O aposento com teto abobadado era escavado direto da rocha da ilha. A luz de lampiões pendurados bem alto refletia nas paredes de pedra branca e lisa. Embaixo da cúpula, bem no centro, havia um artefato formado por três arcos de prata arredondados, com altura suficiente para uma pessoa passar por baixo deles. As bases dos arcos se tocavam, interligadas por um círculo de prata, compondo uma mesma peça. Ela não conseguia ver o que havia do lado de dentro, pois a luz ali cintilava de um modo estranho e a deixava enjoada quando olhava diretamente por muito tempo. No ponto em que as bases dos arcos se interligavam, havia uma Aes Sedai sentada de pernas cruzadas sobre a pedra nua do piso, com o olhar fixo na peça de prata. Mais outra estava ali perto, ao lado de uma mesa simples, sobre a qual repousavam três grandes cálices de prata. Cada um deles, Nynaeve sabia, ou pelo menos era o que lhe disseram, estava cheio de água límpida. Todas as quatro Aes Sedai usavam seus xales, assim como Sheriam. Franjas azuis para a Mestra das Noviças, vermelhas para a mulher morena próxima à mesa, verde, branca e cinza para as outras três ao redor dos arcos. Nynaeve ainda usava um dos vestidos que ganhara em Fal Dara, verde-claro com pequenas flores brancas bordadas.
— Primeiro você me deixa olhando para as paredes o dia inteiro — murmurou Nynaeve —, e agora é tudo uma correria.
— O tempo não espera mulher alguma — respondeu Sheriam. — Há de ser o que a Roda tecer, e quando a Roda tecer. Paciência é uma virtude que deve ser aprendida, mas todas devemos estar prontas para a mudança num instante.
Nynaeve tentou não fuzilá-la com o olhar. A coisa mais irritante que ela já descobrira a respeito da Aes Sedai de cabelos de fogo era que ela às vezes falava como se estivesse recitando citações, mesmo quando não estava.
— O que é isso?
— Um ter’angreal.
— Bem, isso não quer dizer nada para mim. O que ele faz?
— Ter’angreal fazem muitas coisas, criança. Assim como angreal e sa’angreal, são remanescentes da Era das Lendas que usam o Poder Único, embora não sejam tão raros quanto os outros dois. Alguns ter’angreal só funcionam com a ajuda de Aes Sedai, como este aqui, enquanto para outros basta a presença de uma mulher capaz de canalizar. Dizem até que existem alguns que funcionam com qualquer um. Ao contrário de angreal e sa’angreal, eles foram criados para fins específicos. Temos outro na Torre que reforça os elos dos juramentos. Quando você for elevada à condição de irmã completa, fará seus votos finais segurando esse ter’angreaclass="underline" não dizer uma palavra que não seja verdadeira; não criar uma arma que ajude um homem a matar outro; nunca usar o Poder Único como arma, exceto contra Amigos das Trevas e Filhos das Sombras, ou no caso extremo de precisar defender a própria vida, a de seu Guardião ou a de outra irmã.
Nynaeve balançou a cabeça. Parecia coisa demais para se jurar, ou coisa de menos, e foi o que disse.
— Antigamente, não se exigia que as Aes Sedai fizessem juramentos. Sabia-se o que as Aes Sedai eram e o que defendiam, e nada mais era necessário. Muitas de nós gostariam que isso ainda fosse dessa forma. Mas a Roda gira, e os tempos mudam. Por fazermos esses juramentos, por saberem que estamos vinculadas, as nações lidam conosco sem temer que usemos nosso poder, o Poder Único, contra elas. Fizemos essa escolha entre as Guerras dos Trollocs e a Guerra dos Cem Anos, e é por causa dela que Torre Branca ainda está de pé e que ainda somos capazes de fazer o que pudermos contra a Sombra. — Sheriam respirou fundo. — Luz, criança, estou tentando ensiná-la o que qualquer outra mulher que estivesse onde você está teria aprendido no decorrer de anos. Não pode ser feito. Você deve se preocupar com os Ter’angreal agora. Não sabemos por que eles foram feitos, ousamos utilizar apenas alguns deles, e de maneiras que podem não ter relação alguma com os objetivos iniciais de seus criadores. A maioria, aprendemos a evitar depois de sofrer as consequências. Ao longo dos anos, muitas Aes Sedai morreram ou exauriram seus Talentos antes de aprendermos a evitá-los.
