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representação de uma unidade fundamental."

Fez-se silêncio.

Tenzing pigarreou.

"A variedade de coisas e acontecimentos que vemos e sentimos à nossa volta são diferentes manifestações da mesma realidade", murmurou o budista em tom contemplativo. "Tudo está relacionado por fios invisíveis. Todas as coisas e todos os acontecimentos não passam de diferentes rostos da mesma essência. O real é o uno do qual deriva o múltiplo. É isso Brabman, é isso Dharmakaya, é isso Tao. Os textos sagrados explicam o universo." Fechou os olhos e inspirou o ar, numa postura meditativa. "Está escrito na Prajnaparamita, o poema de Buda sobre a essência de tudo."

Começou a recitar, como se entoasse um mantra sagrado:

"Vazia e calma e livre de si

É a natureza das coisas.

Nenhum ser individual

Na realidade existe.

Não há fim nem princípio,

Nem meio.

Tudo é ilusão,

Como numa visão ou num sonho.

Todos os seres do mundo

Estão para além do mundo das palavras.

A sua natureza última, pura e verdadeira,

É como a infinidade do espaço."

Tomás observou-o de olhos arregalados, ainda algo incrédulo.

"Foi assim que Buda descreveu a essência das coisas?", admirou-se. "É

inacreditável."

O bodhisattva encarou-o com serenidade.

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"Chou Chou disse: o Caminho não é difícil, basta que não haja querer ou não querer." Fez um gesto na direção do seu visitante. "Os professores abrem a porta, mas tens de entrar sozinho."

Tomás ergueu a sobrancelha.

"É este o momento de eu entrar?"

"Sim."

Fez-se novo silêncio.

"O que devo então fazer?"

"Entrar."

O historiador olhou para o budista com uma expressão desconcertada.

"Entrar?"

"Um ditado Zen diz: apanha o cavalo vigoroso do teu espírito", declamou Tenzing.

Sorriu. "Para a sua viagem, porém, tenho uma merenda que lhe confortará o estômago do espírito."

"Uma merenda?"

"Sim, mas primeiro vamos ao chá. Tenho sede."

"Espere", exclamou Tomás. "Que merenda é essa?"

"É A Fórmula de Deus."

"Ah!", exclamou o historiador. "Ainda não me explicou o que isso é."

"Não tenho feito outra coisa senão explicar-lhe. Você ouviu-me, mas não me entendeu."

Tomás corou.

"Uh..."

"Um dia, Einstein veio ter comigo e com o jesuíta e disse-nos: falei com o primeiro-ministro de Israel e ele fez-me um pedido. Tive muita relutância em aceitar o pedido, mas aceito agora e quero que vocês me ajudem neste projeto."

"Ele disse-lhe isso? Ele pediu-vos para colaborarem na... na construção de uma bomba atômica simples?"

O bodhisattva contraiu o rosto, surpreendido.

"Bomba atômica? Qual bomba atômica?"

"O projeto A Fórmula de Deus não é sobre a bomba atômica?"

Tenzing mirou Tomás com perplexidade.

"Claro que não."

Tomás olhou de imediato para Ariana e constatou que ela partilhava o seu alívio.

"Vês?", sorriu ele. "O que te dizia eu?"

A iraniana inclinou-se para a frente, como se assim pudesse apreender melhor tudo o que era dito. Já tinha lido o manuscrito e movia-a uma imensa curiosidade em percebê-lo finalmente. Além disso, dispunha de uma motivação adicional; ela sabia que aquela informação era crucial para travar a perseguição que o VEVAK

inevitavelmente lhe iria fazer, a si e a Tomás. Mas não lhe bastava saber a verdade; 258

tinha também de a provar. Foi por isso que encarou o tibetano com a ansiedade desenhada no rosto.

"Mas, então, explique-me", quase implorou. "O que é afinal o projeto A Fórmula de Deus?"

"Shunryu Suzuki disse: quando compreenderes totalmente uma única coisa, compreendes tudo."

"Compreender o que é A Fórmula de Deus significa compreender tudo?"

"Sim."

"Mas qual é o tema de A Fórmula de Deus?"

Tenzing Thubten ergueu a mão, deslizou-a lentamente pelo ar, esboçando num gracioso movimento de ginástica chinesa, e voltou a imobilizar-se. Respirou a brisa que pairava sobre o pátio do templo e sentiu o calor aprazível dos raios de sol filtrados pelas folhas das árvores. Fez sinal a um monge que passava e pediu-lhe chá. Depois recolheu-se ao seu espaço e encarou os visitantes.

"É a maior busca jamais empreendida pela mente humana, a demanda do mais importante enigma do universo, a revelação do desígnio da existência."

Tomás e Ariana observavam-no, expectantes, incapazes quase de reprimirem a ansiedade. O bodhisattva percebeu a angústia que os sufocava e sorriu, disposto enfim a deslindar o segredo.

"A prova científica da existência de Deus."

XXXIV

Um monge aproximou-se com uma bandeja e, chegando junto da árvore, fez uma vênia e distribuiu chávenas pelos três. O budista pegou no bule e despejou um líquido quente em cada chávena, de maneira que logo todas elas começaram a fumegar.

Tomás analisou o chá e, sentindo-lhe o odor característico, teve de virar a cara para o lado de modo a disfarçar a careta de repulsa.

"Chá de manteiga de iaque", constatou, trocando um olhar desanimado com Ariana.

"Temos de aguentar", sussurrou a iraniana dissimuladamente. "Tem paciência."

Os dois visitantes mal conseguiam conter a exasperação. Sentiam-se tremendamente excitados com as revelações que tinham acabado de escutar e queriam conhecer mais pormenores sobre o invulgar trabalho que o tibetano desenvolvera com Einstein. Em vez disso, viam-se obrigados a ingerir aquela nojenta mistela untuosa.

"Mestre", insistiu Tomás, ainda sem se atrever a provar o chá. "Explique-nos em que consiste A Fórmula de Deus."

O anfitrião calou-o com um gesto majestoso.

"Shunryu Suzuki disse: no espírito do principiante há muitas possibilidades, mas estas são poucas no espírito do sábio."

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"O que quer dizer com isso?", perguntou Tomás, sem perceber qual a relevância desta afirmação naquele contexto.

"Se vocês forem sábios, saberão que há um momento para tudo", indicou Tenzing. "Este é o momento para o chá."

O visitante mirou a sua chávena com ar desalentado, não se achava capaz de tomar aquela zurrapa sebosa. Deveria dizer alguma coisa? Ou deveria engolir e permanecer calado? Se rejeitasse o chá, estaria a quebrar a etiqueta tibetana? Haveria um modo específico de o fazer? Como proceder afinal?

"Mestre", decidiu-se. "Não tem mais nada para além deste... uh... do chá?"

"E o que deseja que não seja chá?"

"Não sei... não tem nada para comer? Confesso que, depois da grande viagem de hoje, sinto alguma fome." Mirou Ariana. "Tu também tens fome?"

A iraniana fez que sim com a cabeça.

O bodhisattva emitiu uma ordem em tibetano e o monge volatilizou-se de imediato. Tenzing permaneceu calado, a sua atenção fixada na chávena como se o chá fosse, naquele instante, a única coisa importante em todo o universo. Tomás ainda tentou sondá-lo com algumas perguntas sobre o que aconteceu em Princeton, mas o anfitrião pareceu ignorá-lo e apenas quebrou o mutismo uma única vez.