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E então o índigo transformou-se em laranja, e os sussurros em gritos. Seu coração batia, rápido, as mãos e bocas haviam-na largado, calor lavava sua pele, e Dany piscou perante o súbito brilho. Empoleirado acima dela, o dragão abriu as asas e mordeu o terrível coração escuro, rasgando a carne putrefata em tiras, e quando sua cabeça foi para frente, fogo fluiu entre as maxilas abertas, quente e brilhante. Conseguia ouvir os guinchos dos Imortais enquanto ardiam, suas vozes agudas e frágeis como papel gritando em línguas havia muito desaparecidas. A carne deles era pergaminho que se desfazia, seus ossos, madeira seca ensopada em sebo. Dançaram enquanto as chamas os consumiam; cambalearam, estremeceram, saltaram e ergueram bem alto mãos em brasa, com os dedos brilhantes como tochas.

Dany ficou de pé e investiu pelo meio deles. Eram leves como o ar, não mais do que cascas, e caíam com um toque. A sala inteira estava em chamas quando atingiu a porta.

Drogon – ela chamou, e ele voou através do fogo.

Fora da sala, um longo corredor sombrio estendia-se serpenteando à sua frente, iluminado pelo brilho tremeluzente e alaranjado vindo de trás. Dany correu, em busca de uma porta, uma porta à sua direita, uma porta à sua esquerda, qualquer porta, mas nada havia, só paredes tortuosas de pedra, e um pavimento que parecia se mover lentamente sob seus pés, contorcendo-se como que para fazê-la tropeçar. Manteve o equilíbrio e correu mais depressa, e de repente a porta estava bem na sua frente, uma porta que era como uma boca aberta.

Quando surgiu à luz do sol, o brilho fez com que tropeçasse. Pyat Pree balbuciava numa língua desconhecida qualquer e saltava de um pé para o outro. Quando Dany olhou para trás, viu finas gavinhas de fumaça abrindo caminho através de fendas nas antigas paredes de pedra do Palácio de Poeira, e erguendo-se por entre as telhas negras do telhado.

Uivando pragas, Pyat Pree puxou uma faca e dançou em sua direção, mas Drogon voou no seu rosto. Então, Dany ouviu o estalar do chicote de Jhogo, e nunca houve som que a alegrasse tanto. A faca voou para longe, e um instante mais tarde Rakharo atirava Pyat ao chão. Sor Jorah Mormont ajoelhou na relva fresca e verde ao lado dela e pôs o braço em volta de seu ombro.

Tyrion

–Se morrer de forma estúpida, dou seu corpo de comer às cabras – ameaçou Tyrion quando o primeiro carregamento de Corvos de Pedra se afastou do cais.

Shagga soltou uma gargalhada.

– O Meio-Homem não tem cabras.

– Vou arranjar algumas só para você.

A alvorada rompia, e pálidas ondulações de luz cintilavam na superfície do rio, estilhaçando-se sob os mastros e voltando a se formar depois de o barco passar. Timett tinha levado seus Homens Queimados para o bosque do rei dois dias antes. Ontem, os Orelhas Negras e os Irmãos da Lua seguiram-no, hoje eram os Corvos de Pedra.

– Faça o que fizer, não tente travar batalha – Tyrion o alertou. – Ataque os acampamentos e as colunas de abastecimento. Monte emboscadas para os batedores e pendure os corpos nas árvores diante da linha de marcha deles, dê a volta e abata quem ficar para trás. Quero ataques noturnos, tantos e tão súbitos que eles fiquem com medo de dormir…

Shagga apoiou uma mão na cabeça de Tyrion.

– Tudo isso aprendi de Dolf, filho de Holger, antes de minha barba ter crescido. É assim que se faz a guerra nas Montanhas da Lua.

– O bosque do rei não é as Montanhas da Lua, e não estará lutando com Serpentes de Leite ou Cães Pintados. E ouça os guias que mando junto, eles conhecem essa floresta como você conhece suas montanhas. Escute seus conselhos, vão lhe ser úteis.

