Nem todas as portas estavam fechadas. Não vou olhar, disse Dany a si mesma, mas a tentação era forte demais.
Numa sala, uma bela mulher estendia-se nua no chão enquanto quatro homenzinhos rastejavam por cima dela. Tinham caras pontiagudas de ratazana e mãozinhas cor-de-rosa, como o criado que lhe tinha trazido o copo de sombra da tarde. Um deles subia e descia entre as suas coxas. Outro atacava seus seios, mordendo seus mamilos com a boca úmida e vermelha, rasgando e mastigando.
Mais à frente, viu um festim de cadáveres. Massacrados de forma selvagem, os convivas jaziam espalhados por cima de cadeiras viradas e mesas de montar estilhaçadas, estatelados em poças de sangue coagulando. Alguns tinham perdido membros, ou até a cabeça. Mãos cortadas seguravam taças ensanguentadas, colheres de pau, aves assadas, nacos de pão. Num trono acima deles, estava sentado um morto com cabeça de lobo. Usava uma coroa de ferro e segurava numa mão uma perna de cordeiro como um rei seguraria um cetro, e seus olhos seguiram Dany com um apelo mudo.
Ela fugiu dele, mas só até a próxima porta aberta. Conheço esta sala, pensou. Lembrava-se daquelas grandes vigas de madeira e das faces de animais esculpidas que as adornavam. E ali, do lado de fora da janela, um limoeiro! Vê-lo fez o coração de Dany doer de saudade. É a casa da porta vermelha, a casa em Bravos. Assim que aquele pensamento atravessou seu espírito, Sor Willem entrou na casa, apoiando-se pesadamente em sua bengala.
– Princesinha, aqui está – ele disse em sua voz áspera e bondosa. – Venha, venha até mim senhora, está em casa agora, está a salvo agora – sua grande mão enrugada estendeu-se para ela, suave como couro velho, e Dany quis pegá-la e beijá-la, desejou isso mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa na vida. O pé avançou, e então pensou: Ele está morto, está morto, o querido velho urso, morreu há muito tempo. Recuou e fugiu.
O longo corredor prolongava-se mais e mais, com uma infinidade de portas à esquerda, e nada além de archotes à direita. Passou correndo por mais portas do que conseguia contar, portas fechadas e abertas, portas de madeira e de ferro, portas esculpidas e portas simples, portas com maçanetas, portas com fechaduras e portas com aldravas. Drogon chicoteava suas costas, incentivando-a a avançar, e Dany correu até já não mais conseguir.
Por fim, um grande par de portas de bronze surgiu à sua esquerda, mais grandiosas do que as outras. Abriram-se quando se aproximou, e teve de parar e olhar. Para além delas estendia-se um cavernoso salão de pedra, o maior que alguma vez vira. Os crânios de dragões mortos miravam-na das paredes. Num trono elevado cheio de farpas, sentava-se um velho com ricos trajes, de olhos escuros e longos cabelos cinza-prateados.
– Que ele seja rei de ossos esturricados e carne assada – disse para um homem que estava embaixo. – Que seja rei de cinzas – Drogon guinchou, enterrando as garras em seda e pele, mas o rei em seu trono não o ouviu, e Dany seguiu adiante.
Seu primeiro pensamento, na vez seguinte em que parou, foi Viserys, mas um segundo olhar fez Dany mudar de ideia. O homem tinha os cabelos do irmão, mas era mais alto, e seus olhos eram de um tom escuro de índigo, e não lilases.
– Aegon – ele disse para uma mulher que amamentava um recém-nascido numa grande cama de madeira. – Que nome seria melhor para um rei?
– Fará uma canção para ele? – a mulher perguntou.
– Ele já tem uma canção. É o príncipe que foi prometido, e é sua a canção de gelo e fogo – ergueu o olhar quando disse aquilo, e seus olhos encontraram os de Dany, e pareceu que a via ali em pé através da porta. – Terá de haver mais um – ele disse, embora Dany não soubesse dizer se estava falando para ela ou para a mulher na cama. – O dragão tem três cabeças – dirigiu-se ao banco da janela, pegou uma harpa e seus dedos correram com leveza sobre as cordas prateadas. Uma doce tristeza encheu o quarto enquanto homem, esposa e bebê se desvaneciam como a neblina da manhã, deixando para trás apenas a música a fim de apressá-la.
