“Estou esfaimado”, confessou-lhe o capitão ao ouvido, sentindo-se fraco.
“Sim”, sorriu Agnès, fazendo uma careta por causa do odor fedorento que ele libertava. “Mas primeiro um banho. “
Afonso resistiu, queria comer. A francesa ordenou um jantar aos empregados e aproveitou para lhes pedir que primeiro aquecessem água. Uma vez esta entregue no quarto dentro de um grande jarro, ela própria despiu o português e colocou-o na banheira, sentando-o na longa bacia em ferro fundido assente em pés com forma de garra, despejou-lhe a água quente no corpo e esfregou-o com sabão de mel, incluindo na zona genital, o que o despertou do torpor da fadiga, provocando-lhe uma erecção e fazendo-o lançar-lhe um olhar malicioso.
“Agora não”, disse Agnès com um sorriso que era, na verdade, uma pro-messa, quem diz “agora não” deixa subentendido que “depois sim”, o brando pas maintenant da francesa continha o gérmen de um ardente oui.
Foi nessa mesma noite que, pela primeira vez, Agnès teve a verdadeira noção de que os homens, ao regressarem das primeiras linhas, vêm uns autên-ticos animais. Quando saiu do banho, Afonso agarrou-se a ela, ainda molhado de água, mas o som de alguém a bater na porta obrigou-o a travar o comboio em marcha, o que não foi fácil. Agnès foi à porta e uma empregada entregou-lhe um tabuleiro com o jantar e ficou com a farda imunda do capitão, mais as cuecas e as meias, para lavar, e as botas para engraxar. A refeição era um cassoulet de cordeiro que Afonso, sentado na cama, devorou sofregamente com a ajuda de um pain de campagne, enchendo o pão com as salsichas, o feijão e a carne do cassoulet e regando abundantemente a refeição com um vin ordinaire, um tinto seco satisfatoriamente saboroso. Agnès encontrava-se impressionada com a voracidade com que o português atacava o prato, parecia que não comia havia alguns dias. Enquanto engolia o cassoulet, 304
Afonso não conversava e apenas emitia uns grunhidos de apreciação. Arrotou no final, enfartado, pôs o tabuleiro no chão e, tremendo de antecipação, arrancou apressadamente o vestido de mousseline de Agnès e penetrou-a sem demora, com abandono, com urgência, ela por baixo ainda mal lubrifi cada, ele logo a urrar, depressa o seu corpo acalmou, veio o silêncio, ela deixou-se ficar durante alguns segundos, sentiu a respiração do homem tornar-se profunda, ouviu um ronco, admirou-se, seria o que ela estava a pensar? Puxou-lhe a cabeça e constatou, decepcionada e já sem surpresa, que ele dormia como uma pedra.
Afonso esteve quinze horas mergulhado num sono profundo. Agnès passou toda a manhã só, vendo-o ressonar pesadamente. Por vezes ele agitava-se, conturbado. Falava sozinho e chegou a dar um grito. Nessas alturas a francesa aconchegava-o e beijava-o, sussurrava-lhe “tout va bien, tout va bien” enquanto lhe passava os dedos pelo cabelo castanho e acalmava o sono agitado. Agnès encomendou o almoço e comeu junto à janela, determinada a não perturbar o descanso do soldado, não havia dúvida de que ele tinha vindo exausto, le petit pauvre.
O capitão só acordou a meio da tarde, os olhos inchados de sono e sujos de ramela preta, era a poeira das trincheiras que as pálpebras expulsavam. Foi lavar a cara e atirou-se ao que restava do almoço, um canard d'orange servido com arroz, nada ralado com o facto de o prato estar frio, a isso já ele se habituara havia muito. Com ar descansado, mostrou-se bem mais falador do que na véspera, fazendo perguntas sobre o que se tinha passado durante a semana.
