“Mas tu não completaste o curso. “
“Eu sei, mas mesmo assim posso ser útil. Como enfermeira por exemplo. “
“Ah bom. Já me esquecia de que querias ser a Florence Nightingale. “
“Desde pequena”, assentiu ela. “Além do mais, ficar aqui no hotel é demasiado caro, tenho de encontrar um sítio mais em conta. “
“Queres que eu veja se há vagas em algum hospital? “ “Não sejas tonto, mon petit mignon, claro que há vagas. Estamos numa guerra, não te esqueças, há sempre falta de gente. “
“Tens razão”, reconheceu Afonso, pensativo, chupando os dentes para extrair um pedaço de carne. “Vou ver o que pode ser mais interessante para ti. Temos os hospitais de sangue, os depósitos de convalescentes, os hospitais da base...“
“Sim, é uma hipótese. Ou posso ir para um hospital francês, ou mesmo para um inglês “
“Podes, embora num português ficássemos mais perto um do outro.“
“Sim, mas acho que os portugueses se dão a demasiadas liberdades com as mulheres.“
“Por que é que dizes isso? “, perguntou Afonso, suspendendo a garfada seguinte no ar e fixando-a nos olhos, inquisitivo. “Tiveste algum problema?”
“Não”, mentiu ela. “Mas ouvi algumas histórias que não me agradaram.“
“Pois”, riu-se o capitão, retomando o interesse no canard e engolindo o conteúdo do garfo suspenso. “Nós, os portugueses, somos assim, meu amor. Uns garanhões.“ Para provar o que dizia, e alegando que era seu dever patriótico de oficial cimentar a fama dos machos portugueses junto da comunidade feminina francesa no campo de batalha do amor, Afonso engoliu apressadamente o que restava do almoço, arrumou o 307
tabuleiro e estendeu- se na cama com a amante. Começou a explorar Agnès com os lábios, com a língua, com os dedos, muito devagar, contornando-lhe as curvas macias, procurando-lhe os pontos eróge-nos, excitando-a, lubrificando-a, arrancou-lhe as roupas com suavidade, peça a peça, as mãos e a boca sempre a explorá-la, foi lento e metódico até entrar dentro dela, depois ganharam velocidade, os dois juntando-se como corpos em fogo, navegando um no outro em vagas turbulentas de paixão, as águas a agitarem-se com fragor, revoltas, imparáveis, até que a tempestade atingiu o auge da fúria e logo amainou, e a francesa, abandonada por entre os lençóis num torpor inebriante de sentimentos e sensações, se declarou satisfeita, tão satisfeita quanto na véspera ficara frustrada.
Dormitaram durante alguns minutos, acabando por despertar com vagarosa lentidão da suave letargia em que tinham mergulhado.
“Vamos a Paris?“, perguntou-lhe ele finalmente, num murmúrio, quebran-do o doce silêncio que pairava sobre os corpos saciados.
“A Paris? “, soprou Agnès, os olhos cerrados em plácida modorra. “Mas não tens de te apresentar na brigada? “
“Não te lembras de que consegui cinco dias de licença? “, sorriu Afonso com preguiçoso vagar. “Vamos a Paris. “
Ela abriu os olhos, subitamente muito desperta.
“Mas isso é fantástico”, exclamou com entusiasmo e excitação, apoiando-se nos cotovelos. “E quando começa a licença? “
“Já começou. “
“Já começou? Então vamos embora”, decidiu Agnès, levantando-se da cama com um vigoroso salto. “Vamos, seu preguiçoso, fora da cama, vamos embora!” Ele ergueu a cabeça, atarantado.
“Agora?”