– Shagga escutará os animais de estimação do Meio-Homem – prometeu solenemente o homem dos clãs. E então chegou o momento de levar o garrano para o barco. Tyrion ficou vendo-os se afastar da margem e, levados por varas, se dirigir para o centro da Água Negra. Sentiu uma estranha pontada na boca do estômago quando Shagga se desvaneceu na névoa da manhã. Ia se sentir nu sem seus homens dos clãs.

Ainda tinha os homens contratados por Bronn, agora quase oitocentos, mas os mercenários eram notoriamente volúveis. Tyrion fizera o que podia para comprar uma lealdade continuada, prometendo a Bronn e a uma dúzia de seus melhores homens terras e graus de cavaleiro quando a batalha estivesse ganha. Tinham bebido seu vinho, rido de suas gracinhas e chamado uns aos outros de sor até ficarem todos cambaleando… Todos, menos o próprio Bronn, que tinha se limitado a sorrir aquele seu sorriso insolente e sombrio para depois dizer:

– Eles matarão por esse grau de cavaleiro, mas nunca julgue que morrerão por ele.

Tyrion não guardava tal ilusão.

Os homens de manto dourado eram uma arma quase igualmente incerta. Seis mil homens na Patrulha da Cidade, graças a Cersei, mas só se podia confiar em um quarto deles.

– Há poucos que sejam claramente traidores, embora haja alguns, até sua aranha não encontrou todos – prevenira-o Bywater. – Mas há centenas que estão mais verdes do que a grama da primavera, homens que se alistaram para ter pão, cerveja e segurança. Ninguém gosta de parecer covarde aos olhos dos companheiros, e lutarão com bastante coragem no início, quando só houver trombetas de guerra e estandartes ao vento. Mas se a batalha parecer correr mal, eles vão quebrar, e vão quebrar feio. O primeiro homem a jogar fora a lança e fugir terá mais mil o seguindo.

Certamente havia homens experientes na Patrulha da Cidade, o núcleo de dois mil que tinha obtido o manto dourado de Robert, e não de Cersei. Mas, mesmo esses… Lorde Tywin Lannister gostava de dizer que um vigia não era realmente um soldado. Quanto a cavaleiros, escudeiros e homens de armas, Tyrion não possuía mais do que trezentos. Em breve teria de testar a veracidade de outro dos ditados do pai: Um homem em uma muralha vale por dez à sua sombra.

Bronn e a escolta esperavam na entrada do cais, no meio de um enxame de pedintes, rameiras passeando e mulheres de pescadores transportando pescado. As mulheres dos pescadores faziam mais negócio do que todos os outros juntos. Compradores rodeavam as barricas e as bancadas em bandos para regatear por caramujos, mariscos e lúcios. Sem outro tipo de comida chegando na cidade, o preço do peixe era dez vezes mais alto do que tinha sido antes da guerra, e continuava a subir. Os que tinham dinheiro vinham à margem do rio todas as manhãs e todas as noites, esperando levar para casa uma enguia ou um recipiente cheio de caranguejos vermelhos; os que não tinham esgueiravam-se entre as bancadas, na esperança de roubar, ou ficavam, lúgubres e desamparados, sob as muralhas.

Os homens de manto dourado abriram caminho através da multidão, empurrando as pessoas para o lado com o cabo das lanças. Tyrion ignorou as pragas resmungadas o melhor que pôde. Um peixe aproximou-se voando, viscoso e podre. Aterrissou a seus pés e se desmachou. Passou bamboleante por cima dele e subiu na sela. Crianças com barrigas inchadas já lutavam pelos pedaços do peixe fedorento.

Montado, passou o olhar ao longo da margem. Martelos ressoavam no ar da manhã enquanto carpinteiros enxameavam o Portão da Lama, projetando das ameias grades de madeira. Aquilo estava indo bem. Estava bastante menos satisfeito com o aglomerado de estruturas decrépitas que tinham sido deixadas crescer atrás dos cais, agarrando-se às muralhas da cidade como cracas no casco de um navio; cabanas para guardar apetrechos de pesca, casas de pasto, bordéis, bancas de mercadores, cervejarias, as choupanas onde as mais baratas das prostitutas abriam as pernas. Isso tem de desaparecer, de cima a baixo. Daquele jeito, Stannis praticamente não precisaria de escadas para assaltar as muralhas.