– Não posso. Mas é melhor que se apresse, senão Vargo Hoat corta seu pé – e fugiu antes que Pia pudesse agarrá-la. No caminho de volta, perguntou a si mesma por que motivo nenhum dos cativos tinha as mãos ou os pés cortados. Talvez Vargo Hoat tivesse medo de irritar Robb. Apesar de não parecer ser do tipo de homem que tenha medo seja de quem for.
Torta Quente mexia as caldeiras com uma longa colher de pau quando Arya retornou às cozinhas. Pegou uma segunda colher e pôs-se a ajudá-lo. Por um momento, pensou que talvez devesse lhe contar, mas depois lembrou-se da aldeia e decidiu não fazer isso. Ele só iria se render outra vez.
Então ouviu o feio som da voz de Rorge.
– Cozinheiro – gritou. – Vamos levar a merda do seu caldo – Arya largou a colher, receosa. Não lhe disse para trazê-los. Rorge usava o capacete de ferro, com a proteção que escondia parcialmente o nariz que lhe faltava. Jaqen e Dentadas entraram na cozinha atrás dele.
– A merda do caldo ainda não está pronta – o cozinheiro respondeu. – Tem de ferver. Acabamos de despejar as cebolas lá dentro e…
– Cale a matraca, senão lhe enfio um espeto rabo acima e pincelamos você durante uma volta ou duas. Eu disse caldo, e disse já.
Silvando, Dentadas tirou do espeto um pedaço meio assado de coelho e o rasgou com os dentes pontiagudos enquanto mel escorria entre seus dedos.
O cozinheiro aceitou a derrota.
– Então levem a merda do caldo, mas se a cabra perguntar por que é que tem tão pouco gosto, digam-lhe.
Dentadas lambeu a gordura e o mel dos dedos enquanto Jaqen H’ghar calçava um par de luvas bem almofadadas, depois deu um segundo para Arya.
– Uma doninha ajuda – o caldo estava fervendo e as caldeiras eram pesadas. Arya e Jaqen pegaram uma, Rorge transportou outra sozinho, e Dentadas agarrou mais duas, silvando de dor quando os pegadores queimaram suas mãos. Mesmo assim, não as deixou cair. Arrastaram as caldeiras para fora da cozinha e atravessaram o pátio com elas. Dois guardas tinham sido colocados à porta da Torre da Viúva.
– O que é isto? – perguntou um deles para Rorge.
– Um penico com mijo fervendo. Quer um pouco?
Jaqen sorriu de forma apaziguadora.
– Um prisioneiro também tem de comer.
– Ninguém disse nada a respeito de…
Arya o interrompeu.
– É para eles, não para você.
Com um gesto para passar, o segundo guarda disse-lhes:
– Então levem para baixo.
Depois de atravessar a porta, uma escada em espiral levava às masmorras. Rorge seguiu à frente, com Jaqen e Arya na retaguarda.
– Uma menina vai ficar fora do nosso caminho.
Os degraus terminavam numa galeria de pedra, úmida e fria, longa, sombria e sem janelas. Algumas tochas ardiam em arandelas na área mais próxima da escada, onde um grupo de guardas de Sor Amory estava sentado em volta de uma mesa de madeira cheia de marcas, conversando e jogando dominó. Pesadas barras de ferro separavam-nos do local onde os cativos se aglomeravam na escuridão. O cheiro do caldo de carne trouxe muitos deles para junto das barras.
Arya contou oito guardas, que também cheiraram o caldo.
– Esta é a criada mais feia que já vi – disse o capitão para Rorge. – O que há na caldeira?
– Seu caralho e os ovos. Quer comer ou não?
Um dos guardas estava andando para lá e para cá, outro encontrava-se em pé junto às grades, e um terceiro, sentado no chão com as costas apoiadas na parede, mas a expectativa de comer tinha trazido todos para junto da mesa.
– Já era mais que hora de nos alimentar.
– Isto é cheiro de cebola?
– E onde está o pão?
– Porra, precisamos de tigelas, taças, colheres…
– Não precisam, não – Rorge despejou o caldo pelando em cheio no rosto dos guardas. Jaqen H’ghar fez o mesmo. Dentadas também atirou as caldeiras, fazendo-as girar por baixo dos braços para que rodopiassem masmorra afora, fazendo chover sopa. Uma delas atingiu o capitão nas têmporas quando ele tentou se levantar. Caiu como um saco de areia e ficou imóvel. Os outros gritavam de agonia, rezavam, ou tentavam escapar.