“Sim, agora. Tens cinco dias de licença e mais de metade de um já passou.“
“Mas... “
“Não há mas nem meio mas. Daqui a três horas passa um comboio para Paris e vamos apanhá-lo. Anda, despacha-te. Vite, vite. “
Afonso fez um esforço e arrastou-se com indolência para fora da cama, quase contrariado. Foi barbear-se e pôr a farda lavada, entregue essa manhã pelos serviços de limpeza do hotel, enquanto Agnès escolhia para vestir a imitação de um Poiret, uma elegante túnica negra em estilo quimono com bainha armada, a cintura alta apertada por um lenço de seda rosa e um turbante preto na cabeça. Afonso olhou-a do quarto de banho como quem olha para uma princesa, inatingivelmente bela e insuportavelmente distante, 308
mas ela piscou-lhe o olho verde, brincalhona, e logo a distância se quebrou, o capitão sentindo-se infinitamente afortunado por ser amado pela mulher mais atraente e meiga que alguma vez conhecera.
“Isso que te brilha aí na cara não são olhos”, disse-lhe, embevecido. “São esmeraldas”
O tempo escasseava e tiveram de se apressar. Ele calçou as botas, engraxadas com impecável meticulosidade, e ajudou-a a fazer as malas. Meia hora depois abandonaram o quarto. Afonso pagou a conta e o gerente comprometeu-se a guardar o malão maior até ao regresso da senhora, daí a alguns dias. Apanharam um táxi e, com apenas uma mala a servir de bagagem, seguiram para a estação de Aire-sur-la-Lys a tempo do comboio para Paris.
Chegaram essa noite à grande cidade e um táxi levou-os até Les Halles, onde Agnès conhecia um simpático hotel, localizado na Place Sainte-Oppor-tune. O Citron parisiense entrou no largo e imobilizou-se junto ao passeio, Afonso ajudou Agnès a sair do automóvel, pagou ao chauffeur e admirou a praça num longo relance, era um sítio pequeno e tranquilo.
Num canto, quase escondido, erguia-se o Hôtel de Savoie, um edifício estreito de cinco andares, ao lado uma loja a anunciar Vins Liqueurs, com uma carroça estacionada à porta, por cima o Hôtel de Venise, apertado e envelhe-cido, um cartaz a informar que aquele era um Hôtel meublé. O esguio prédio deste hotel encontrava-se encaixado entre o Hôtel de Savoie e um edifício coberto de cartazes publicitários, todos colados de cima a baixo da longa parede caiada. Afonso fez um esforço para ler os anúncios, um fazia propaganda a uma tal de Moussoline des Alpes, outro anunciava novidades nas Galeries Lafayette, um terceiro fazia publicidade aos sensacionais salões de fotografia Dufayel. O
capitão pegou na mala e a sua atenção regressou ao Savoie e ao Venise.
“Qual é o nosso?“, perguntou, os olhos fixos nos hotéis colados um ao outro.
“É o Savoie.“
“Parece-me bem”, aprovou Afonso, que já decidira ser este o que tinha melhor aspecto.
O quarto do Savoie, no terceiro andar, era dominado por uma imponente cama Nenúfar, feita essencialmente de mogno e com remates em bronze folheado a ouro, imagens florais inspiravam os engastes e a madeira escura alongava-se nas vigorosas curvas típicas do formato esparguete que caracte-rizava a art nouveau.
Os recém-chegados comeram uma simples baguette com queijo e presunto e beberam um copo de leite antes de mergulharem na esplêndida cama do hotel e se amarem sucessivamente com tal intensidade e desprendimento que, no final da terceira vez, Agnès 309
se interrogou em voz alta, languidamente estendida sobre os lençóis, já exausta, mas saciada e por entre gargalhadas, se não estaria a transformar-se numa debochada.
Paris foi uma descoberta para Afonso. Agnès levou-o aos locais da sua juventude, a universidade, o apartamento de estudante na Rue de Montfaucon, o Champ-de-Mars e a Torre Eiffel, a Brasserie Lipp, onde conhecera Serge, e os cafés Le Procope, Stohrer e Tortini, onde estudara durante horas a fio, mais todo o bairro de St.-Germain-des-Prés e os elegantes edifícios da Sorbonne, numa emocionante viagem ao seu passado estudantil. O
curioso é que ela é que conhecia Paris, mas, apesar disso, perdia-se com frequência, e era ele quem acabava por se orientar nas ruas da cidade. Porém, quando também Afonso se perdia, o que era raro, recusava-se teimosamente a pedir indicações a quem quer que fosse, insistindo em que encontraria o caminho por si mesmo.