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O capitão entrou no quarto que lhe fora destinado, o mesmo de havia dez dias quando se hospedou pela primeira vez no Château Redier. Acendeu a lamparina, viu a mala que Joaquim lhe deixara ao lado da cama de armação Luís XV, tirou o casaco e pendurou-o numa cadeira. Sentiu-se triste e só. Foi ao cabinet de toilette, rodou a alavanca da torneira e lavou a cara na porcelana da pia em estilo art nouveau, esvaziou a bexiga na decorada sanita Oneas do cubículo vizinho, tão requintada que até fazia pena sujar. Voltou ao quarto, sentou-se na cama, descalçou as botas, desfez vagarosamente a gravata verde-pálida e despiu a farda, ficou de ceroulas, tremia de frio, deitou-se e cobriu- se, encolhendo e enrolando o corpo para melhor aquecer os lençóis e as mantas, quando o tremor acalmou espreitou pelos lençóis, estendeu o braço e apagou a lamparina. Às escuras, fechou os 241

olhos, suspirou e pensou em Agnès, fantasiando uma resposta diferente à oportunidade que acreditava ter tido quinze minutos antes, arquitectando planos para o dia seguinte, imaginando atraí-la para um local discreto onde lhe confessaria o seu amor com palavras românticas e irresistíveis, sentiu- se mais tranquilo quando decidiu que assim iria actuar, atrevido e arrojado, embora soubesse, bem lá no íntimo, que verdadeiramente jamais teria coragem de o fazer, quando a manhã nascesse veria tudo com outros olhos, as destemidas decisões da noite transformar-se-iam em ingénuas ilusões infantis.

Um estalido oriundo da porta desfez as fantasias como uma nuvem que se dissolve no céu. Afonso ergueu a cabeça e olhou para a entrada. Por momentos pareceu-lhe que estava tudo normal, pensou que ouvira talvez uma madeira a dar de si, possivelmente um móvel a estalar com as subtis mudanças de temperatura, afinal de contas um barulho habitual num palacete daquelas dimensões. Mas um novo som, agora um pouco diferente, mais suave e prolongado, confirmou que algo de facto se passava. Afonso sentou-se na cama, alerta. Um ténue clarão de luz emergiu verticalmente da entrada do quarto, era a porta que se abria, devagar.

“Alphonse? “

O capitão arregalou os olhos.

Alphonse? “

“Oui? “

Um vulto entrou com uma vela na mão, os contornos de luz a revelarem as linhas graciosas de Agnès, as sombras dançando no rosto fino, a penumbra acentuando as curvas da cintura e das coxas e a protuberância dos seios firmes que se insinuavam sob o vestido creme. A baronesa estacou, olhando para ele, frágil, quase receosa, submissa até. Ele fitou-a, surpreendido. Agnès sorriu com timidez e doçura, aproximou- se com passos leves, olharam-se de perto, de coração palpitante, aos pulos, caíram um no outro, envolvendo-se num abraço, beijaram-se timidamente, depois com sofreguidão.

Afonso começou pela face, desceu para os lábios, descobriu-os húmidos e fofos, penetrou-a com a língua, a boca era doce, quente, acolhedora, encontrou aí um sabor melífluo que o deixou inebriado, bêbado de prazer, perdido numa dimensão que não sabia existir, como se o tivessem arrancado da realidade e o elevassem à eternidade, Afonso era uma andorinha e Agnès o céu, ela um lago, ele um nenúfar. Sentiu o veludo macio dos grossos lábios vermelhos a recebê-lo com paixão e soube então, nesse preciso instante, como se de uma revelação se tratasse, que esses mesmos lábios de mel eram o seu fado, que aquela boca quente se fizera para ser a sua casa, que aquela mulher terna nascera para ser o seu destino.

