– Preciso. Meu tempo chegou ao fim – Jaqen passou uma mão sobre o rosto, da testa ao queixo, e por onde a mão passou ele mudou. As maçãs do rosto tornaram-se mais cheias, os olhos mais apertados; o nariz entortou-se, uma cicatriz surgiu na bochecha direita onde não havia nenhuma antes. E quando sacudiu a cabeça, seu longo cabelo liso, meio vermelho e meio branco, dissolveu-se para revelar um gorro de apertados caracóis negros.
A boca de Arya escancarou-se:
– Quem é você? – sussurrou, estupefata demais para sentir medo. – Como fez isso? É difícil?
Ele sorriu, revelando um cintilante dente de ouro:
– Não é mais difícil do que adotar um novo nome, se se souber como.
– Mostre-me – ela exclamou. – Também quero fazer isso.
– Se quiser aprender, tem de vir comigo.
Arya ficou hesitante.
– Para onde?
– Para longe, para lá do mar estreito.
– Não posso. Tenho que ir para casa. Para Winterfell.
– Então temos de nos separar, pois também tenho deveres a cumprir – ele levantou sua mão e pôs uma pequena moeda em sua palma. – Tome.
– O que é isto?
– Uma moeda de grande valor.
Arya mordeu-a. Era tão dura que só podia ser de ferro.
– Vale o suficiente para comprar um cavalo?
– Não se destina à compra de cavalos.
– Então, para que serve?
– Isso é o mesmo que perguntar para que serve a vida, para que serve a morte. Se chegar o dia em que quiser voltar a me encontrar, dê essa moeda a qualquer homem de Bravos e diga-lhe as seguintes palavras… valar morghulis.
– Valar morghulis – Arya repetiu. Não era difícil. Os dedos fecharam-se com força em volta da moeda. Do outro lado do pátio, ouvia homens morrendo. – Por favor, não vá Jaqen.
– Jaqen está tão morto como Arry – ele falou em tom triste –, e eu tenho promessas a manter. Valar morghulis, Arya Stark. Diga de novo.
– Valar morghulis – ela disse mais uma vez, e o estranho que usava a roupa de Jaqen fez-lhe uma reverência e afastou-se pela escuridão, com o manto tremulando. Ficou sozinha com os mortos. Eles mereceram morrer, disse a si mesma, lembrando-se de todos aqueles que Sor Amory Lorch tinha matado no castro junto ao lago.
Os porões sob a Pira do Rei estavam vazios quando voltou para a cama de palha. Sussurrou os nomes para o travesseiro, e quando terminou, acrescentou “Valar morghulis”, numa voz tênue e suave, perguntando a si mesma o que aquilo queria dizer.
Ao chegar a alvorada, Olho Vermelho e os outros estavam de volta, todos, menos um rapaz que tinha sido morto durante a luta, por nenhum motivo que alguém pudesse desvendar. Olho Vermelho subiu sozinho para ver em que pé estavam as coisas à luz do dia, enquanto se queixava sem parar que seus velhos ossos não suportavam degraus. Quando voltou, disse-lhes que Harrenhal tinha sido tomado.
– Aqueles Saltimbancos Sangrentos mataram alguns dos homens de Sor Amory nas camas, e os outros à mesa, depois de ficarem bem bêbados. O novo senhor estará aqui antes do dia terminar, com toda a sua tropa. É do norte selvagem, lá onde está a Muralha, e dizem que é um homem duro. Com este senhor ou aquele, continua a haver trabalho para fazer. Algum disparate, e arranco a pele de suas costas à chicotada – ele olhou para Arya quando disse aquilo, mas ela não lhe disse uma palavra sobre onde estivera na noite anterior.
Durante toda a manhã, ela viu os Saltimbancos Sangrentos tirando dos mortos o que de valor possuíssem e arrastando os cadáveres para o Pátio das Lâminas, onde foi feita uma pira para se verem livres deles. Shagwell, o Bobo, cortou a cabeça de dois cavaleiros mortos e ficou pavoneando pelo castelo, segurando-as pelos cabelos, abanando-as e fazendo-as falar. “De que morreu?”, perguntava uma cabeça. “De sopa quente de doninha”, respondia a segunda.