Pareceu a Dany que tinha caminhado por mais uma hora antes que o longo corredor finalmente terminasse numa íngreme escada de pedra, que descia para a escuridão. Todas as portas, abertas ou fechadas, tinham surgido à sua esquerda. Dany olhou para trás. Percebeu, com um princípio de medo, que os archotes estavam se apagando. Eram talvez vinte os que ainda ardiam. No máximo trinta. Mais um se apagou enquanto observava, e a escuridão avançou um pouco mais pelo corredor, rastejando em sua direção. E, ao escutar, pareceu ouvir algo mais que se aproximava, avançando lenta e arrastadamente pelo tapete desbotado. O terror a dominou. Não podia voltar, e tinha medo de ficar ali, mas como poderia avançar? Não havia nenhuma porta à direita, e os degraus iam para baixo, não para cima.
Mais um archote se apagou enquanto Dany ficou ali refletindo, e os sons tornaram-se levemente mais altos. O longo pescoço de Drogon desenrolou-se e o dragão abriu a boca para gritar, fazendo sair vapor por entre os dentes. Ele também ouve. Dany voltou a se virar para a parede vazia, mas nada havia lá. Será que há uma porta secreta, uma porta que não consigo ver? Outro archote se apagou. E outro. A primeira porta da direita, ele disse, sempre a primeira porta da direita. A primeira porta da direita…
De repente ela entendeu… É a última porta da esquerda!
Atirou-se através dela. Do outro lado havia uma pequena sala com quatro portas. Ela seguiu para a direita, e para a direita, e para a direita, e para a direita, e para a direita, e para a direita, e para a direita, até ficar tonta e de novo sem fôlego.
Quando parou, deu por si em mais um aposento de pedra, frio e úmido… Mas, dessa vez, a porta que se abria em frente era redonda, esculpida como uma boca aberta, e Pyat Pree estava do lado de fora, na relva sob as árvores.
– Será possível que os Imortais tenham terminado tão depressa o que tinham que tratar com a senhora? – ele perguntou, incrédulo, quando a viu.
– Tão depressa? – ela perguntou, confusa. – Caminhei durante horas, e ainda não os encontrei.
– Seguiu um caminho errado. Venha, eu a levo – Pyat Pree estendeu a mão.
Dany hesitou. Havia uma porta à sua direita, ainda fechada…
– Não é por aí – disse firmemente Pyat Pree, com uma afetação de desaprovação nos lábios azuis. – Os Imortais não esperarão para sempre.
– Nossas pequenas vidas são para eles nada mais do que a batida de uma asa de mariposa – Dany repetiu, recordando-se.
– Criança teimosa. Ficará perdida e nunca será encontrada.
Ela se afastou dele, virou-se para a porta à sua direita.
– Não – Pyat Pree guinchou. – Não, a mim, venha a mim, a miiiiiiiiiiim – seu rosto desmoronou para dentro, transformando-se em algo pálido e vermiforme.
Dany deixou-o para trás, e seguiu em direção a uma escadaria. Começou a subir. Pouco tempo depois suas pernas doíam. Recordou que a Casa dos Imortais parecera não ter torres.
Por fim, a escada abriu-se para um átrio. À direita, um conjunto de portas largas de madeira tinha sido escancarado. Eram feitas de ébano e represeiro, com os grãos pretos e brancos da madeira rodopiando e retorcendo-se em padrões estranhos e intricados. Eram muito belos, mas de algum modo assustadores. O sangue do dragão não deve ter medo. Dany proferiu uma prece rápida, suplicando coragem ao Guerreiro e força ao deus dos cavalos dos dothraki. Obrigou-se a avançar.
Para além das portas encontrava-se um grande salão e um esplendor de feiticeiros. Alguns usavam suntuosas togas de arminho, veludo rubi e pano de ouro. Outros preferiam elaboradas armaduras guarnecidas de pedras preciosas, ou chapéus altos e pontiagudos, salpicados de estrelas. Havia mulheres entre eles, trajando vestidos de insuperável beleza. Raios de luz do sol penetravam por janelas de vitral, e o ar reverberava com a mais bela música que já tinha ouvido.