— Lan me vê como eu sou, Vandene. Uma Aes Sedai. E ainda como amiga, espero.
— Vocês, Azuis! Sempre tão prontas para salvar o mundo que perdem a si mesmas.
Depois que a Aes Sedai de cabelos brancos saiu, Moiraine pegou seu manto e, resmungando sozinha, foi para o jardim. Havia algo no que Vandene dissera que a incomodava, mas ela não lembrava o que era. Uma resposta, ou uma pista para uma resposta, a uma pergunta que ela não fizera, mas que também não conseguia lembrar.
O jardim era pequeno, como a casa, mas dava para ver que era bem cuidado mesmo ao luar, apenas com o auxílio do brilho amarelado das janelas do chalé mostrando os caminhos de areia entre canteiros de flores bem preservados. Ela afrouxou o manto nos ombros, para protegê-la da brisa fresca da noite. Qual era a resposta, e qual a pergunta?
Ouviu um som de alguém pisando na areia logo atrás de si e se virou, pensando que era Lan.
Uma sombra se assomava a apenas alguns passos dela; uma sombra que parecia ser um homem alto demais e envolto em seu manto. Mas o luar iluminou seu rosto pálido e com bochechas magras e olhos negros grandes demais acima de uma boca pequena e repuxada de lábios vermelhos. O manto se abriu, desdobrando-se em grandes asas, como as de um morcego.
Sabendo que era tarde demais, ela se abriu para saidar, mas o Draghkar começou a emitir um som melodioso, cujo zumbido baixo a tomou por completo, vencendo sua vontade. Saidar escapou. Ela sentiu apenas uma vaga tristeza ao dar um passo na direção da criatura, pois o cantar melodioso e profundo que a atraía mais para perto reprimia o sentimento. Mãos muito, muito brancas se estendiam na direção dela. Pareciam com as mãos de um homem, mas tinham garras nas pontas. E lábios da cor de sangue se curvaram na paródia de um sorriso, revelando dentes afiados, mas tão pouco, tão pouco, que ela sabia que não morderiam nem arrancariam um pedaço. Tema o beijo do Draghkar. Assim que aqueles lábios a tocassem, ela estaria praticamente morta, teria sua alma sugada, e, depois, a própria vida. Quem a encontrasse, ainda que chegasse no instante em que o Draghkar a deixasse cair no chão, veria um cadáver sem marcas, frio, como se estivesse morto havia dois dias. E se chegassem antes de ela ter morrido, encontrariam coisa pior, e que não seria mais ela, de fato. O som melodioso a puxou para o alcance daquelas mãos pálidas, e a cabeça do Draghkar se abaixou lentamente em sua direção.
Ela sentiu apenas a menor das surpresas quando a lâmina de uma espada faiscou sobre seu ombro e perfurou o peito do Draghkar, e apenas um pouco mais quando uma segunda passou por cima de seu outro ombro para atingir o ponto ao lado do primeiro.
Aturdida e cambaleante, ela assistiu como se de muito longe à criatura ser empurrada para trás, para longe dela. Lan apareceu em seu campo de visão, depois Jaem. Os braços ossudos do Guardião de cabelos grisalhos seguravam sua espada com tanta força e firmeza quanto os do mais jovem. As mãos pálidas do Draghkar se encheram de sangue quando tentaram arrancar o aço afiado, e ele bateu as asas em desespero, produzindo estalidos altos como trovões com os quais tentava atingir os dois homens. De repente, ferido e sangrando, ele começou a emitir seu murmúrio melodioso outra vez. Para os Guardiões.
Com dificuldade, Moiraine reuniu suas forças. Ela se sentia quase tão sem energia quanto se a criatura a tivesse beijado. Não tenho tempo para ser fraca. Em um instante, ela se abriu para saidar e, quando o Poder a preencheu, fortaleceu-se para tocar o Filho das Sombras. Os dois homens estavam próximos demais, qualquer coisa que fizesse os machucaria junto com a criatura. Mesmo usando o Poder Único, ela sabia que se sentiria profanada pelo Draghkar.
Mas, assim que começou, Lan gritou:
— Abrace a morte!
Jaem repetiu com firmeza:
— Abrace a morte!
