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Sor Cleos ficou observando-a.

– Eu não sei nada de nenhuma…

– Você não sabe nada – concordou Catelyn, saindo majestosamente da cela. Brienne pôs-se ao seu lado, silenciosa. Para ela é mais simples, pensou, com uma ferroada de inveja. Nisso, era como um homem. Para os homens, a resposta era sempre a mesma, e nunca estava mais longe do que a espada mais próxima. Para uma mulher, uma mãe, o caminho era mais pedregoso e difícil de desvendar.

Fez um jantar tardio no Grande Salão com a guarnição, a fim de lhes dar o encorajamento que fosse possível. Rymund, o Rimante, cantou ao longo de toda a refeição, poupando-lhe a necessidade de falar. Fechou com a canção que tinha escrito sobre a vitória de Robb em Cruzaboi. “E as estrelas da noite eram os olhos de seus lobos, e o próprio vento era a sua canção.” Entre os versos, Rymund jogava a cabeça para trás e uivava, e, no final, metade do salão uivava com ele, até Desmond Grell, que tinha bebido uns bons copos. As vozes ressoaram nas vigas.

Que tenham as suas cantigas, se isso lhes dá coragem, pensou Catelyn, brincando com o cálice de prata.

– Havia sempre um cantor no Solar do Entardecer quando eu era menina – disse Brienne em voz baixa. – Aprendi todas as canções de cor.

– Sansa fez o mesmo, embora poucos cantores decidissem fazer a longa viagem para o norte até Winterfell – mas eu lhe disse que haveria cantores na corte real. Disse-lhe que poderia ouvir música de todos os tipos, que seu pai encontraria algum mestre que a ensinasse a tocar harpa. Ah, deuses, perdoem-me…

Brienne voltou a falar:

– Lembro-me de uma mulher… tinha vindo de um lugar qualquer do lado de lá do mar estreito. Nem sequer sei dizer em que língua cantou, mas sua voz era tão adorável quanto ela. Tinha olhos cor de ameixa e uma cintura tão fina que meu pai conseguia rodeá-la com as mãos. As mãos dele eram quase tão grandes quanto as minhas – fechou os seus dedos longos e grossos, como que para escondê-los.

– Você cantava para o seu pai? – Catelyn quis saber.

Brienne balançou a cabeça, de olhos fixos no tabuleiro como que para encontrar alguma resposta no molho da carne.

– Para Lorde Renly?

A moça corou:

– Nunca, eu… o bobo dele às vezes fazia brincadeiras cruéis, e eu…

– Um dia tem de cantar para mim.

– Eu… por favor, não tenho o dom – Brienne afastou-se da mesa. – Perdoe-me, senhora. Tenho sua autorização para ir embora?

Catelyn anuiu com a cabeça. A alta e deselegante garota deixou o salão com grandes passos, quase sem ser notada por entre os festejos. Que os deuses a acompanhem, pensou, voltando-se indiferentemente ao jantar.

Foi três dias depois que o golpe de martelo que Brienne tinha previsto caiu, e passaram-se cinco dias antes de ouvirem falar dele. Catelyn estava sentada com o pai quando o mensageiro de Edmure chegou. A armadura do homem estava amassada, suas botas, poeirentas, e tinha um buraco irregular na capa, mas a expressão que trazia no rosto quando se ajoelhou foi o suficiente para lhe dizer que as notícias eram boas.

– Vitória, senhora – entregou-lhe a carta de Edmure. A mão de Catelyn tremia enquanto quebrava o selo.

Lorde Tywin tentara forçar a travessia numa dúzia de vaus diferentes, escrevia o irmão, mas todas as arremetidas tinham sido repelidas. Lorde Lefford tinha sido afogado, o cavaleiro Crakehall, conhecido como Javali Forte, capturado, Sor Addam Marbrand, três vezes forçado a recuar… Mas a batalha mais feroz fora travada no Moinho de Pedra, onde Sor Gregor Clegane liderara o assalto. Tantos de seus homens tinham caído que seus cavalos mortos ameaçaram represar o rio. No fim, a Montanha e um punhado de seus melhores homens conseguiram atingir a margem ocidental, mas Edmure atirara a reserva contra eles, e tinham se quebrado e recuado, ensanguentados e derrotados. O próprio Sor Gregor perdera o cavalo e se retirara cambaleando através do Ramo Vermelho, sangrando de uma dúzia de ferimentos, enquanto uma chuva de flechas e pedras caía ao seu redor. “Eles não atravessarão, Cat”, rabiscara Edmure, “Lorde Tywin marcha para sudeste. Talvez seja uma simulação, ou uma retirada completa, não importa. Eles não atravessarão.”

