Выбрать главу

"Um ditado Zen diz: se encontrares no caminho um homem que sabe, não digas nada, não fiques em silêncio." Fez uma pausa. "Não fiques em silêncio", repetiu. Olhou para Ariana e apontou para Tomás. "Abre-lhe a porta."

"Quer que eu lhe descreva a experiência Aspect?"

Tenzing sorriu.

"Outro ditado Zen diz: quando um homem comum acede ao conhecimento, é um sábio. Quando um sábio acede ao conhecimento, é um homem comum." Voltou a indicar Tomás. "Faz dele um homem comum."

Ariana dançou com os olhos entre os dois homens, tentando ordenar o raciocínio.

"A experiência Aspect... uh... quer dizer....", gaguejou. Mirou o tibetano como se pedisse instruções. "Não se pode relatar a experiência Aspect sem falar no Paradoxo EPR, não é?"

"Nagarjuna disse: a sabedoria é como um lago límpido e fresco, pode-se entrar por um lado qualquer."

"Então tenho de entrar pelo lado do Paradoxo EPR", decidiu Ariana. Voltou-se para Tomás.

"Lembras-te de eu te ter contado que a física quântica previa um universo indeterminista, em que o observador faz parte da observação, enquanto a Relatividade preconizava um universo determinista, em que o papel do observador é irrelevante para o comportamento da matéria. Lembras-te disso, não é?"

"Claro."

254

"Ora bem, quando essa inconsistência se tornou clara, começaram os esforços para conciliar os dois campos. Presumia-se, e ainda se presume, que não pode haver leis discrepantes em função da dimensão da matéria, umas para o macrocosmos e outras diferentes para o microcosmos. Tem de haver leis únicas. Mas como explicar as divergências entre as duas teorias? O problema suscitou uma série de debates entre o pai da relatividade, Albert Einstein, e o principal teórico da física quântica, Niels Bohr.

Para demonstrar que a interpretação quântica era absurda, Einstein focou um pormenor muito bizarro da teoria quântica: o de que uma partícula só decide a sua posição quando é observada. Einstein, Podolski e Rosen, cujas iniciais formam EPR, formularam então o seu paradoxo, baseado na ideia de medir dois sistemas separados, mas que tinham estado previamente unidos, para ver se eles tinham comportamentos semelhantes quando observados. Os três propuseram o seguinte: coloquem-se os dois sistemas em caixas, posicionadas em pontos diferentes de uma sala ou até a muitos quilômetros de distância, abram-se as caixas em simultâneo e meçam-se os seus estados internos. Se o seu comportamento for automaticamente idêntico, então isso significa que os dois sistemas conseguiram comunicar um com o outro instantaneamente. Ora, isto é um paradoxo. Einstein e os seus apoiantes observaram que não pode haver transferência instantânea de informação uma vez que nada anda mais depressa do que a luz." "E o que é que o físico quântico respondeu?"

"Bohr? Bohr respondeu que, se se pudesse fazer essa experiência, verificar-se-ia que havia, de fato, comunicação instantânea. Se as partículas subatômicas não existem até serem observadas, argumentou, então não poderão ser encaradas como coisas independentes. A matéria, disse, faz parte de um sistema indivisível."

"Um sistema indivisível", ecoou Tenzing. "Indivisível como a realidade última de Brahman. Indivisível como o real unificado por fios invisíveis da Dharmakaya.

Indivisível como a unidade do Tao do qual deriva o múltiplo. Indivisível como a essência derradeira da matéria, o uno de que todas as coisas e todos os acontecimentos não são senão manifestações do mesmo, a realidade única com diferentes máscaras."

"Calma", contrapôs Tomás. "Isso é o que dizia a física quântica. Mas Einstein pensava de maneira diferente, não é?"

"Sem dúvida", assentiu Ariana. "Einstein achava que esta interpretação era absurda e considerava que o Paradoxo EPR, se pudesse ser testado, o demonstraria."

"O problema é que esse paradoxo não pode ser testado..."

