Kazemi esboçou uma expressão impaciente.
"Ouça, aconselho-o a não brincar comigo, ouviu?"
225
"Eu não estou a brincar consigo. Que eu saiba, os únicos que andam para aqui a brincar são vocês!"
"Então o que está você aqui a fazer?"
"Eu? Eu estou aqui porque vocês me sequestraram, ora essa! Aliás, exijo ser imediatamente..."
"O que está você aqui a fazer no Tibete?", cortou o iraniano, redireccionando a pergunta.
"Ah", entendeu Tomás. "Bem... uh... vim à procura do rasto do professor Siza, claro." Fez um ar resignado. "Mas se vocês o mataram, acho que já encontrei a minha resposta, não é?"
"E por que razão veio ao Tibete procurar o professor Siza? Porquê o Tibete?"
Tomás hesitou, interrogando-se sobre o que poderia contar ao homem do VEVAK.
"Porque... porque me apercebi de que ele mantinha contactos com o Tibete."
"Que contatos?"
"Uh... não sei."
"Você está a mentir. Que contatos?"
"Não sei, já lhe disse. Estou a tentar descobrir."
"E o que vai fazer?"
"Eu? Eu já não vou fazer nada. Que eu saiba, o professor Siza morreu."
"Sim, mas onde o iria tentar localizar?"
"Já tentei."
"Onde?"
"No Potala, pouco antes de vocês me sequestrarem."
"Porquê o Potala?"
"Porque... uh... porque encontrei em casa dele um postal do Tibete com a imagem do Potala."
"Onde está esse postal?"
"Deixei-o... deixei-o em Coimbra."
Era mentira, claro. Trouxera-o para o Tibete, mas felizmente o postal ficara com Jinpa, quando o foi visitar ao templo de Jokhang, pelo que não havia agora maneira de os iranianos terem acesso a essa correspondência.
"E quem lhe remeteu esse postal?"
"Não sei", voltou a mentir. "O postal vinha em branco."
O coronel fitou-o com ar desconcertado.
"Mas, então, o que o levou a pensar que o postal podia ter alguma relação com o paradeiro do professor?"
"O fato de vir do Tibete. Achei estranho, só isso. Como não dispunha de nenhuma outra pista, pareceu-me que valia a pena explorar esta."
226
"Hmm", murmurou Kazemi, tentando encaixar as peças deste complicado puzzle.
"Não estou convencido com a sua explicação. Quer dizer, ninguém vem para um sítio tão remoto e inacessível como o Tibete só com base num vago palpite, não é?"
O prisioneiro rolou os olhos com ar de enfado e respirou fundo, como se a sua paciência tivesse chegado enfim ao limite.
"Ouça lá, não acha que está na hora de pôr fim a esta estúpida encenação?"
"O que quer você dizer com isso?"
"O que eu quero dizer é que vocês têm de encarar a realidade."
O iraniano mirou-o sem perceber.
"Como assim?"
"O manuscrito de Einstein. Vocês ainda não perceberam que ele não é o que vocês pensam que é?"
"Ah, não? Então?"
"O manuscrito não tem nada a ver com armas atômicas."
"Então tem a ver com quê?"
Tomás estendeu-se no tapete tibetano de barriga para cima e assentou a nuca nas mãos entrelaçadas por detrás da cabeça, parecia estar na praia a apanhar sol.
Cerrou as pálpebras, como se gozasse um calor imaginado, e, pela primeira vez, deixou um largo sorriso brilhar-lhe no rosto.
"Tem a ver com algo muito mais importante do que isso."
XXXI
A manta deixada pelos iranianos na cela revelava-se largamente insatisfatória para o proteger do gelo que assentara com brutalidade durante a noite. Tomás encolheu-se o mais que pôde por baixo da manta, assumindo a posição fetal, mas o calor que o seu corpo gerava e que o tecido grosso lograva reter era manifestamente insuficiente para compensar o frio que o fazia tremelicar sem controlo.
Percebendo que assim não conseguiria adormecer, o prisioneiro pôs-se a fazer flexões com os braços e, depois, com as pernas; era um esforço desesperado para gerar mais calor e que se revelou parcialmente bem sucedido. Sentiu-se mais quente quando parou, pelo que se deitou de novo, encolheu-se na manta e tentou adormecer.
Minutos volvidos, porém, o frio voltou a atacar e Tomás tomou consciência de que jamais iria adormecer com tranquilidade; sempre que o gelo apertasse, teria de voltar às flexões, era a única maneira de conseguir aguentar a noite. Paciência, pensou.
Dormiria depois do sol nascer, quando a parca luz do dia aquecesse a cela. O
problema é que os iranianos deveriam voltar por essa altura e uma nova sessão de interrogatório não se afigurava como a melhor forma de recuperar de uma noite em branco.
Clique, dique.
O som da chave na fechadura surpreendeu Tomás. Não sentira a aproximação de passos lá fora, era como se alguém se tivesse acercado furtivamente, em bicos de pés, e só agora, ao introduzir a chave na porta, denunciasse a sua presença.
227
Claque.
A porta abriu-se e Tomás ergueu a cabeça, tentando identificar o visitante. Mas tudo permanecia escuro e o desconhecido viera sem lanterna.
"Quem é?", perguntou, sentando-se no tapete tibetano.
"Chiu."
O som foi soprado com urgência, mas num tom doce que achou familiar. Inclinou a cabeça, arregalou os olhos num esforço para captar o mais pequeno pormenor perceptível e tentou adivinhar o vulto que cruzava a porta.
"Ariana?"
"Sim", sussurrou a voz feminina. "Não faça barulho."
"O que se passa?"
"Não faça barulho", implorou num sopro. "Venha comigo. Vou tirá-lo daqui."
Tomás não precisou de ouvir esta promessa segunda vez. Pôs-se de pé num pulo e observou o vulto com atenção, expectante.
"E os outros?"
Sentiu o toque suave da mão de Ariana.
"Chiu", insistiu ela, a voz sempre muito baixa, era quase apenas o rumorejar de uma expiração. "Venha comigo. Mas em silêncio."
A mão quente de Ariana entrelaçou-se-lhe entre os dedos e puxou-o em direcção à porta. O prisioneiro deixou-se guiar pela escuridão, ambos caminhando muito devagar, quase tacteando na treva, mas sempre procurando evitar o barulho. Subiram umas escadas, passaram por um pátio, meteram por um corredor aquecido e saíram por uma porta.
Tomás sentiu o ar frio da noite bater-lhe no rosto e viu finalmente luz. Um poste de iluminação pública emitia uma claridade amarelada que deixava antever os contornos da estrada, da vegetação em redor e de um jipe escuro. Estavam ao ar livre.
Ariana voltou a puxá-lo e conduziu-o na direcção do jipe. Destrancou as portas e fez sinal a Tomás para entrar.
"Depressa", murmurou. "Despache-se antes que eles acordem."
Saíram daquele setor ainda noite cerrada, deambulando pelas ruas poeirentas de Lhasa, o piso iluminado pelos faróis do jipe e pelos escassos postes públicos da cidade. Tomás voltou a cabeça para trás e pareceu-lhe tudo calmo, ninguém os seguia.
A carga do jipe chamou-lhe a atenção; viam-se jerry cans com combustível, dois garrafões de água e uma caixa, aparentemente com mantimentos. Tudo aquilo tinha ar de ser uma fuga cuidadosamente planificada.
O jipe guinou para a direita e meteu para oeste, algures na direção do aeroporto, afastando-se assim do centro da cidade.
"Para onde vamos?", quis saber.
"Para já vamos sair da cidade. É demasiado perigoso ficar aqui."
"Espere", exclamou ele. "Tenho primeiro de ir ao hotel buscar as minhas coisas."
Ariana olhou-o com ar espantado.
228
"Tomás, você está louco? Quando eles se aperceberem de que nós desaparecemos, esse é o primeiro lugar para onde irão, o que pensa?" Voltou a fixar a estrada. "Aliás, um dos recepcionistas está a ser pago para nos informar sobre todos os seus movimentos. Nem pensar em voltar ao hotel."