E os dois homens avançaram para o alcance do toque do Draghkar e cravaram as lâminas até o cabo.
Jogando a cabeça para trás, a criatura soltou um urro, um grito agudo que pareceu perfurar a cabeça de Moiraine com agulhas. Mesmo envolta em saidar, ela podia senti-lo. Como uma árvore caindo, o Draghkar tombou para a frente, uma das asas derrubando Jaem e o fazendo cair de joelhos. Lan desabou, como se estivesse exausto.
Lampiões chegaram, apressados, de dentro da casa, trazidos por Vandene e Adeleas.
— Que barulho foi esse? — indagou Adeleas. Ela era quase idêntica à irmã. — Por acaso Jaem veio aqui fora e… — A luz do lampião iluminou o Draghkar, e ela parou de falar.
Vandene pegou as mãos de Moiraine.
— Ele não…? — Ela deixou a pergunta no ar. Aos olhos de Moiraine, uma nuvem negra a cercava. Sentindo a força fluir das outras mulheres para dentro dela, Moiraine desejou, não pela primeira vez, que Aes Sedai pudessem fazer por si mesmas o que faziam pelos outros.
— Não — respondeu, agradecida. — Cuidem dos Gaidin.
Lan olhou para ela com a boca rígida.
— Se você não tivesse me deixado tão zangado a ponto de ir praticar as formas com Jaem, tão zangado que acabei desistindo para voltar para dentro…
— Mas deixei — respondeu. — O Padrão leva tudo isso em conta ao tecer.
Jaem estava resmungando, mas permitiu que Vandene cuidasse de seu ombro. O homem era só osso e tendões, mas parecia duro como raízes velhas.
— Como — indagou Adeleas — uma criatura da Sombra pode chegar tão perto sem que a sentíssemos?
— A criatura tinha um selo de proteção — respondeu Moiraine.
— Impossível — retrucou Adeleas. — Só uma irmã poderia… — Ela hesitou, e Vandene tirou os olhos de Jaem e virou-se para a Aes Sedai mais jovem.
Moiraine disse as palavras que nenhuma delas queria ouvir.
— A Ajah Negra. — Gritos vieram da aldeia. — É melhor esconder isso — disse, indicando o Draghkar, caído sobre um canteiro de flores —, e rápido. Eles virão perguntar se você precisa de ajuda, mas ver esta criatura aqui iniciará uma conversa da qual você não vai gostar.
— Sim, é claro — respondeu Adeleas. — Jaem, vá ao encontro deles. Diga que você não sabe o que fez esse ruído, mas que está tudo bem por aqui. Atrase-os. — O Guardião de cabelos grisalhos correu noite adentro, indo em direção ao som dos aldeões que se aproximavam. Adeleas se virou para estudar o Draghkar, como se aquilo fosse uma passagem intrigante em um de seus livros. — Independente de terem Aes Sedai envolvidas ou não, o que poderia tê-lo trazido aqui?
Vandene olhou para Moiraine em silêncio.
— Receio que preciso deixá-las — disse Moiraine. — Lan, pode preparar os cavalos? — Ao sair, acrescentou: — Deixarei cartas com vocês para serem enviadas à Torre Branca, se puderem cuidar disso.
Adeleas assentiu, distraída, sua atenção ainda na criatura morta no chão.
— E você encontrará suas respostas no lugar para onde está indo? — perguntou Vandene.
— Pode ser que eu já tenha encontrado uma resposta que não sabia que estava procurando. Só espero não estar atrasada. Precisarei de pena e pergaminho. — Ela puxou Vandene consigo para dentro da casa, deixando que Adeleas cuidasse do Draghkar.
23
O Teste
Bem abaixo da Torre Branca, Nynaeve examinou a imensa câmara com desconfiança, e olhou de soslaio para Sheriam, que estava ao seu lado, com a mesma desconfiança. A Mestra das Noviças parecia olhá-la com expectativa, talvez até um pouco de impaciência. Em seus poucos dias em Tar Valon, Nynaeve vira apenas serenidade nas Aes Sedai, e uma aceitação sorridente de que as coisas aconteciam em seu próprio tempo.