Arya encostou-se à parede quando Rorge começou a cortar gargantas. Dentadas preferia agarrar os homens pela nuca e pelo queixo e quebrar seus pescoços com uma única torção das suas enormes mãos pálidas. Só um dos guardas conseguiu puxar uma lâmina. Jaqen afastou-se dançando de sua estocada, desembainhou a espada, encurralou o homem num canto com uma saraivada de golpes, e o matou com uma estocada no coração. O lorathiano trouxe a lâmina para Arya, ainda vermelha com sangue quente, e a limpou na parte da frente de sua roupa.
– Uma menina deve ficar ensanguentada também. Isto é obra dela.
A chave da cela pendia de um gancho na parede por cima da mesa. Rorge a pegou e abriu a cela. O primeiro homem a passar foi o senhor vestido com capa e cota de malha.
– Muito bem. Sou Robett Glover.
– Senhor – Jaqen fez-lhe uma reverência.
Depois de libertados, os prisioneiros tiraram dos guardas mortos suas armas e correram degraus acima com aço na mão. Os outros aglomeraram-se, de mãos vazias, atrás deles. Subiram rápido e quase sem uma palavra. Nenhum deles parecia tão ferido como quando Vargo Hoat os fizera atravessar os portões de Harrenhal.
– Usar a sopa foi engenhoso –o homem chamado Glover estava dizendo. – Não esperava por isso. Foi ideia de Lorde Hoat?
Rorge desatou a rir. Riu tanto, que escorreu ranho do buraco onde antes estivera seu nariz. Dentadas sentou-se em cima de um dos mortos, segurando uma mão flácida enquanto roía os dedos. Ossos estalaram entre seus dentes.
– Quem são vocês? – uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Robett Glover. – Não estavam com Hoat quando ele veio ao acampamento de Lorde Bolton. Pertencem aos Bravos Companheiros?
Rorge limpou o ranho do queixo com as costas da mão:
– Agora pertencemos.
– Este homem tem a honra de ser Jaqen H’ghar, antigamente da Cidade Livre de Lorath. Os descorteses companheiros desse homem chamam-se Rorge e Dentadas. Um senhor saberá qual deles é o Dentadas – indicou Arya com uma mão. – E ali…
– Chamo-me Doninha – ela o interrompeu, antes que pudesse dizer quem realmente era. Não queria que seu nome fosse dito ali, ao alcance dos ouvidos de Rorge, Dentadas e todos aqueles homens que não conhecia.
Viu que Glover não lhe dava importância.
– Muito bem – ele disse. – Ponhamos fim a este assunto maldito.
Quando voltaram a subir a escada em caracol, encontraram os guardas da porta jazendo em poças de seu próprio sangue. Nortenhos corriam pelo pátio. Arya ouviu gritos. A Porta do Salão da Caserna abriu-se de rompante e um homem ferido saiu, cambaleando e gritando. Outros três correram atrás dele e silenciaram-no com lanças e espadas. Também se lutava em volta da guarita. Rorge e Dentadas correram com Glover, mas Jaqen H’ghar ajoelhou ao lado de Arya.
– Uma menina não compreende?
– Compreendo, sim – ela respondeu, embora não fosse verdade, não por completo.
O lorathiano deve ter visto isso em seu rosto.
– Uma cabra não tem lealdade. Em breve um estandarte de lobo será erguido aqui, acho. Mas primeiro um homem quer ouvir desdizer certo nome.
– Retiro o nome – Arya mordeu o lábio. – Ainda tenho uma terceira morte?
– Uma menina é gananciosa – Jaqen tocou um dos guardas mortos e mostrou seus dedos ensanguentados. – Aqui estão três, e ali, quatro, e mais oito estão mortos embaixo. A dívida está paga.
– A dívida está paga – Arya concordou com relutância. Sentiu-se um pouco triste. Agora era de novo apenas um rato.
– Um deus tem o que lhe é devido. E agora um homem deve morrer – um estranho sorriso tocou os lábios de Jaqen H’ghar.
– Morrer? – ela perguntou, confusa. O que ele queria dizer? – Mas eu desdisse o nome. Agora não precisa morrer.