"Terra if fin, de terrors tight, Sabbath fore, Christ nite."
"Jesus Christ!”, exclamou Bellamy. "Sabe que eu já li isso? O nosso homem em Teerã mandou-nos esse poema há uma ou duas semanas."
"Pois, fui eu quem lhe deu o texto."
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"São uns versos sombrios, não acha? Parece o anúncio do Apocalipse..."
"Parece, não parece?"
"O que quer que Einstein tenha inventado, deve dar uma explosão dos diabos!", adiantou. "Damn it! Vamos ter mesmo de intervir militarmente."
"Bem, mas eu já decifrei a mensagem escondida nestes versos."
"Conte-me."
Tomás passou os olhos pelas linhas em baixo, com o texto transcrito para alemão.
"Descobri que se tratava de um anagrama. Por dentro do poema em inglês encontra-se uma mensagem em alemão."
"Ah, sim? Isso é muito interessante."
"A mensagem diz o seguinte." Parou um instante, para se ajustar ao sotaque alemão. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht."
Fez-se uma nova pausa do outro lado da linha.
"Pode repetir?", pediu Bellamy, a voz alterada.
"Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht", voltou Tomás a ler. "Isto quer dizer o seguinte." Procurou a linha com a tradução. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."
"Isso é incrível!", exclamou Bellamy.
Tomás estranhou o entusiasmo do seu interlocutor.
"Bem, é de facto surpreendente..."
"Surpreendente? Isso... isso é uma coisa muito estranha! Ainda me custa a acreditar."
"Pois, é uma frase um pouco misteriosa, é. Sabe, talvez nós..."
"Você não está a entender", cortou o homem da CIA. "Eu já ouvi essa frase da boca do próprio Einstein."
"Como?"
"Em 1951, durante o encontro em Princeton com o então primeiro-ministro de Israel, Einstein proferiu exatamente essa frase. Eu estava lá e ouvi tudo." Uma pausa.
"Uh... deixe cá ver... devo... devo ter isso por aqui." Ouviram-se uns ruídos na linha e, instantes depois, a voz rouca de Bellamy voltou. "Ora aqui está."
"O quê?"
"Tenho aqui a transcrição da conversa de Einstein e Ben Gurion. A determinada altura, a conversa entre os dois virou para alemão. Deixe cá ver..." Sons de páginas a serem reviradas. "Deixe cá ver..." Mais páginas. "Ora aqui está. Quer ouvir?"
"Sim, sim."
"Disse Einstein." Bellamy afinou a voz. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boshaft ist er nicht." Mudou o tom. "Ao ouvir isto, Ben Gurion perguntou." Mais uma pausa.
"Was wollen Sie damit sagen?” Nova mudança de tom. "E Einstein respondeu." Outra pausa. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.”
"O que diabo quer isso dizer?"
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"Tenho aqui a tradução. Einstein disse." Mudou mais uma vez o tom de voz, como se imitasse o cientista. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."
"Isso já eu sei."
"Calma. Ao ouvir essa frase, Ben Gurion perguntou-lhe." Voltou a mudar o tom de voz, agora a imitar o antigo primeiro-ministro de Israel. "O que quer o senhor dizer com isso?" Nova pausa. "Einstein respondeu." Mudança de sotaque. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.' '
Tomás sentiu-se explodir de ansiedade.
"Sim, já percebi. Mas o que quer isso dizer?"
Frank Bellamy sorriu, divertido por fazer esperar o português e por acicatar a sua curiosidade. Pousou de novo os olhos na tradução e leu enfim a frase final proferida cinquenta e cinco anos antes por Albert Einstein.
"A Natureza esconde o seu segredo devido à sua essência majestosa, nunca por ardil."