Arya foi posta para esfregar o sangue seco. Ninguém lhe disse uma palavra diferente do que era comum, mas de vez em quando reparava em alguém olhando-a de forma estranha. Robett Glover e os outros homens que tinham sido libertado devem ter falado a respeito do que acontecera na masmorra, e depois Shagwell e suas estúpidas cabeças falantes começaram com aquilo da sopa de doninha. Teria dito para ele se calar, mas tinha medo de fazê-lo. O bobo era meio louco, e Arya ouvira dizer que certa vez tinha matado um homem por não rir de uma de suas brincadeiras. É melhor que ele feche a boca, senão ponho-o na minha lista com os outros, pensou enquanto raspava uma mancha marrom-avermelhada.
O sol já estava quase se pondo quando o novo senhor de Harrenhal chegou. Tinha um rosto simples, sem barba e comum, notável apenas por seus estranhos olhos claros. Sem ser gordo, magro ou musculoso, usava cota de malha negra e um manto cor-de-rosa com pintas. O símbolo em seu estandarte parecia um homem mergulhado em sangue.
– De joelhos para receber o Senhor do Forte do Pavor! – gritou seu escudeiro, um garoto que não devia ser mais velho do que Arya, e Harrenhal se ajoelhou.
Vargo Hoat adiantou-se:
– Fenhor, Harrenhal é feu.
O senhor respondeu, mas em um tom de voz baixo demais para que Arya ouvisse. Robett Glover e Sor Aenys Frey, recém-banhados e vestidos com gibões e mantos limpos, foram se juntar a eles. Após uma breve conversa, Sor Aenys levou-os até Rorge e Dentadas. Arya surpreendeu-se por vê-los ali ainda; de algum modo tinha esperado que desaparecessem quando Jaqen sumira. Ouviu o som áspero da voz de Rorge, mas não o que ele estava dizendo. Então Shagwell lançou-se sobre ela, arrastando-a pelo pátio afora.
– Senhor, senhor – cantarolou, puxando-a pelo pulso –, está aqui a doninha que fez a sopa!
– Largue-me – Arya gritou, libertando-se com uma torção do corpo.
O senhor a olhou. Só os olhos se moveram; eram muito claros, da cor do gelo.
– Quantos anos tem, filha?
Ela teve de pensar por um momento para se lembrar.
– Dez.
– Dez, senhor – ele lhe lembrou. – Gosta de animais?
– De alguns. Senhor.
Um pequeno sorriso crispou seus lábios:
– Mas de leões não, ao que parece. Nem de manticoras.
Arya não sabia o que responder àquilo, então não disse nada.
– Dizem-me que a chamam de Doninha. Isso não servirá. Que nome sua mãe lhe deu?
Ela mordeu o lábio, em busca de outro nome. Lommy chamara-a Cabeça de Caroço, Sansa tinha usado Cara de Cavalo, e os homens do pai tinham-na alcunhado de Arya Debaixo dos Pés, mas não lhe parecia que algum desses fosse o tipo de nome que ele queria.
– Nymeria. Só que me chamava de Nan.
– Você vai me chamar de senhor quando falar comigo, Nan – disse o senhor brandamente. – É nova demais para ser um Bravo Companheiro, acho, e do sexo errado. Tem medo de sanguessugas, filha?
– São só sanguessugas. Senhor.
– Meu escudeiro poderia aprender alguma coisa com você, ao que parece. Sangramentos frequentes são o segredo de uma vida longa. Um homem tem de se purgar do sangue ruim. Parece-me que servirá. Enquanto eu ficar em Harrenhal, Nan, será minha copeira e vai me servir à mesa e em meus aposentos.
Dessa vez, sabia que não era boa ideia dizer-lhe que preferia trabalhar nos estábulos.
– Sim, minha senhoria. Quero dizer, sua senhoria.
O senhor sacudiu a mão.
– Deixem-na apresentável – o homem ordenou, para ninguém em especial. – E assegurem-se de que ela aprenda a servir vinho sem derramar – virando as costas para ela, ergueu uma mão e disse: – Lorde Hoat, trate daquelas bandeiras por cima da guarita.
Quatro Bravos Companheiros subiram até as ameias e arriaram o leão de Lannister e a manticora negra de Sor Amory. Em seu lugar içaram o homem esfolado do Forte do Pavor e o lobo gigante de Stark. E, nessa noite, uma pajem chamada Nan serviu vinho a Roose Bolton e Vargo Hoat, enquanto eles observavam da galeria os Bravos Companheiros que exibiam Sor Amory Lorch, nu, no pátio intermediário. Sor Amory suplicou, soluçou e agarrou-se às pernas de seus captores, até que Rorge o obrigou a largá-las e Shagwell o atirou com um pontapé para dentro do fosso do urso.