"No tempo de Einstein, não podia", disse a iraniana. "Mas, logo em 1952, um físico da Universidade de Londres chamado David Bohm indicou que havia uma maneira de testar o paradoxo. Em 1964 coube a outro físico, John Bell, do CERN de Genebra, a tarefa de demonstrar

esquematicamente como levar a cabo a experiência. Bell não fez o teste, que só viria a ser concretizado em 1982 por Alain Aspect e uma equipa de Paris. É uma experiência complicada e difícil de explicar a um leigo, mas foi de fato efetuada."

"Os franceses testaram o paradoxo?"

"Sim."

"E então?"

Ariana olhou furtivamente para Tenzing antes de responder à pergunta de Tomás.

"Bohr tinha razão."

255

"Não percebo", disse o historiador. "Tinha razão, como? O que revelou a experiência?"

Ariana respirou fundo.

"Aspect descobriu que, sob determinadas condições, as partículas comunicam automaticamente entre si. Essas partículas sub-atómicas podem até estar em pontos diferentes do universo, umas numa ponta do cosmos e outras noutra, mas a comunicação é instantânea."

O historiador fez um ar incrédulo.

"Isso não é possível", disse. "Nada viaja mais depressa do que a luz."

"É o que diz Einstein e a Teoria da Relatividade Restrita", devolveu a iraniana.

"Mas Aspect provou que as micropartículas comunicam instantaneamente entre si."

"Não haverá qualquer engano nesses testes?"

"Nenhum engano", assegurou a iraniana. "Novas experiências efectuadas em 1998, em Zurique e Innsbruck, usando técnicas mais sofisticadas, confirmaram tudo."

Tomás coçou a cabeça.

"Isso quer dizer que as teorias da Relatividade estão erradas?"

"Não, não, elas estão certas."

"Então como se explica esse fenômeno?"

"Só há uma explicação", disse Ariana. "Aspect confirmou uma propriedade do universo. Ele verificou experimentalmente que o universo tem ligações invisíveis, que as coisas estão relacionadas entre si de um modo que não se suspeitava, que a matéria possui uma organização intrínseca que ninguém imaginava. Se as micropartículas comunicam entre si à distância, isso não se deve a nenhum sinal que estejam a enviar umas às outras. Isso deve-se simplesmente ao fato de que elas constituem uma entidade única. A sua separação é uma ilusão."

"As micropartículas são uma entidade única? A sua separação é uma ilusão? Não estou a perceber..."

Ariana olhou em redor, tentando imaginar a melhor maneira de explicar o sentido das suas palavras.

"Olha, Tomás", disse, agarrando-se a uma idéia. "Já viste alguma vez uma transmissão televisiva de um jogo de futebol?"

"Já, claro."

"Numa transmissão televisiva há, por vezes, várias câmaras apontadas ao mesmo tempo ao mesmo jogador, não é? Quem estiver a ver as imagens de cada câmara e não souber a forma como a coisa funciona, poderá pensar que cada câmara capta um jogador diferente. Numa vê-se o jogador a olhar para a esquerda, na outra vê-se o mesmo jogador a olhar para a direita. Se a pessoa não conhecer esse jogador, seria capaz de jurar que se tratava de jogadores diferentes. Mas, olhando com mais atenção, percebe-se que sempre que o jogador faz um movimento para um lado, o jogador que está na outra imagem faz instantaneamente o movimento correspondente, embora para o outro lado. Isso resulta, claro, de uma ilusão. Na verdade, as duas câmaras mostram sempre o mesmo jogador, só que de ângulos diferentes. Percebeste?"

"Sim. Tudo isso é evidente."

256

"Pois foi uma coisa parecida que a experiência Aspect mostrou em relação à matéria. Duas micropartículas podem estar separadas pelo universo inteiro, mas quando uma se mexe, a outra mexe-se instantaneamente. Penso que isso acontece porque, na verdade, não se trata de duas micropartículas diferentes, mas da mesma micropartícula. A existência de duas é uma ilusão, da mesma maneira que a existência de dois jogadores em câmaras posicionadas em ângulos diferentes é uma ilusão. Nós estamos sempre a ver o mesmo jogador, nós estamos sempre a ver a mesma micropartícula. A um nível profundo da realidade, a matéria não é individual, mas uma mera