da cama – sugeriu Tyrion. – Ou desceu do telhado por uma corda. Talvez os guardas estejam mentindo. Quem poderá dizer que não cometeram eles mesmos o ato?

– Sem dúvida, tem razão, senhor.

O tom cheio de si do eunuco dizia outra coisa.

– Mas você tem outra opinião? Como teria acontecido então?

Durante um longo momento Varys nada disse. O único som que se ouvia era o solene clac que os cascos faziam no pavimento. Por fim, o eunuco pigarreou:

– Senhor, acredita nos antigos poderes?

– Fala de magia? – Tyrion perguntou com impaciência, fungando. – Feitiços de sangue, maldições, metamorfismo, esse tipo de coisa? Quer sugerir que Sor Cortnay foi enfeitiçado até a morte?

– Sor Cortnay tinha desafiado Lorde Stannis para um combate singular na manhã do dia em que morreu. Pergunto: será este o ato de um homem perdido em desespero? Depois, há a questão do assassinato misterioso e muito fortuito de Lorde Renly, precisamente no momento em que suas linhas de batalha estavam se formando para varrer o irmão do campo – o eunuco fez uma pausa momentânea. – Senhor, uma vez perguntou-me de que modo fui cortado.

– Lembro-me disso. Não quis falar do assunto.

– E continuo a não querer, mas… – aquela pausa foi mais longa do que a anterior, e quando Varys voltou a falar sua voz estava de algum modo diferente. – Era um órfão, aprendiz numa trupe errante. Nosso mestre possuía um barco pesqueiro pequeno e largo, e viajávamos de um lado para o outro ao longo do mar estreito, atuando em todas as Cidades Livres e, de tempos em tempos, em Vilavelha e Porto Real. Um dia, em Myr, um certo homem foi ao nosso espetáculo. Quando terminou, fez uma oferta por mim que meu mestre achou tentadora demais para recusar. Fiquei aterrorizado. Temi que o homem pretendesse me usar como ouvira dizer que os homens usavam garotinhos, mas, na verdade, a única parte de mim que ele queria era meu órgão viril. Deu-me uma poção que me deixou incapaz de me movimentar ou de falar, mas nada fez para adormecer meus sentidos. Com uma longa lâmina em forma de gancho cortou-me raiz e caule, sem parar de entoar cânticos. Vi-o queimar meus órgãos masculinos num braseiro. As chamas ficaram azuis, e ouvi uma voz responder ao seu chamado, embora não compreendesse as palavras que foram ditas. Quando ele acabou de fazer o que queria comigo, os pantomimeiros tinham zarpado. Depois de servir aos seus propósitos, o homem já não tinha interesse em mim, e botou-me na rua. Quando lhe perguntei o que devia fazer então, ele respondeu que achava que devia morrer. Para contrariá-lo, decidi viver. Mendiguei, roubei e vendi as partes do corpo que ainda me restavam. Em pouco tempo tornei-me um ladrão tão bom como qualquer outro de Myr, e quando cresci aprendi que muitas vezes o conteúdo das cartas de um homem é mais valioso do que o conteúdo de sua bolsa. Mas ainda sonho com aquela noite, senhor. Não com o feiticeiro, nem com a lâmina, nem mesmo com o modo como meu membro viril contraiu-se enquanto ardia. Sonho com a voz. A voz saída das chamas. Seria um deus, um demônio, um truque qualquer de ilusionista? Não sei lhe dizer, e olhe que conheço todos os truques. Tudo o que sei com toda certeza é que o homem chamou a coisa, e ela respondeu, e desde esse dia odiei a magia e todos aqueles que a praticam. Se Lorde Stannis for um desses homens, desejo vê-lo morto.

Quando terminou de falar, cavalgaram em silêncio durante algum tempo. Por fim, Tyrion disse: