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"Desculpe, mas eu..."

"Estou a ser claro?"

"Sim... uh... só que eu..."

"Você ouça-me e ouça-me bem", rugiu o americano, muito agreste, quase soletrando as palavras. "Você vai desempenhar o seu papel até à perfeição. Nem lhe vou explicar o que lhe irá acontecer se hesitar mais um momento que seja. Mas que fique bem claro que o quero a trabalhar neste caso a cem por cento, ouviu?"

"Bem... uh...."

"Ouviu?"

Tomás sentiu-se derrotado, o tom agressivo do homem da CIA não lhe deixava qualquer margem de manobra.

"Sim."

"E outra coisa", acrescentou, sempre feroz. "Nós estamos numa corrida contra-relógio. Precisamos de saber exatamente o que diz o manuscrito, para podermos atuar. Se você demorar muito tempo a deslindar a chave do documento, não teremos outra alternativa que não seja avançar e contactar a sua amiga. O fato é que ela sabe coisas que nós precisamos de saber. A segurança nacional do meu país está em causa e não olharei a meios para a salvaguardar, entendeu? Utilizaremos todos os métodos que forem necessários para lhe extrair a informação de que necessitamos. E quando eu digo todos os métodos, quero mesmo dizer todos, incluindo aqueles que você está a pensar." Fez uma pausa, como quem não tem mais nada para dizer. "Portanto, eu aconselhá-lo-ia a despachar-se."

Desligou sem mais.

Tomás ficou um longo instante a olhar para o telemóvel mudo nas mãos, reconstituindo a conversa, avaliando as suas opções. Depressa concluiu que não as tinha e só lhe ecoava na mente uma única expressão para caracterizar Frank Bellamy.

"Filho da puta."

162

Um enfermeiro trouxe Manuel Noronha a casa. O pai de Tomás veio cansado, após mais uma sessão de radioterapia, e foi deitar-se. A mulher levou-lhe uma sopa ao quarto e, enquanto comia, viu o filho abeirar-se da cama.

Para preencher o silêncio, apenas interrompido pelo som do pai a comer a sopa, Tomás relatou-lhe parte do que vira em Teerão, omitindo, como era natural, a sua verdadeira missão na capital iraniana e os acontecimentos dos últimos dias. Quando acabou, a conversa divagou inevitavelmente para a doença. O matemático terminou a sopa e, na altura em que a mulher saiu do quarto, pediu ao filho para se aproximar e fez-lhe uma confissão.

"Fiz um pacto", murmurou, quase conspirativo.

"Um pacto? Que pacto?"

Manuel espreitou a porta e pôs o indicador diante dos lábios.

"Chiu", soprou. "A tua mãe não sabe de nada. Nem ela, nem ninguém."

"Está bem, eu não digo nada."

"Fiz um pacto com Deus."

"Com Deus? Mas o pai nunca acreditou em Deus..."

"E não acredito", confirmou o matemático. "Mas fiz na mesma um pacto com Ele, não se vá dar o caso de Ele existir mesmo, não é?"

Tomás sorriu.

"Bem pensado."

"Então é assim. Prometi fazer tudo o que os médicos me mandarem fazer. Tudo.

Em troca, só lhe peço que me deixe viver até eu ter um novo neto."

"Oh, pai."

"Ouviste? Portanto, toca a pôr os pés ao caminho, arranjar uma miúda jeitosa e, pimba, fazeres-lhe um filho. Não quero morrer sem ver o meu neto."

Tomás controlou a careta aborrecida que lhe apeteceu fazer nesse momento. O

facto é que o pai estava doente e não o podia contrariar por causa de uma coisa daquelas.

"Pronto, está bem, eu vou ver se trato do assunto."

"Prometes?"

"Prometo."

Manuel respirou fundo e deixou cair a cabeça para trás, como se o tivessem libertado de um fardo.

"Ainda bem."

Fez-se silêncio.

"O pai como está?"

"Como é que haveria de estar?", murmurou o paciente, a cabeça enterrada na almofada. "Tenho uma doença a consumir-me as entranhas e não sei se vou viver uma semana, um mês, um ano ou dez anos. Isto é horrível!"