XXII
Ao ver Coimbra emergir à esquerda da auto-estrada, como um castelo erguido sobre uma montanha de cal, Tomás Noronha sentiu-se à beira de gritar de alívio. A velha cidade resplandecia ao lado do Mondego, cortejada por um sol alegre e pela aragem amena que deslizava pelo rio; as fachadas brancas e os telhados cor de tijolo do casario emprestavam-lhe um certo toque familiar, acolhedor, quase como se o burgo fosse a sua casa. Na verdade, percebeu, em nenhum sítio se sentia tão bem como ali, era aquele o seu lar, era como se aquela terra e aquelas casas lhe abrissem os braços para o acolherem num aconchego protector de mãe.
O recém-chegado tinha passado os últimos dias em viagem. Primeiro atravessou o mar Cáspio em direção a norte, até aportar em Baku. Na capital do Azerbaijão, Mohammed tratou de lhe arranjar um lugar no primeiro Tupolev que voava com destino a Moscovo, para onde seguiu de imediato. Pernoitou num belo hotel do centro da cidade, junto ao Kremlin, e abandonou a capital russa na manhã seguinte.
Atravessou toda a Europa até aterrar em Lisboa, ao princípio da tarde desse dia. Em circunstâncias normais teria ido direito para casa, já tinha tido a sua conta, vinha exausto e com os nervos no limite, mas havia o problema do estado de saúde do pai e estava fora de questão não o ir ver imediatamente.
Ainda no aeroporto de Lisboa comprou um postal e remeteu-o a Ariana com uma mensagem simples. Anunciou-lhe que tinha chegado em segurança, mandou-lhe saudades e assinou Samot, o seu nome ao contrário, um pequeno truque de criptanalista para o caso de aquele correio vir a ser interceptado pela VEVAK ou por qualquer outro dos vários poderes vigentes no Irã.
Em bom rigor, sabia que teria em breve de se dedicar ao problema de Ariana. A iraniana permanecia presente no seu espírito, sobretudo depois daquilo que fizera para o libertar, um ato que, percebeu Tomás, só podia ter um significado. Era uma prova de amor. Desde que a deixara para trás que as suas feições perfeitas lhe 157
enchiam os sonhos, a memória assaltada por aqueles magnéticos olhos cor de caramelo, os lábios sensuais entreabrindo-se melancolicamente como pétalas carmesim iluminadas pelo sol; a ternura brotada do seu rosto fino invadia-lhe os sentidos, as formas esguias do corpo alto e esbelto enchiam-no de voluptuoso desejo, mas do que mais sentia falta era das conversas embaladas ao ritmo melódico da sua voz tranquila. A verdade, constatou sem surpresa, a verdade é que tinha saudades de Ariana, habituara-se à sua doce companhia, cultivara o gosto de lhe cheirar o perfume e sentir a presença serena, aquela era uma mulher com a qual seria capaz de falar até perder a noção do tempo, até os minutos se fazerem horas, até as palavras se tornarem beijos.
Mas ainda era cedo para decidir o que fazer com os seus sentimentos por Ariana.
A prioridade, para já, era ver o pai. Depois teria ainda de resolver um outro problema, o da CIA. Tomás sabia que precisava de arranjar maneira de cortar com a sua indesejada ligação à agência americana, encontrava-se farto de joguinhos e de se ver reduzido a um mero instrumento nas mãos de gente sem escrúpulos.
Era hora de se tornar de novo senhor de si mesmo.
Graça Noronha soltou um guincho quando abriu a porta e viu o filho sorrir-lhe.
"Tomás!", gritou, abrindo os braços. "Já voltaste!"
Abraçaram-se.
"Está tudo bem, mãe?"
"Vai-se andando", disse ela. "Entra, filho, entra."
Tomás invadiu a sala.
"O pai?"
"O teu pai foi ao hospital para o tratamento. Daqui a bocado devem estar a trazê-
lo."
Acomodaram-se ambos no sofá.
"Como é que ele anda?"
"Menos revoltado, coitadinho. Houve uma altura em que andava impossível.
Isolava-se um pouco e, quando abria a boca, era para protestar contra tudo e contra todos. Dizia que o doutor Gouveia não prestava para nada, que os enfermeiros eram uns brutos, que o Chico da Pinga é que devia ter apanhado a doença... enfim, um martírio!"