Nynaeve ficou arrepiada.
— E você quer que eu entre nesses arcos? — A luz dentro dos arcos estava tremeluzindo menos, mas ainda não era possível ver o que havia ali dentro.
— Nós sabemos o que este aqui faz. Colocará você diante de seus maiores medos. — Sheriam sorriu de modo agradável. — Ninguém lhe perguntará o que você enfrentou. Você não precisará dizer mais do que desejar. Toda mulher é dona de seus próprios medos.
Nynaeve pensou em seu nervosismo com relação a aranhas, ainda mais no escuro, mas não achou que era sobre aquilo que Sheriam falava.
— É só entrar por um arco e sair pelo outro? Três vezes, e pronto?
A Aes Sedai ajustou seu xale com um puxão irritado no ombro.
— Se você quer resumir tanto assim, é isso — respondeu, muito seca. — Eu já lhe expliquei no caminho até aqui o que você precisa saber a respeito da cerimônia, pelo menos o tanto que alguém tem permissão de saber com antecedência. Se você fosse uma noviça, já saberia de cor. Mas não se preocupe em cometer erros. Eu a lembrarei, se for necessário. Tem certeza de que está pronta para encarar isso? Se quiser parar agora, ainda posso colocar seu nome no livro das noviças.
— Não!
— Muito bem, então. Vou lhe dizer duas coisas que nenhuma mulher ouve até entrar neste aposento. A primeira é: assim que começar, você terá que ir até o fim. Caso se recuse a prosseguir, não importa seu potenciaclass="underline" você será posta para fora da Torre com muita delicadeza e prata o bastante para sustentá-la por um ano, sem permissão para voltar, nunca mais. — Nynaeve abriu a boca para dizer que não recusaria, mas Sheriam a interrompeu com um gesto brusco. — Escute, e fale apenas quando souber o que dizer. Segundo: procurar se esforçar signi ica enfrentar o perigo. Aqui, você enfrentará algo perigoso. Algumas mulheres entraram e nunca saíram. Quando o ter’angreal se aquietou, elas… não estavam… lá. E nunca mais foram vistas. Se quiser sobreviver, precisa ser firme. Hesite, fracasse, e… — Seu silêncio foi mais eloquente do que qualquer palavra. — Esta é sua última chance, criança. Você pode recuar agora, neste instante, e eu colocarei seu nome no livro das noviças. Você terá apenas uma marca negativa. Terá permissão de vir até aqui mais duas vezes, e apenas na terceira recusa será expulsa da Torre. Não é uma vergonha recusar. Muitas o fazem. Eu mesma não consegui na primeira vez que vim aqui. Agora você pode falar.
Nynaeve olhou de relance para os arcos prateados. A luz neles não tremeluzia mais, e eles estavam repletos de um brilho branco e suave. Para aprender o que queria, ela precisava da liberdade de questionamento de uma Aceita, para estudar por conta própria, apenas com a orientação que solicitasse. Eu preciso fazer Moiraine pagar pelo que ela fez conosco. Eu preciso.
— Eu estou pronta.
Sheriam entrou na câmara devagar. Nynaeve foi ao seu lado.
Como se aquilo fosse um sinal, a irmã Vermelha falou em voz alta e formaclass="underline"
— Quem trazes contigo, Irmã?
As três Aes Sedai ao redor dos arcos continuaram com a atenção voltada para o ter’angreal.
— Alguém que se apresenta como candidata para a Aceitação, Irmã — respondeu Sheriam, com a mesma formalidade.
— Ela está pronta?
— Ela está pronta para deixar para trás o que era, e, ao passar por seus medos, ser Aceita.
— Ela conhece seus medos?
— Ela nunca os encarou, mas agora está disposta.
— Então que ela encare o que teme!
Sheriam parou a duas braças dos arcos, e Nynaeve parou com ela.
— Seu vestido — sussurrou Sheriam, sem olhá-la.