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O desejo cresceu, tornou-se irresistível, arrebatador, incontrolável, a respiração pesada, ofegante, ela sentiu as pernas fraquejarem, tombou na cama e perdeu-se nos lençóis. O capitão lambeu- lhe a orelha direita, desceu para o pescoço e depois, tirando-lhe os seios para fora da camisa de noite, percorreu os mamilos erectos com a língua, chupou-os e lambeu-os, eram rosados e arrebi-tados. Meteu a mão por baixo do vestido de dormir, ajudou-a a tirar as calcinhas e acariciou-a entre as pernas. Depois, quando a verificou muito húmida, tirou as calças do pijama e procurou-lhe a entrada.

“Doucement”, sussurrou ela.

Afonso penetrou-a com suavidade. Sentiu-se inebriado, era como se tivesse mergulhado num delicioso pote de mel, infinitamente doce, quente e húmido, tão saboroso que até salivou. Agnès fechou os olhos, gemeu, deitou a cabeça para trás e experimentou-o dentro de si, abrindo-a, explorando-a. Sem que Afonso o esperasse, ela rodopiou e rolou para cima dele, dominando-o. O capitão nunca vira uma mulher colocar-se sobre si, nem as desavergonhadas meninas das Travessas, em Braga, alguma vez o tinham feito. Passada a surpresa inicial, aceitou a dominação, considerou-a mais uma coisa excitante que esta francesa lhe ensinava. Ela cavalgou-o com entusiasmo, o ventre dançando para cima e para baixo, por vezes acariciando-o com a ponta dos dedos. Quando sentia a ejaculação a aproximar-se, apertava-lhe as mãos.

“Pára! Pára”, implorava-lhe.

Ela imobilizava-se, paciente, até a lava que o queimava recuar de man-sinho, e depois recomeçavam, sempre beijando-se e acariciando-se. Minutos mais tarde, ela deitou-se e voltou ele para a posição dominante. Sentiu o corpo ganhar velocidade e ritmo, tomando conta de si, cavalgando autonomamente com crescente intensidade, mais rápido e mais rápido, até não mais se conseguir conter e soltar a erupção com um urro, sentir o corpo explodir e gemer de prazer, ao mesmo tempo que ela se agitava por baixo de si num orgasmo mais prolongado. Todos os músculos se retesaram, atingiram um pico de tensão e, passada a onda alucinante, descontraíram-se de imediato. A respiração readquiriu gradual normalidade, uma indescritível sensação de bem-estar encheu-lhes a alma de paz e adormeceram nos braços um do outro.

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VI

A luz era, nessa manhã, límpida e suave. O sol espalhou uma claridade gelada pelo manto branco intermitente que cobria a paisagem agreste das trincheiras. Dezembro trouxera os nevões e um frio glaciar, mais gelado quando o céu se abria num azul puro, como hoje, pedaços de flocos amontoados aqui e ali, como se estivessem ao abandono, pequenas poças de neve derretida nas crateras e nas fossas das ranhuras rasgadas na terra por entre parapeitos e onde se amontoavam as toupeiras humanas. A vegetação jazia queimada, pelo gelo ou pelo fogo de guerra. As árvores, nuas, carbonizadas e mutiladas, erguiam-se como espectros teimosamente de pé naquela terra revolvida pelo aço e pela morte.

A tranquila placidez da paisagem alva criava a ilusão, agradável mas perigosa, de que ali não havia guerra, impressão intensificada pelas novas sensações que tinham entrado de rompante no mundo do capitão Afonso Brandão e que coloriam a sua nova perspectiva da vida. A intensa noite com Agnès e a cumplicidade que se estabelecera entre os dois amantes, cumplicidade cimentada nos fugazes encontros que tiveram nos quatro restantes dias de descanso do oficial, trouxeram-lhe um outro estado de espírito. De certo modo, o capitão receava agora ainda mais as semanas de trincheiras, mas, ao mesmo tempo, e apesar de um mal disfarçado sentimento de culpa por estar a relacionar-se com a mulher de outro homem, a perspectiva do regresso ao descanso apresentava-se mais luminosa, cheia de promessas, de encantos proibidos, de prazeres despertados, de emoções arrebatadas.