– Uma história pungente. Lamento.
O eunuco suspirou.
– Lamenta, mas não acredita em mim. Não, senhor, não é necessário pedir perdão. Eu estava drogado e com dores, e tudo se passou há muito tempo e num lugar distante, do outro lado do mar. Sem dúvida que sonhei aquela voz. Disse isso a mim mesmo mil vezes.
– Eu acredito em espadas de aço, moedas de ouro e na inteligência dos homens – Tyrion respondeu. – E acredito que um dia existiram dragões. Afinal de contas, vi seus crânios.
– Esperemos que essa seja a pior coisa que veja, senhor.
– Nisso concordamos – Tyrion sorriu. – E quanto à morte de Sor Cortnay, bem, sabemos que Stannis contratou mercenários das Cidades Livres. Talvez também tenha comprado um assassino habilidoso.
– Um assassino muito habilidoso.
– Há homens assim. Costumava sonhar que um dia seria suficientemente rico para enviar um Homem Sem Rosto contra minha querida irmã.
– Independentemente do modo como Sor Cortnay morreu, está morto, e o castelo caiu. Stannis está livre para marchar.
– Temos alguma chance de convencer os homens de Dorne a cair sobre a Marca?
– Nenhuma.
– É uma pena. Bem, a ameaça pode pelo menos servir para manter os senhores da Marca perto de seus castelos. Que novidades há de meu pai?
– Se Lorde Tywin conseguiu atravessar o Ramo Vermelho, nenhuma notícia nesse sentido me chegou ainda. Se não se apressar, pode ficar encurralado entre os inimigos. A folha dos Oakheart e a árvore dos Rowan foram vistas a norte do Vago.
– Não há notícias de Mindinho?
– Talvez não tenha chegado a Ponteamarga. Ou talvez tenha morrido lá. Lorde Tarly tornou-se senhor das reservas de Renly e passou muitos pela espada; em especial gente dos Florent. Lorde Caswell trancou-se em seu castelo.
Tyrion atirou a cabeça para trás e estourou em gargalhadas.
Varys puxou as rédeas do cavalo, perplexo.
– Senhor?
– Não vê a piada, Lorde Varys? – Tyrion indicou com um gesto de mão as janelas trancadas, toda a cidade adormecida. – Ponta Tempestade caiu e Stannis vem a caminho com fogo e aço, e só os deuses sabem que escuros poderes, e o bom povo não tem Jaime para protegê-lo, nem Robert, nem Renly, nem Rhaegar, nem seu precioso Cavaleiro das Flores. Só têm a mim, aquele que odeiam – voltou a rir. – O anão, o maligno conselheiro, o pequeno demônio simiesco e deformado. Sou tudo o que têm entre eles e o caos.
Catelyn
–Diga ao pai que parti para deixá-lo orgulhoso.
O irmão saltou para a sela, senhor da cabeça aos pés, em sua brilhante cota de malha e manto solto em cores de lama e água. Uma truta prateada ornamentava seu elmo, gêmea da que levava pintada no escudo.
– Ele sempre se orgulhou de você, Edmure. E ama-o ferozmente. Acredite nisso.
– Pretendo dar-lhe mais motivos para isso do que meu mero nascimento – fez o cavalo de guerra dar meia-volta e ergueu uma mão. Soaram trombetas, um tambor começou a ressoar, a ponte levadiça desceu aos trancos, e Sor Edmure Tully levou seus homens para fora de Correrrio com lanças erguidas e estandartes ao vento.
Tenho uma hoste maior do que a sua, irmão, pensou Catelyn enquanto os via partir. Uma hoste de dúvidas e medos.
Ao seu lado, a infelicidade de Brienne era quase palpável. Catelyn mandara costurar trajes para as suas medidas, belos vestidos adequados ao seu nascimento e sexo, mas ela ainda preferia vestir peças avulsas de cota de malha e couro fervido, com um cinto de espada cingido à cintura. Teria se sentido mais feliz partindo para a guerra com Edmure, sem dúvida, mas mesmo muralhas tão fortes como as de Correrrio necessitavam de espadas para defendê-las. O irmão tinha levado todos os homens capazes para os vaus, deixando Sor Desmond Grell no comando de uma guarnição composta por feridos, velhos e doentes, juntamente com alguns escudeiros e outros tantos filhos de camponeses não treinados, ainda longe da idade viril. E isso para defender um castelo atulhado de mulheres e crianças.
