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— Aqui — disse a Aceita rispidamente, apontando para uma porta. Ela se chamava Pietra, e era uma mulher baixa e bem magra, um pouco mais velha que Nynaeve, que sempre falava com rispidez. — Este tempo lhe foi concedido porque é seu primeiro dia, mas eu a estarei esperando na cozinha quando o gongo soar as Altas, nem um instante depois.

Egwene fez uma mesura, mas mostrou a língua quando a Aceita se virou para ir embora. Apesar de Sheriam ter colocado seu nome no livro das noviças no dia anterior, a menina já sabia que não gostava de Pietra. Ela abriu a porta e entrou.

O aposento era pequeno e simples, com paredes brancas, e dentro dele, sentada em um dos bancos duros, havia uma moça cujos cabelos dourados levemente avermelhados caíam sobre os ombros. O chão não tinha tapetes: as noviças não costumavam circular por aposentos que os tivessem. Egwene julgou que a garota devia ter mais ou menos a sua idade, mas sua postura transmitia uma dignidade e uma autoconfiança que a faziam parecer mais velha. O vestido de noviça, de corte simples, parecia cair melhor nela. Ficava elegante. Era isso.

— Meu nome é Elayne — apresentou-se ela, então inclinou a cabeça, estudando Egwene. — E você é Egwene, de Campo de Emond, em Dois Rios. — Ela falou como se aquilo significasse alguma coisa, mas prosseguiu, sem parar: — Uma noviça que já está aqui há algum tempo é sempre designada para orientar uma recém-chegada durante alguns dias. Sente-se, por favor.

Egwene acomodou-se no outro banco, de frente para Elayne.

— Pensei que as Aes Sedai é que iriam me ensinar, agora que finalmente sou uma noviça. Mas, até então, tudo o que aconteceu foi Pietra me acordar umas duas horas antes do amanhecer e me mandar varrer os salões. Ela também disse que eu tenho que ajudar a lavar os pratos depois do jantar.

Elayne fez uma careta.

— Detesto lavar pratos. Nunca precisei… Bem, isso não importa. Você receberá treinamento. Na verdade, passará a treinar todos os dias nesta mesma hora, de agora em diante. Do café da manhã até as Altas, e depois do jantar até a Tríade. Se seu progresso for especialmente rápido ou lento, talvez a façam treinar do jantar até as Cheias, também, mas esse tempo costuma ser reservado para realizar mais tarefas. — Os olhos azuis de Elayne assumiram um ar pensativo. — Você nasceu assim, não nasceu? — Egwene assentiu. — Sim, pensei ter sentido isso. Eu também nasci assim. Não fique decepcionada caso não tenha percebido, você aprenderá a sentir a habilidade das outras mulheres. Eu tive a vantagem de crescer ao lado de uma Aes Sedai.

Egwene teve vontade de pedir explicações. Quem cresce com uma Aes Sedai? Mas Elayne continuou.

— E também não fique decepcionada se demorar um pouco até conseguir fazer alguma coisa. Com o Poder Único, quer dizer. Até mesmo a tarefa mais simples leva um tempo. Paciência é uma virtude que precisa ser aprendida. — Ela franziu o nariz. — Sheriam Sedai sempre diz isso, e ela dá o melhor de si para que todas nós aprendamos. Tente correr quando ela ordenar que ande e será levada ao gabinete dela em um piscar de olhos.

— Eu já tive algumas lições — comentou Egwene, tentando soar modesta. Ela se abriu a saidar, o que era mais fácil, agora, e sentiu o calor invadir seu corpo. Tentou fazer a coisa mais avançada que sabia. Esticou a mão, e uma esfera brilhante de pura luz se formou sobre sua palma. A esfera tremeluzia, pois a jovem ainda não conseguia manter seu brilho firme, mas estava lá.

Calma, Elayne também estendeu a mão, e uma bola de luz apareceu sobre sua palma. A dela também tremeluzia.

Depois de um instante, uma luz tênue brilhou ao redor de todo o corpo de Elayne. Egwene sobressaltou-se e sua bola desapareceu.

Elayne soltou um risinho, de repente, e sua luz também se apagou, tanto a da esfera quanto a outra que a cercava.

