manhã em que se reconciliaram e a coisa ficou resolvida, havia necessidade de uma pessoa que fizesse o atendimento aos cidadãos franceses que contactavam o CEP por isto ou por aquilo, e Agnès foi preencher a vaga. O problema é que Afonso foi de imediato enviado para as trincheiras e o seu amigo tenente mostrava pela bela recém-chegada uma inusitada atenção. Tornara-se crescentemente claro que Trindade não lhe manifestava toda aquela gentileza por mero sentido de dever para com Afonso, havia antes um evidente e indisfarçável interesse do rapaz. O tenente passara os últimos dias a visitar a sala de dactilografia, sempre com pretextos para conversa, e das falas galantes passara agora aos convites melosos.
“Nem quer ir ao cinematógrafo comigo?“, insistiu ele, após uma pausa embaraçada.
“Seria fantástico, mas não posso. “
“Não sabe o que perde. Vão mostrar um filme de Max Linder que é de rir até às lágrimas e depois a Joana d'Arc com a Geraldine Farrar. “
“Prefiro a Sarah Bernhardt”
“Também gosto. Mas olhe que a Farrar tem uma belíssima voz, dizem que, na ópera, é magnífica. “
“Não interessa que ela tenha uma grande voz”, riu-se Agnès. “O filme é mudo. “
“Com efeito”, reconheceu Trindade, um rubor a subir-lhe à cara. “Mas venha, vai gostar. “
“Obrigada, mas não posso. “
“Mas porquê? Tem alguma coisa assim de tão importante para fazer? “
“Alphonse chega esta noite. “
O tenente Trindade Ranhoso sentiu o golpe, forçou um sorriso, murmurou uma desculpa imperceptível e, irritado, deu meia-volta e saiu da sala de dactilografia. Divertida com esta reacção, Agnès riu-se baixinho e regressou ao envelope que abrira havia alguns minutos. Era um agricultor de Lestrem a protestar porque os soldados lhe haviam roubado todas as maçãs que tinha amontoado numa carroça junto ao mercado e exigia agora uma compensação. A francesa tomou nota da queixa num formulário próprio e endereçou o assunto ao major Ezequiel, o encarregado das questões entre o CEP e os civis. Agnès sorriu ao pensar nos francos que teriam de ser desembolsados para pagar por estes furtos.
Pelo volume de queixas que recebia, verificou que o roubo de comida era comum entre os soldados, em especial batatas e nabos. Mas muitos furtavam também roupas interiores, como camisolas, ceroulas e meias, especialmente de lã, e ainda luvas, coletes, impermeáveis, botas de borracha, tudo o que os pudesse proteger do frio e da lama.
301
Quando Agnès se preparava para abrir o envelope seguinte, o tenente Trindade espreitou pela porta e interrompeu-a.
“M dame “, chamou.
“ Sim?”
“Está ali uma senhora para si. “
“ Para mim?”
“Quer dizer, não é bem para si”, atrapalhou-se o oficial. “É uma civil e acho que é melhor ser você a falar com ela. “
Agnès levantou-se, intrigada, e seguiu Trindade até à porta de entrada da mansão.
Um soldado tapava o acesso, e do lado de fora vinham uns gritos histéricos em francês, era uma rapariga claramente perturbada. Agnès aproxi-mou-se, o soldado deixou-a passar e ela deu com a rapariga lavada em lágrimas.
“O que se passa, mademoiselle?“
Vendo uma francesa à frente, a rapariga acalmou ligeiramente, embora tremesse de nervosismo.
“Vou-me matar, m'dame.“
“Disparate. Venha daí e conte-me o que tem. “
Agnès agarrou a rapariga pelos ombros e levou-a para a sala de dactilografia.
Trindade, desconfortável com a situação, optou por ficar para trás, detestava cenas de choradeira feminina.
“Então conte lá como se chama e o que a apoquenta”, disse-lhe Agnès quando a rapariga se instalou numa das várias cadeiras vazias da sala.
“Chamo-me Germaine e trabalho no 183, a papelaria da madame Fas. “ Pausa.