"Tem razão, é horrível."

163

"Às vezes acordo com a esperança de que tudo isto não tenha passado de um pesadelo, de que, ao acordar, descubra que afinal está tudo bem. Mas, ao fim de alguns segundos, percebo que não foi

nenhum pesadelo, é a realidade." Abanou a cabeça. "Não sabes como isso custa, acordar com esperança e perdê-la logo a seguir, como se alguém estivesse a brincar connosco, dando-nos o futuro num momento e tirando-o logo a seguir, como se a vida fosse um brinquedo e eu uma criança. Há manhãs que dou comigo a chorar..."

"Não fique triste..."

"Como, não fico triste? Então estou no processo de perder tudo, de perder toda a gente de quem gosto, e não posso ficar triste?"

"Mas o pai está sempre a pensar nisso, é?"

"Não, só às vezes. Há algumas manhãs em que penso na morte, mas esses instantes são mais excepcionais. A verdade é que, na maior parte do tempo, procuro sobretudo concentrar-me na vida. Enquanto viver, tenho sempre a esperança de viver, percebes?"

"Há que pensar positivo, não é?"

"É isso. Da mesma maneira que não conseguimos estar sempre a olhar para o sol, também não conseguimos estar sempre a pensar na morte."

"Além do mais, pode ser que se arranje uma solução."

O pai olhou-o com um brilho singular.

"É isso, pode ser que aconteça alguma coisa", exclamou. "Nos momentos de maior desespero, agarro-me sempre a esse pensamento." Fez uma pausa. "Sabes qual é o meu sonho?"

"Hmm."

"Eu estou nos Hospitais da Universidade de Coimbra e o doutor Gouveia senta-se ao meu lado e diz: professor Noronha, tenho aqui um novo medicamento que acabou de chegar da América e que parece estar a dar um resultadão por lá. Quer experimentar?" Calou-se, os olhos vidrados no infinito, como se vivesse esse sonho nesse mesmo instante. "Ele dá-me o medicamento e, dias depois, vamos fazer um TAC

e ele aparece à minha frente aos gritos: desapareceu! A doençadesapareceu! As metástases sumiram-se!" Sorriu. "É esse o meu sonho."

"Pode acontecer."

"Pois pode. Pode acontecer. Aliás, o doutor Gouveia contou-me que há muitas histórias assim, relativas a doenças que antes não tinham cura. Pessoas à beira do fim experimentaram um medicamento novo e, tumba, ficaram boas enquanto o diabo esfrega um olho." Bocejou. "Já aconteceu."

Fez-se silêncio.

"O pai há pouco falou em Deus."

"Sim."

"Mas o pai é um homem de ciência, um matemático, e nunca acreditou que Deus existisse.

Agora, no entanto, já faz pactos com Ele..."

"Bem... uh... em bom rigor, é preciso dizer que eu não posso assegurar que Deus existe ou que não existe. Digamos que sou agnóstico, não tenho certezas sobre a Sua existência ou inexistência."

164

"Porquê?"

"Porque não conheço provas da existência de Deus, mas, sabendo o que sei sobre o universo, também não tenho a certeza de que Ele não exista." Tossiu. "Sabes, há uma parte de mim que é atéia. Sempre me pareceu que Deus não passa de uma criação humana, de uma maravilhosa invenção que nos conforta e que preenche convenientemente lacunas do nosso conhecimento. Por exemplo, uma pessoa vai a passar numa ponte e a ponte cai. Como ninguém sabe por que razão a ponte caiu, todos atribuem esse fato à vontade divina." Encolheu os ombros, imitando um ar resignado. "Foi Deus que fez isso." Tossiu. "Mas hoje, com os nossos conhecimentos científicos, já sabemos que a ponte caiu, não devido a um acto de Deus, mas porque houve erosão nos materiais, ou erosão no solo, ou peso a mais para aquela estrutura, enfim, há uma explicação verdadeira que não tem origem divina. Percebes? É isto o que se chama o Deus-das-lacunas. Quando ignoramos algo, invocamos Deus e a coisa fica explicada, quando, na verdade, existem outras explicações mais verdadeiras, embora possamos não as conhecer."