– Ele num casou com ela pelas tetas, senhor.
Os homens de ferro fecharam com estrondo as grandes portas ao fundo do salão. Do cadeirão, Bran conseguia ver cerca de vinte. Ele provavelmente deixou alguns guardas nos portões e no arsenal. Mesmo assim, não podiam ser mais do que trinta.
Theon levantou as mãos para pedir silêncio.
– Todos me conhecem…
– Pois é, conhecemos como o saco de bosta fumegante que é! – gritou Mikken antes de o careca atingi-lo com a ponta romba da lança na barriga e depois bater em seu rosto com o cabo. O ferreiro caiu de joelhos e cuspiu um dente.
– Mikken, fique quieto – Bran tentou soar austero e senhorial, como Robb quando dava uma ordem, mas foi traído pela voz e as palavras saíram num guincho estridente.
– Escute seu pequeno fidalgo, Mikken – Theon alertou. – Tem mais juízo do que você.
Um bom senhor protege o seu povo, recordou Bran a si mesmo.
– Rendi Winterfell a Theon.
– Mais alto, Bran. E chame-me de príncipe.
Bran levantou a voz.
– Entreguei Winterfell ao Príncipe Theon. Todos devem fazer o que ele ordenar.
– O diabo que faço! – Mikken berrou novamente.
Theon ignorou a explosão.
– Meu pai pôs na cabeça a velha coroa de sal e rocha, e declarou-se Rei das Ilhas de Ferro. Reclama também o norte, por direito de conquista. São todos seus súditos.
– Vá tomar no cu – Mikken limpou o sangue da boca. – Eu sirvo aos Stark, não a uma lula traiçoeira qualquer que… Aah – A ponta romba da lança atirou-o de cabeça contra o chão de pedra.
– Os ferreiros têm braços fortes e cabeças fracas – Theon observou. – Mas se o resto de vocês me servir tão lealmente como serviram Ned Stark, vão me achar um senhor tão generoso como poderiam querer.
Apoiado nas mãos e joelhos, Mikken cuspiu sangue. Por favor, não faça isso, desejou Bran, mas o ferreiro gritou:
– Se acha que vai manter o norte com este bando ridículo de…
O careca enfiou a ponta da lança na parte de trás do pescoço de Mikken. Aço deslizou através de carne e saiu por sua garganta com um jorro de sangue. Uma mulher gritou, e Meera envolveu Rickon nos braços. Foi em sangue que se afogou, pensou Bran, atordoado. No seu próprio sangue.
– Quem mais tem alguma coisa a dizer? – Theon Greyjoy perguntou.
– Hodor hodor hodor hodor – gritou Hodor, de olhos esbugalhados.
– Alguém tenha a bondade de calar esse imbecil.
Dois homens de ferro começaram a espancar Hodor com a parte de trás das lanças. O cavalariço caiu de joelhos, tentando se defender com as mãos.
– Serei um senhor tão bom para vocês como Eddard Stark foi – Theon levantou a voz para ser ouvido sobre o som de madeira batendo em carne. – Mas, se me traírem, irão desejar não tê-lo feito. E não achem que os homens que aqui veem são todo o meu poder. Praça de Torrhen e Bosque Profundo também serão em breve nossos, e meu tio está subindo pela Lança de Sal para capturar Fosso Cailin. Se Robb Stark conseguir esmagar os Lannister, pode reinar como Rei do Tridente daqui em diante, mas é a Casa Greyjoy quem possui o Norte agora.
– Os senhores do Stark vão dar trabalho – gritou o homem chamado Fedor. – Aquele porco inchado de Porto Branco, por exemplo, e tamém os Umber e os Karstark. Vai precisar de homens. Liberte-me, e serei seu.
Theon o avaliou por um momento.
– É mais esperto do que perfumado, mas eu não conseguiria suportar o fedor.
– Bom – disse Fedor –, podia me lavar um pouco. Se tivesse livre.
– Um homem de raro bom-senso – Theon sorriu. – Dobre o joelho.
Um dos homens de ferro entregou uma espada a Fedor, e ele a depositou aos pés de Theon e jurou obediência à Casa Greyjoy e ao Rei Balon. Bran não conseguia ver aquilo. O sonho verde estava se tornando realidade.
– Senhor Greyjoy! – Osha avançou, passando ao lado do corpo de Mikken. – Também fui trazida para cá cativa. O senhor estava lá no dia em que fui capturada.