“E o que se passa? “
“Vou ter um filho. “
“Ah bom”, percebeu Agnès. “Tem a certeza? “
“Sim, foi o que o doutor Roche me disse. “
“E o pai é um soldado português. “
“Sim”, assentiu, baixando a cabeça.
“ E onde está ele?”
“Não sei, desapareceu. “ Germaine agarrou a mão de Agnès com força desesperada.
“Tem de me ajudar a encontrá-lo m'dame. Tenho de casar com ele. Se não me casar, o meu pai mata-me. Eu própria me mato. “
“Tenha calma. Quem é ele? “
302
“ Chama-se Carlos. “
Agnès levantou-se, foi à porta e espreitou.
“Senhor tenente, por favor. O senhor... “ “Cesário, por favor. Chame-me Cesário. “
“Perdão. Cesário. O senhor conhece algum soldado chamado Carlos? “
“Carlos quê? “
Agnès olhou para trás e repetiu a pergunta a Germaine, que abanou a cabeça, não conhecia outro nome, apenas aquele. A baronesa voltou a encarar o tenente Trindade.
“ Só Carlos. “
“Há milhares de Carlos no CEP, m'dame. Sabe ao menos a que batalhão pertence esse Carlos? “
Germaine não sabia. Agnès agradeceu ao tenente e voltou para junto da rapariga, explicando-lhe que, sem qualquer identificação mais precisa, seria impossível localizar o rapaz, Carlos era tão comum entre os portugueses como Charles entre os franceses.
Germaine tapou o rosto com as mãos e chorou desconsoladamente. Agnès tentou animá-la e para a convencer de que algo seria feito tomou nota da ocorrência, endereçando- a ao major Ezequiel. Dez minutos depois acompanhou Germaine à porta e viu-a partir, abatida, desesperada, entregue ao seu destino.
“Isto é muito comum”, comentou negligentemente o tenente Trindade, encostado à porta a acabar um cigarro. “Ainda na semana passada tivemos aqui uma velha corcunda, avó de uma outra rapariga, a insultar-nos a todos. “ Largou uma baforada de fumo. “Que bruxa, irra! “
Agnès ouviu-o em silêncio, simulou um sorriso ténue e retirou-se. Voltou à sua secretária, mas já não foi capaz de prosseguir o trabalho. Sentia-se cansada e deprimida e desejou ardentemente o reencontro com Afonso, que mais logo, se Deus quisesse, viria das trincheiras.
A Brigada do Minho abandonou as primeiras linhas na noite de 28 de Dezembro, substituída pela 2.a Brigada da 1. a Divisão.
Infantaria 8 recebeu ordem de marcha e partiu de Ferme du Bois II, ao abrigo da escuridão, até Upton Road, virou à direita na Queen's Mary Road, passou por Senechal Farm, em Lacouture, cruzou o canal La Lawe até Vieille Chapelle, atingiu a linha férrea em Zelobes e estacionou em Paradis South, em plena linha das aldeias. Depois de acompanhar os homens até às suas posições de descanso, Afonso foi à brigada levantar a licença que lhe tinha sido prometida por Trindade. Com o documento na mão, seguiu, muito fatigado, para o Hôtel Métropole, em Merville.
303
Agnès estava havia duas horas sentada no sofá da recepção à sua espera, ansiosa e nervosa, com o coração nas mãos e muitos medos a corroerem-lhe a alma. Teria tudo corrido bem? Estaria ele são e salvo? E se aconteceu algo nesta última semana e ninguém disse nada? Trincou as peles das unhas e sentiu o estômago doer- lhe, a ansiedade que a consumia contrastava com o seu aspecto sofisticado. A francesa embelezara-se com primor para o receber condigna-mente, mostrava-se exuberante num vestido malva de mousseline de soie e perfumada, como sempre, com os deliciosos aromas de L'heure bleue. Quando, por fim, o viu entrar no foyer do hotel, enlameado e de olhar vidrado e fatigado, grandes olheiras escuras a ensombrarem-lhe o rosto sujo, saltou-lhe para os braços, feliz e aliviada, ele voltara vivo e isso era tudo o que interessava. O abraço foi intenso, mas o cheiro nauseabundo exalado pelo capitão levou-a a abreviar a expansividade.