“Esse Natal? “
“Senti-me só, fizeste-me falta”, lamentou-se Agnès. “E o teu? “Nem quero falar nisso”, indicou Afonso, com um gesto nervoso. “Bombardeámos os boches na véspera de Natal e eles responderam à granada e com tiros de morteiro no dia 25. Morreram três homens e houve uma dezena de feridos. “
“Lamento”, balbuciou a francesa, afagando-lhe o cabelo.
“C'est la guerre”, comentou o capitão, com um resignado encolher de ombros enquanto engolia mais um pedaço do seu suculento canard.
“Sabes que tiveste um sono muito agitado? “
“ Eu?”
“Sim, tu. Lembras-te do que sonhaste? “
“Não”, disse ele, trincando o pato. “Não me lembro. “ “Foi com a guerra “
“Não me lembro. “
“ Costumas sonhar com a guerra?”
Afonso suspirou.
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“Sim, isso costumo. Tenho muitos pesadelos “
“Que tipo de pesadelos? “
“Sei lá, sonho com a morte de soldados que conheço, sonho que fico mutilado, sem pernas e sem braços, sonho que me mandam avançar pela terra de ninguém e que não consigo correr, as pernas pesam-me como chumbo, sonho que vou matar um boche e descubro que ele é o meu pai. É esse tipo de sonhos. “
“Hum”, murmurou Agnès, pensativa. “Todos os teus sonhos estão relacionados com a guerra? “
“Sim, creio que sim. “
“Todos? “ “Todos. “
“Tens de ter cuidado”, aconselhou-o. “Esses pesadelos concentrados num único tema indiciam que estás num processo de desenvolver um trauma emocional. Isso pode ter consequências a prazo. “
“Olha lá, estás a fazer-me uma consulta de psicanálise, é? “ “Não, Alphonse. Estou a ajudar-te. “
Afonso beijou-a.
“És amorosa”, sorriu. “Mas não há nada que eu possa fazer, não posso chegar ao pé do major Montalvão, o meu comandante, e dizer-lhe: ó major, tire-me lá da guerra que eu já ando a ter pesadelos. Isso não é possível. “
“Mas tens de ter cuidado contigo, ouviste? Percebo que não possas impe-dir-te de estares na guerra, é evidente que isso não depende de ti, mas deves saber gerir as tuas emoções. Por exemplo, o processo de colocar em palavras os sentimentos dolorosos contribui para diminuir o sofrimento psíquico. Além do mais, é importante que compreendas o significado dos teus sonhos, dos teus sentimentos e dos teus pensamentos, isso ajuda-te a resolver esses traumas que estás a desenvolver. “
“Sim, senhora doutora”, retorquiu, fazendo continência. “Oh, lá estás tu na brincadeira, não se pode falar a sério contigo. “Pronto, pronto”, disse, conciliador. “Não te preocupes, meu amor, lembra-te de que eu agora trabalho sobretudo na área administrativa.“
Agnès franziu o sobrolho.
“Olha lá, mon mignon, existe mesmo trabalho administrativo nas primeiras linhas? “
“Então não existe? Há imensa papelada de relatórios, abastecimentos, logística, é um inferno de burocracia “ Afonso mexeu-se na cama, novamente desconfortável por estar a mentir sobre as suas funções nas trincheiras, e decidiu afastar-se daquele tema o mais 306
depressa possível. “A propósito de burocracia, como é que te deste no quartel-general de St. Venant? “
“Assim assim.“
“O Trindade Ranhoso tratou-te bem? “
“Não me queixo”, devolveu ela, decidida a não relatar os avanços do tenente em relação a si, não queria ser fonte de atritos entre homens. “Mas acho que vou tentar outra coisa, penso que posso ser mais útil noutro sítio.
“Ah é? “, surpreendeu-se Afonso, as palavras abafadas, tinha a boca cheia porque estava a trincar um pedaço de peito de pato. “Onde? “
“Tenho andado a pensar que é minha obrigação aplicar os conhecimentos que adquiri em medicina. “