Gendry soltou uma gargalhada:
– E como é que fazemos isso?
– Sor Amory os enviou para a masmorra. Aquela abaixo da Torre da Viúva, que é só uma cela grande. Podia abrir a porta com seu martelo…
– Enquanto os guardas observam e fazem apostas a respeito de quantas pancadas vou precisar, talvez?
Arya mordeu os lábios.
– Teríamos de matar os guardas.
– E como é que poderíamos fazer isso?
– Talvez não haja muitos.
– Se houver dois já é muito para nós. Não chegou a aprender nada naquela aldeia, não é? Se tentar fazer isso, Vargo Hoat corta suas mãos e seus pés, como costuma fazer – Gendry voltou a pegar nas tenazes.
– Você tem medo.
– Deixe-me em paz, pirralha.
– Gendry, há uma centena de nortenhos. Talvez mais, não consegui contar todos. São tantos quanto os soldados de Sor Amory. Bem, sem contar com os Saltimbancos Sangrentos. Só temos de tirá-los de lá, Então, podemos tomar o castelo e fugir.
– Bem, não é mais capaz de tirá-los de lá do que foi capaz de salvar Lommy – Gendry virou a placa de peito com as tenazes para observá-la cuidadosamente. – E se fugíssemos, para onde iríamos?
– Para Winterfell – ela respondeu de imediato. – Eu contaria a minha mãe como você me ajudou e poderia ficar…
– A senhora permitiria? Será que poderia ferrar os seus cavalos e fazer espadas para os seus irmãos fidalgos?
Ele às vezes a irritava tanto.
– Pare com isso!
– Por que é que eu apostaria os pés em troca da possibilidade de suar em Winterfell em vez de em Harrenhal? Conhece o velho Ben Blackthumb? Veio para cá garoto. Foi ferreiro da Senhora Whent e do pai antes dela, do pai deste e até do Lorde Lothston, que possuía Harrenhal antes dos Whent. Agora é ferreiro do Lorde Tywin, e sabe o que ele diz? Uma espada é uma espada, um elmo é um elmo, e se puser a mão no fogo fica queimado, não importa a quem sirva. Lucan é um mestre bastante bom. Eu fico aqui.
– Então a rainha vai pegá-lo. Ela não mandou homens de manto dourado atrás de Ben Blackthumb!
– Talvez nem sequer era eu quem procuravam.
– Era, sim senhor, e você sabe disso. Você é alguém.
– Sou um aprendiz de ferreiro, e um dia pode ser que me torne um mestre armeiro… Se não fugir e perder os pés ou arranjar um jeito de me matarem – deu-lhe as costas, voltou a pegar o martelo e começou a martelar.
As mãos de Arya enrolaram-se em punhos impotentes.
– No próximo elmo que fizer, ponha orelhas de mula em vez de chifres de touro! – teve de fugir para não começar a bater nele. Ele provavelmente nem sentiria se eu batesse. Quando descobrirem quem é e cortarem sua estúpida cabeça de mula, vai se arrepender de não ter me ajudado. De resto, estava melhor sem ele. Fora por causa dele que tinha sido apanhada na aldeia.
Mas pensar na aldeia fez Arya lembrar-se da marcha, e do armazém, e do Cócegas. Pensou no garotinho que tinha sido atingido no rosto pela maça, no estúpido velho Todo-por-Joffrey, em Lommy Mãos-Verdes. Fui uma ovelha, e depois um rato. Não podia fazer nada além de me esconder. Arya mordeu o lábio e tentou se lembrar do momento em que a coragem voltara. Jaqen me devolveu a bravura. De rato transformou-me em fantasma.
Tinha andado evitando o lorathiano desde a morte de Weese. Chiswyck tinha sido fácil, qualquer um podia empurrar um homem de um muro, mas Weese criara aquela feia cadela malhada desde filhote, e só uma magia negra qualquer poderia fazer que o animal se voltasse contra ele. Yoren encontrou Jaqen numa cela negra, tal como Rorge e Dentadas, recordou. Jaqen fez algo de horrível, e Yoren sabia, era por isso que o mantinha acorrentado. Se o lorathiano fosse um feiticeiro, Rorge e Dentadas podiam ser demônios que tivesse conjurado de algum inferno, e não homens.