Sor Desmond Grell ficou extasiado:

– Ah, se eu estivesse com ele – disse o velho cavaleiro quando ela lhe leu a carta. – Onde está aquele palerma do Rymund? Há nisto uma canção, pelos deuses, e uma canção que até Edmure vai querer ouvir. O moinho que moeu a montanha, quase podia compor eu mesmo os versos, se possuísse o dom do cantor.

– Não quero ouvir canções até que a luta termine – disse Catelyn, talvez de forma demasiado ríspida. Mas permitiu que Sor Desmond espalhasse a notícia, e concordou quando ele sugeriu abrir alguns barris em honra do Moinho de Pedra. O estado de espírito em Correrrio tinha andado tenso e tristonho; ficariam todos melhor com um pouco de bebida e esperança.

Nessa noite, o castelo ressoou com o ruído dos festejos. “Correrrio!”, gritavam os plebeus, e “Tully! Tully!”. Tinham chegado assustados e impotentes, e seu irmão os acolhera em circunstâncias em que a maior parte dos senhores teria trancado os portões. Suas vozes entravam pelas altas janelas e esgueiravam-se sob as pesadas portas de pau-brasil. Rymond tocou sua harpa, acompanhado por um par de percussionistas e um jovem com um conjunto de flautas de bambu. Catelyn ouviu risos de meninas, e a excitada tagarelice dos garotos inexperientes que o irmão lhe deixara fazendo as vezes de guarnição. Sons bons… e, no entanto, não a tocaram. Não conseguia partilhar a felicidade deles.

No aposento privado do pai encontrou um pesado livro de mapas encadernado em couro, e o abriu nas terras fluviais. Seus olhos encontraram o trajeto do Ramo Vermelho e seguiram-no à luz tremeluzente de uma vela. Marchando para sudeste, pensou. Àquela altura, teriam sem dúvida atingido a nascente da Torrente da Água Negra, concluiu.

Fechou o livro ainda mais intranquila do que antes. Os deuses tinham lhes dado vitória atrás de vitória. No Moinho de Pedra, em Cruzaboi, na Batalha dos Acampamentos, no Bosque dos Murmúrios…

Mas se estamos ganhando, por que tenho tanto medo?

Bran

O som foi o mais tênue dos clincs, um raspar de aço em pedra. Levantou a cabeça das patas, escutando, farejando a noite.

A chuva do anoitecer tinha despertado uma centena de cheiros adormecidos, tornando-os de novo maduros e fortes. Grama e espinheiros, amoras silvestres rachadas no chão, lama, minhocas, folhas apodrecendo, uma ratazana que se arrastava pelos arbustos. Detectou o odor negro e felpudo da pelagem do irmão e o forte e penetrante cheiro acobreado do esquilo que tinha matado. Outros esquilos deslocavam-se pelos galhos sobre a sua cabeça, cheirando a pelo molhado e a medo, raspando a casca das árvores com suas pequenas garras. O barulho soara um pouco como aquilo.

Voltou a ouvi-lo, clinc, e raspar. Aquele som fê-lo levantar-se. As orelhas espetaram-se e a cauda se ergueu. Uivou, um grito longo, profundo e tremente, um uivo para acordar os adormecidos, mas as pilhas de rocha do homem estavam escuras e mortas. Uma noite parada e úmida, uma noite daquelas que empurram os homens para dentro de seus buracos. A chuva tinha parado, mas os homens ainda se escondiam da umidade, amontoados junto aos fogos em suas cavernas de pedra empilhada.

O irmão chegou, deslizando por entre as árvores, deslocando-se quase tão silenciosamente como outro irmão de que tinha uma vaga lembrança, de muito tempo atrás, o que era branco com olhos de sangue. Os olhos deste eram lagoas de sombras, mas o pelo na parte de trás do pescoço estava eriçado. Também tinha ouvido os sons, e compreendia que significavam perigo.

Dessa vez, o clinc e o raspar foram seguidos por um som de arrastar e pelas batidas rápidas e suaves de pés descalços em pedra. O vento trouxe a mais ligeira lufada de um cheiro de homem que não conhecia. Estranho. Perigo. Morte.