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Correu na direção do som, com o irmão correndo a seu lado. As tocas de pedra ergueram-se à frente deles, com paredes escorregadias e úmidas. Mostrou os dentes, mas o homem de rocha não ligou para ele. Um portão erguia-se até bem alto, com uma serpente de ferro preta enrolada em volta de barras e do umbral. Quando se atirou contra o portão, ele estremeceu e a serpente tiniu, deslizou e aguentou. Através das barras conseguia olhar pela longa cova de pedra que corria entre os muros até o campo pedregoso que ficava na outra ponta, mas não havia forma de passar. Podia forçar o focinho entre as barras, mas nada mais do que isso. Muitas tinham sido as vezes que o irmão tentara quebrar entre os dentes os ossos negros do portão, mas estes não se partiam. Tinham tentado escavar por baixo deles, mas havia aí grandes pedras planas, meio cobertas por terra e folhas caídas.

Rosnando, começou a andar de um lado para o outro diante do portão, e depois atirou-se de novo contra ele. Moveu-se um pouco e o atingiu. Trancado, alguma coisa sussurrou. Acorrentado. A voz que não ouvia, o odor sem cheiro. As outras passagens também estavam fechadas. Onde se abriam portas nos muros de rocha do homem, a madeira era grossa e forte. Não existia saída.

Existe, disse o sussurro, e pareceu poder ver a sombra de uma grande árvore coberta de agulhas, nascendo inclinada da terra negra e elevando-se até dez vezes a altura de um homem. Mas, quando olhou em volta, não estava lá. Do outro lado do bosque sagrado, a árvore sentinela, rápido, rápido…

Através das sombras da noite chegou um grito abafado, abruptamente interrompido.

Depressa, muito depressa, rodopiou e saltou na direção das árvores, com folhas úmidas restolhando sob as patas, galhos chicoteando-o quando passava correndo por eles. Ouvia o irmão seguindo-o de perto. Mergulharam sob a árvore-coração e em torno da lagoa fria, através dos arbustos de amoras silvestres, sob um emaranhado de carvalhos, freixos e espinheiros, até o outro lado do bosque… e ali estava ela, a sombra que ele vislumbrara sem ver, a árvore inclinada apontada para os telhados. Sentinela, disse o pensamento.

Lembrou-se então de como era escalá-la. Agulhas por todo o lado, arranhando seu rosto nu e caindo por sua nuca abaixo, seiva pegajosa nas mãos, o aguçado cheiro de pinheiro que exalava. Era uma árvore fácil para um garoto subir, inclinada como estava, torta, com os galhos tão próximos uns dos outros que quase faziam uma escada, levando até o telhado.

Rosnando, farejou em volta da base da árvore, levantou uma perna e marcou-a com um jato de urina. Um galho baixo roçou em seu rosto, ele abocanhou-o, torcendo e puxando até que a madeira estalou e se quebrou. Tinha a boca cheia de agulhas e do sabor amargo da seiva. Sacudiu a cabeça e rosnou.

O irmão sentou-se sobre os quartos traseiros e ergueu a voz num uivo ululante, uma canção negra de pesar. O caminho não era caminho algum. Eles não eram esquilos, nem crias de homem, não podiam serpentear pelos troncos de árvores acima, agarrando-se com suaves patas cor-de-rosa e pés desajeitados. Eram corredores, caçadores, vagabundos.

Do outro lado da noite, para lá da pedra que os cercava, os cães acordaram e começaram a latir. Primeiro um, e logo outro, e depois todos, um grande clamor. Eles também tinham sentido aquilo; o cheiro de inimigos e medo.