Jaqen ainda lhe devia uma morte. Nas histórias da Velha Ama a respeito de homens a quem eram dados desejos mágicos por um grumequim, tinha de se ter cuidado especial com o terceiro desejo, porque era o último. Chiswyck e Weese não tinham sido muito importantes. A última morte tem de contar, dizia Arya a si mesma todas as noites quando sussurrava os nomes. Mas agora perguntava a si mesma se esta seria realmente a razão de sua hesitação. Enquanto pudesse matar com um sussurro, Arya não precisava ter medo de ninguém… mas depois de usar a última morte, seria de novo apenas um rato.
Com Olho Vermelho acordado, não se atrevia a voltar para a cama. Sem saber onde mais se esconder, dirigiu-se ao bosque sagrado. Gostava do cheiro forte dos pinheiros e sentinelas, de sentir o mato e a terra entre os dedos dos pés, e do som que o vento fazia nas folhas. Um pequeno riacho meandrava lentamente pelo bosque, e havia um local onde a água tinha escavado o solo por baixo de uma árvore caída.
Ali, sob madeira em apodrecimento e galhos torcidos e lascados, encontrou a espada que tinha escondido.
Gendry era teimoso demais para lhe fabricar uma espada, portanto, ela mesma tinha feito uma, arrancando as cerdas de uma vassoura. A lâmina era muito mais leve do que devia ser, e não tinha um punho propriamente dito, mas Arya gostava da extremidade irregular e lascada. Sempre que tinha uma hora livre, esgueirava-se para lá e dedicava-se aos exercícios que Syrio tinha lhe ensinado, movendo-se descalça sobre as folhas caídas, golpeando galhos e lançando estocadas nas folhas. Às vezes até subia nas árvores e dançava entre os ramos superiores, agarrando-se a eles com os dedos dos pés enquanto se deslocava para cá e para lá, vacilando um pouco menos a cada dia, à medida que o equilíbrio ia voltando. A noite era a melhor hora; nunca ninguém a incomodava à noite.
Arya subiu. Lá em cima, no reino das folhas, desembainhou a espada e durante algum tempo esqueceu-se de todos, tanto de Sor Amory como dos Saltimbancos e dos homens do pai, perdendo-se na sensação de madeira áspera debaixo das solas dos pés e no suich da espada cortando o ar. Um galho quebrado transformou-se em Joffrey. Bateu nele até que caísse. A rainha, Sor Ilyn, Sor Meryn e Cão de Caça eram apenas folhas, mas matou-os também, golpeando-os até se transformarem em tiras verdes e úmidas. Quando o braço se cansou, sentou-se num galho elevado para recuperar o fôlego com o ar frio e escuro, escutando os guinchos que os morcegos soltavam enquanto caçavam. Através das copas frondosas das árvores, conseguia ver os galhos brancos como ossos da árvore-coração. Daqui parece tal e qual a que há em Winterfell. Se ao menos fosse a de Winterfell… então, quando descesse, estaria de novo em casa, e talvez encontrasse seu pai sentado sob o represeiro, onde sempre se sentava.
Enfiando a espada no cinto, deslizou de galho em galho até voltar ao chão. A luz da lua pintava os ramos do represeiro de um branco prateado quando se encaminhou em sua direção, mas as folhas vermelhas de cinco pontas estavam enegrecidas pela noite. Arya encarou o rosto esculpido no tronco. Era terrível, com a boca retorcida e os olhos flamejantes e cheios de ódio. Seria aquele o aspecto de um deus? Poderiam os deuses ser feridos, como as pessoas? Devia rezar, pensou de repente.
Arya ficou de joelhos. Não tinha certeza de como começar. Juntou as mãos. Ajudem-me, velhos deuses, rezou em silêncio. Ajudem-me a tirar aqueles homens da masmorra para podermos matar Sor Amory, e levem-me para casa, para Winterfell. Façam de mim uma dançarina de água e uma loba, e façam com que nunca mais tenha medo.
Seria suficiente? Talvez devesse rezar em voz alta se quisesse que os velhos deuses ouvissem. Ou talvez por mais tempo. Recordava que às vezes o pai rezava durante muito tempo. Mas os velhos deuses nunca o ajudaram. Lembrar-se disso a deixou zangada.