— Você viu a luz ao meu redor? — perguntou, empolgada. — Eu a vi envolvendo você. Sheriam Sedai disse que eu veria, uma hora ou outra. Foi a primeira vez. Para você também?

Egwene assentiu, rindo junto com a outra garota.

— Gostei de você, Elayne. Acho que vamos ser amigas.

— Eu também acho, Egwene. Você é de Dois Rios, de Campo de Emond. Conhece um rapaz chamado Rand al’Thor?

— Eu o conheço. — De súbito, Egwene lembrou-se de uma história que Rand havia contado, uma história na qual ela não acreditara, sobre como ele caiu de cima de um muro, foi parar em um jardim e conheceu… — Você é a Filha-herdeira de Andor — disse, sem fôlego.

— Sim — respondeu Elayne, com simplicidade. — Se Sheriam Sedai sequer me ouvisse mencionar isso, acho que me levaria para seu gabinete antes que eu terminasse de falar.

— Todas falam sobre ser chamada para o gabinete de Sheriam. Até mesmo as Aceitas. As reprimendas dela são tão ferozes assim? Ela me parece gentil.

Elayne hesitou, e, quando respondeu, falou bem devagar, sem olhar nos olhos de Egwene:

— Ela guarda uma vareta de salgueiro em sua mesa. Diz que, já que você não consegue aprender a seguir as regras de maneira civilizada, vai ensinar de outro jeito. Existem tantas regras para noviças que é muito difícil não quebrar algumas — concluiu.

— Mas isso… isso é horrível! Eu não sou uma criança nem você. Não serei tratada como uma.

— Mas nós somos crianças! As Aes Sedai, as irmãs completas, são as adultas. As Aceitas são as moças, velhas o bastante para serem deixadas sozinhas sem supervisão constante. E as noviças são as crianças, que precisam de alguém para protegê-las e cuidar delas, que precisam de orientação para seguir na direção certa e são castigadas quando fazem o que não deveriam. É assim que Sheriam Sedai explica. Ninguém vai castigá-la por causa das lições, a não ser que você tente algo que lhe disseram para não tentar. É di ícil não tentar, às vezes. Você vai se descobrir querendo canalizar tanto quanto quer respirar. Mas se quebrar pratos demais porque está sonhando acordada quando deveria estar lavando, for desrespeitosa com uma Aceita, sair da Torre sem permissão, falar com uma Aes Sedai antes que ela lhe dirija a palavra, ou… O que resta é fazer o melhor possível. Não há nada mais o que fazer.

— Quase parece que estão tentando nos fazer ir embora — protestou Egwene.

— Não estão, mas também estão. Egwene, há apenas quarenta noviças na Torre. Só quarenta, e não mais de sete ou oito vão se tornar Aceitas. Sheriam Sedai diz que isso não é o bastante. Ela diz que não existem Aes Sedai o bastante, agora, para fazer o que precisa ser feito. Mas a Torre não vai… não pode… baixar seus padrões de qualidade. As Aes Sedai não podem aceitar uma mulher como irmã se ela não tiver a habilidade, a força e o desejo. Elas não podem dar o anel e o xale a quem não conseguir canalizar o Poder bem o suficiente, a quem se deixar intimidar ou a quem der meia-volta quando o caminho ficar di ícil. Treinamento e testes cuidam da canalização, mas quanto à força e ao desejo… Bem, se você quiser partir, eles a deixarão ir. Assim que souber o bastante para não morrer de ignorância.

— Suponho — respondeu Egwene, lentamente — que Sheriam nos falou um pouco sobre isso. Mas nunca pensei que não existissem Aes Sedai suficientes.

— Ela tem uma teoria. Diz que fizemos uma seleção da humanidade. Você já ouviu falar de seleção? Tirar do rebanho os animais que têm características que você não gosta? — Egwene assentiu, impaciente. Ninguém crescia perto de ovelhas sem saber sobre essa seleção do rebanho. — Sheriam Sedai diz que, com a Ajah Vermelha caçando homens capazes de canalizar por três mil anos, acabamos excluindo a habilidade de canalizar da humanidade. Eu não mencionaria isso perto de uma Vermelha se fosse você. Sheriam Sedai já ficou aos gritos mais de uma vez por causa disso, e somos apenas noviças.