Uma fúria desesperada o preencheu, quente como a fome. Afastou-se do muro com um salto, e penetrou nas árvores com mais saltos, o pelo cinzento salpicado pelas sombras de galhos e folhas… e então virou-se e correu de volta. Os pés voaram, levantando folhas úmidas e agulhas de pinheiro, e por um momento era um caçador, e um grande veado fugia à sua frente, conseguia vê-lo, cheirá-lo, e correu em plena perseguição. O cheiro do medo fez seu coração trovejar e saliva escorrer por suas mandíbulas. Chegou à árvore inclinada em grandes passos e atirou-se pelo tronco acima, com as garras arranhando a casca em busca de apoio. Saltou para cima, para cima, dois saltos, três, quase sem parar, até se encontrar entre os galhos mais baixos. Ramos emaranharam-se em seus pés e chicotearam seus olhos, agulhas verde-acinzentadas espalharam-se quando abriu caminho por entre elas, mordendo-as. Foi forçado a diminuir o ritmo. Algo se prendeu ao seu pé e ele o libertou, rosnando. O tronco estreitou-se por baixo dele, e tornou-se mais íngreme, quase vertical, e úmido. A casca rasgava-se como pele quando tentava prender nela as garras. Estava a um terço do caminho, a metade, a mais da metade, o telhado estava quase ao seu alcance… e então pôs um pé na madeira molhada e sentiu-o escorregar em sua curvatura, e de repente estava deslizando, tropeçando. Uivou de medo e fúria, caindo, caindo, e contorceu-se enquanto o chão aproximava-se rapidamente, decidido a quebrá-lo…

Então, Bran deu por si de novo na cama em seu solitário quarto da torre, emaranhado nas mantas, respirando com força.

– Verão – gritou. – Verão – seu ombro parecia doer, como se tivesse caído sobre ele, mas sabia que era apenas o fantasma do que o lobo estava sentindo. Jojen disse a verdade. Sou um lobisomem. Ouvia lá fora os tênues latidos de cães. O mar chegou. Flui sobre as muralhas, tal como Jojen viu. Bran agarrou a barra sobre sua cabeça e puxou-se, gritando por ajuda. Ninguém veio, e após um momento lembrou-se de que ninguém viria. Tinham tirado a guarda de sua porta. Sor Rodrik necessitara de todos os homens em idade de lutar em que pudesse pôr as mãos, e Winterfell fora deixado apenas com uma guarnição simbólica.

Os outros tinham partido havia oito dias, seiscentos homens de Winterfell e dos castros mais próximos. Cley Cerwyn seguia com mais trezentos, para se juntar a eles durante a marcha, e Meistre Luwin mandara corvos à frente deles, convocando recrutas de Porto Branco, das terras acidentadas e até de lugares localizados nas profundezas da mata de lobos. Praça de Torrhen estava sob o ataque de um monstruoso chefe de guerra qualquer chamado Dagmer Boca Rachada. A Velha Ama dizia que ele não podia ser morto, que um dia um inimigo havia cortado sua cabeça ao meio com um machado, mas Dagmer era tão feroz que se limitara a unir de novo as duas metades, segurando-as até sarar. Poderia Dagmer ter ganhado? Praça de Torrhen ficava a muitos dias de viagem de Winterfell, mas, mesmo assim…

Bran puxou-se para fora da cama, deslocando-se de barra em barra até chegar às janelas. Os dedos atrapalharam-se um pouco ao abrir as venezianas. O pátio estava vazio, e todas as janelas que conseguia ver estavam negras. Winterfell dormia.

Hodor! – gritou para baixo, o mais alto que pôde. Hodor estaria dormindo acima dos estábulos, mas se gritasse com força suficiente talvez ouvisse, ele ou alguém. – Hodor, vem depressa! Osha! Meera, Jojen, alguém! – Bran pôs as mãos em volta da boca. – HOOOOODOOOOOR!

Mas quando a porta se abriu com estrondo atrás de si, o homem que entrou não era ninguém que ele conhecesse. Usava um justilho de couro com discos de ferro sobrepostos a ele, e trazia uma adaga numa mão e um machado preso às costas.

– O que você quer? – Bran perguntou, com medo. – Este é o meu quarto. Saia daqui.

Theon Greyjoy seguiu o homem para dentro do quarto.

– Não vamos lhe fazer mal, Bran.

– Theon? – Bran sentiu-se tonto de alívio. – Foi Robb que o enviou? Ele também está aqui?

– Robb está longe. Não pode ajudá-lo agora.

– Ajudar-me? – sentia-se confuso. – Não me assuste, Theon.

– Agora sou Príncipe Theon. Somos ambos príncipes, Bran. Quem sonharia com tal coisa? Mas eu tomei seu castelo, meu príncipe.