Quando o último dos homens de Edmure passou arrastando os pés sob a ponte levadiça, Brienne perguntou:
– Que faremos agora, senhora?
– O nosso dever – o rosto de Catelyn estava tenso quando começou a atravessar o pátio. Sempre cumpri meu dever, pensou. Talvez fosse por isso que o senhor seu pai sempre lhe dera mais carinho do que aos outros filhos. Os dois irmãos mais velhos tinham morrido na infância, e ela havia sido filho e filha para Lorde Hoster até Edmure nascer. Então, a mãe morrera e o pai dissera-lhe que teria de passar a ser a senhora de Correrrio, e Catelyn também tinha feito isso. E quando Lorde Hoster a prometera a Brandon Stark, ela lhe agradeceu por lhe ter arranjado um casamento tão magnífico.
Dei a Brandon meu favor para que o usasse, e nunca confortei Petyr depois de ter sido ferido, nem lhe disse adeus quando meu pai o mandou embora. E quando Brandon foi assassinado e meu pai me disse que devia casar com o irmão dele, fiz isso de boa vontade, embora nunca tivesse visto Ned até o dia do nosso casamento. Entreguei minha virgindade a esse solene estranho, e o mandei para a sua guerra, o seu rei e a mulher que lhe deu o seu bastardo, porque sempre cumpri meu dever.
Os pés levaram-na para o septo, um templo de arenito com sete lados, construído no interior dos jardins de sua mãe, cheio de arcos-íris coloridos. Estava lotado quando entrou; Catelyn não estava só em sua necessidade de rezar. Ajoelhou perante a imagem de mármore pintado do Guerreiro e acendeu uma vela perfumada por Edmure e outra por Robb, que estava bem para lá dos montes. Mantenha-os a salvo e ajude-os a chegar à vitória, orou, e traga paz às almas dos mortos e conforto aos que deixam para trás.
O septão entrou com seu incensório de cristal enquanto Catelyn rezava, então ela ficou para a celebração. Não conhecia aquele septão, um jovem zeloso com idade próxima à de Edmure. Desempenhava seu cargo bastante bem, e quando cantava os louvores aos Sete exibia uma voz rica e agradável, mas Catelyn deu por si ansiando pelo tom frágil e trêmulo do Septão Osmynd, morto havia muito tempo. Osmynd teria escutado pacientemente a história do que ela tinha visto e sentido no pavilhão de Renly, e também poderia ter sabido o que aquilo significara, e o que ela tinha de fazer para enterrar as sombras que assombravam seus sonhos. Osmynd, meu pai, tio Brynden, o velho Meistre Kym, sempre pareceram saber tudo, mas agora estou só, e parece que não sei nada, nem sequer qual é o meu dever. Como posso cumprir meu dever se não sei qual é ele?
Os joelhos de Catelyn estavam duros quando se levantou, embora não se sentisse mais sábia. Talvez fosse ao bosque sagrado à noite, e rezasse também aos deuses de Ned. Eram mais velhos do que os Sete.
Lá fora, se deparou com uma canção de um tipo diferente. Rymund, o Rimante, estava sentado junto à cervejaria no centro de uma roda de ouvintes, fazendo ressoar a voz profunda enquanto cantava sobre Lorde Deremond no Prado Sangrento.
Brienne parou para ouvir por um momento, com os largos ombros curvados e os grossos braços cruzados sobre o peito. Um bando de garotos esfarrapados passou correndo, berrando e batendo uns nos outros com paus. Por que os garotos gostam tanto de brincar de guerra? Catelyn perguntou a si mesma se Rymund seria a resposta. A voz do cantor cresceu ao aproximar-se do fim da canção.