Pensei que fosse uma amiga, pensou Bran, ferido.
– Preciso de guerreiros – Theon declarou –, não de empregadinhas de cozinha.
– Foi Robb Stark quem me pôs nas cozinhas. Durante quase um ano, tenho andado polindo panelas, raspando gordura e aquecendo as palhas para esse aí – ela lançou um olhar a Gage. – Estou farta. Volte a pôr uma lança em minha mão.
– Tenho uma lança para você aqui mesmo – disse o careca que tinha matado Mikken, e agarrou a virilha, rindo.
Osha enfiou o joelho ossudo entre suas pernas.
– Guarde essa coisinha mole e rosa para si – arrancou a lança de suas mãos e usou o cabo para desequilibrá-lo. – Eu fico com a madeira e o ferro – o careca ficou se contorcendo no chão enquanto os outros corsários enchiam o ar com uma tempestade de gargalhadas.
Theon riu com os outros.
– Servirá – disse. – Fique com a lança; Stygg pode encontrar outra. Agora dobre o joelho e jure.
Quando ninguém mais avançou para entrar ao seu serviço, foram mandados embora com um aviso para fazerem seu trabalho e não criarem problemas. A Hodor foi atribuída a tarefa de levar Bran de volta à cama. Sua aparência estava feia devido ao espancamento, com o nariz inchado e um olho fechado.
– Hodor – soluçou por entre lábios rachados enquanto levantava Bran com enormes braços fortes e mãos ensanguentadas e o levava de volta através da chuva.
Arya
–Há fantasmas, eu sei que há – Torta Quente estava amassando pão, com os braços cobertos de farinha até os cotovelos. – Pia viu alguma coisa na despensa ontem à noite.
Arya soltou um ruído rude. Pia sempre via coisas na despensa. Normalmente, homens.
– Dá uma torta? – ela pediu. – Você fez um tabuleiro inteiro.
– Preciso de um tabuleiro inteiro. Sor Amory gosta delas.
Arya odiava Sor Amory.
– Vamos cuspir nelas.
Torta Quente olhou nervosamente em volta. As cozinhas estavam cheias de sombras e ecos, mas os outros cozinheiros e ajudantes todos dormiam em suas cavernosas galerias por cima dos fornos.
– Ele vai saber.
– Não vai nada – Arya retrucou. – Não se sente o gosto do cuspe.
– Se souber, é a mim que chicoteiam – Torta Quente interrompeu sua tarefa. – Você nem devia estar aqui. É noite cerrada.
E era, mas Arya não se importava. Mesmo na noite cerrada, as cozinhas nunca estavam paradas; havia sempre alguém batendo massa para o pão matinal, mexendo uma caldeira com uma longa colher de pau, ou matando um porco para o bacon do café da manhã de Sor Amory. Naquela noite, era Torta Quente.
– Se o Olho Vermelho acorda e não encontra você lá… – ele disse.
– O Olho Vermelho nunca acorda – seu nome verdadeiro era Mebble, mas todo mundo o chamava assim por causa de seus olhos lacrimejantes –, depois de desmaiar não acorda mais – todas as manhãs, quebrava o jejum com cerveja. Todas as noites caía num sono ébrio depois do jantar, com cuspe cor de vinho escorrendo queixo abaixo. Arya esperava até ouvi-lo roncar, e depois esgueirava-se descalça pela escada dos criados, sem fazer mais ruído do que o rato que tinha sido. Não levava nem vela nem círio. Syrio dissera-lhe uma vez que a escuridão podia ser sua amiga, e tinha razão. Se tivesse a lua e as estrelas para iluminar seus passos, era o suficiente. – Aposto que podíamos fugir, e o Olho Vermelho sequer repararia que eu não estava mais lá – ela disse a Torta Quente.
– Eu não quero fugir. Isto aqui é melhor do que era na floresta. Não quero comer minhocas. Toma, espalha um pouco de farinha no tabuleiro.
Arya inclinou a cabeça:
– O que é isso?
– O quê? Eu não…
– Escute com as orelhas, não com a boca. Aquilo foi uma trombeta de guerra. Dois sopros, não ouviu? E olha, aquilo são as correntes da porta levadiça, alguém está saindo ou entrando. Quer ir ver? – os portões de Harrenhal não tinham sido abertos desde a manhã em que Lorde Tywin marchara com a sua tropa.