— Não vou mencionar.
Elayne fez uma pausa e, então, perguntou:
— Rand está bem?
Egwene sentiu uma pontada súbita de ciúmes — Elayne era muito bonita — que foi abafada por uma pontada maior ainda, de medo. Ela relembrou o pouco que sabia sobre o único encontro do rapaz com a Filha-herdeira, consolando-se: ela não tinha como saber que Rand podia canalizar.
— Egwene?
— Ele está tão bem quanto poderia — Espero que esteja, aquele idiota cabeça de lã. — Ele estava saindo em cavalgada com alguns soldados shienaranos da última vez em que o vi.
— Shienaranos! Ele me disse que era um pastor. — Ela sacudiu a cabeça. — Eu me pego pensando nele nos momentos mais estranhos. Elaida acha que, de algum jeito, ele é importante. Ela não disse isso, mas ordenou uma busca e ficou furiosa quando soube que ele já tinha saído de Caemlyn.
— Elaida?
— Elaida Sedai, conselheira da minha mãe. Ela é da Ajah Vermelha, mas, apesar disso, minha mãe parece gostar dela.
Egwene ficou com a boca seca. Uma Ajah Vermelha, e interessada em Rand.
— Eu… Eu não sei onde ele está agora. Ele foi embora de Shienar, e não acho que vá voltar.
Elayne lhe lançou um olhar neutro.
— Eu não diria a Elaida onde encontrá-lo, mesmo que soubesse, Egwene. Ele não fez nada de errado, pelo que sei, e receio que ela queira usá-lo de algum modo. De qualquer jeito, eu não a vi desde o dia em que chegamos, com Mantos-brancos no nosso encalço. Eles ainda estão acampando na encosta do Monte do Dragão. — Ela se levantou de um salto. — Vamos falar de coisas mais alegres. Há duas outras que conhecem Rand, e eu gostaria de lhe apresentar uma delas.
Ela pegou Egwene pela mão e a puxou para fora do aposento.
— Duas garotas? Rand parece conhecer um bocado de garotas.
— Hã? — Ainda puxando Egwene corredor abaixo, Elayne a analisou. — Sim. Bem. Uma delas é uma boba preguiçosa, seu nome é Else Grinwell, e acho que ela não vai durar muito tempo. Foge das tarefas e está sempre escapando para ver os Guardiões praticarem luta. Ela diz que Rand esteve na fazenda de seu pai com um amigo, Mat. Parece que mostraram a ela que existe um mundo além da próxima aldeia, e Else fugiu para se tornar uma Aes Sedai.
— Homens — resmungou Egwene. — Eu danço algumas músicas com um garoto legal, e o Rand fica de cara amarrada, mas ele…
Ela parou quando um homem entrou no salão, antes delas. Ao seu lado, Elayne também parou, e apertou sua mão com força.
Não havia nada de alarmante nele, exceto seu aparecimento súbito. Era alto e bonito, com cabelos compridos, escuros e encaracolados, mas andava encurvado e tinha um olhar triste. Ele não fez menção de se aproximar de Egwene e Elayne, apenas ficou ali parado, olhando para elas, até que uma das Aceitas surgiu ao seu lado.
— Você não deveria estar aqui — disse ela, quase em tom gentil.
— Eu queria passear. — A voz dele era grave, tão triste quanto seus olhos.
— Você pode passear no jardim, onde deveria estar. A luz do sol lhe fará bem.
O homem deu uma gargalhada amarga.
— Com duas ou três de vocês vigiando cada movimento meu? Vocês só estão com medo de que eu encontre uma faca. — Ao ver a expressão nos olhos da Aceita, ele voltou a rir. — Para usar em mim, mulher. Para usar em mim. Leve-me para seu jardim, de volta para seus olhos vigilantes.
A Aceita tocou o braço dele de leve e o levou para longe.
— Logain — disse Elayne, quando ele se foi.
— O falso Dragão!
— Ele foi amansado, Egwene. Não é mais perigoso do que qualquer outro homem, agora. Mas me lembro de tê-lo visto antes, quando foram necessárias seis Aes Sedai para evitar que ele usasse o Poder e destruísse a todas nós. — Ela estremeceu.
Egwene fez o mesmo. Era isso o que a Ajah Vermelha faria com Rand,
— Eles sempre precisam ser amansados? — perguntou. Elayne olhou fixamente para ela, de queixo caído, e a menina rapidamente acrescentou: — É só que achei que as Aes Sedai poderiam ter encontrado algum outro jeito de lidar com eles. Tanto Anaiya quanto Moiraine disseram que os maiores feitos da Era das Lendas exigiram homens e mulheres trabalhando juntos com o Poder. Só pensei que elas tentariam encontrar um jeito.
— Bem, não deixe uma irmã Vermelha ouvir você falando isso. Egwene, elas tentaram. Por trezentos anos, depois da construção da Torre Branca, elas tentaram. Elas desistiram porque não havia nada a fazer. Venha. Quero que você conheça Min. Não no jardim para onde Logain está indo, graças à Luz.
O nome soou vagamente familiar, e Egwene soube o porquê quando viu a jovem. Havia um riachinho no jardim em que entraram, com uma pequena ponte de pedra, e Min estava sentada de pernas cruzadas sobre a mureta da ponte. Ela vestia as calças justas e a camisa folgada de um homem e, com os cabelos curtos, quase podia se passar por um rapaz, embora um rapaz mais bonito do que o comum. Um casaco cinza estava ao seu lado, estendido na cumeeira.
— Eu conheço você — disse Egwene. — Você trabalhava na estalagem em Baerlon.
Uma brisa suave agitava de leve a água sob a ponte, e periquitos-cinzentos cantavam nas árvores do jardim.
Min sorriu.
— E você foi uma dos que levaram os Amigos das Trevas que a queimaram. Não, não se preocupe. O mensageiro que foi me buscar trouxe ouro suficiente para Mestre Fitch reconstruí-la com o dobro do tamanho. Bom dia, Elayne. Não está se matando de trabalhar no seu treinamento? Ou lavando panelas na cozinha?
As perguntas tinham um tom de brincadeira, como entre amigas, o que foi comprovado pelo sorriso que Elayne deu em resposta.
— Vejo que Sheriam ainda não conseguiu enfiar você em um vestido.
Min deu uma risada matreira.
— Eu não sou uma noviça. — Ela fez uma vozinha aguda. — Sim, Aes Sedai. Não, Aes Sedai. Posso varrer outro chão, Aes Sedai? — Voltou a falar com seu tom de voz normal, mais grave: — Eu me visto do jeito que quiser. — E virou-se para Egwene. — E Rand, está bem?
Egwene comprimiu os lábios. Ele devia ter chifres de carneiro, feito um Trolloc pensou, com raiva.
— Fiquei triste quando soube que sua estalagem pegou fogo, que bom que Mestre Fitch conseguiu reconstruí-la. Por que veio a Tar Valon? Está claro que você não quer ser uma Aes Sedai.
Min arqueou uma sobrancelha, em um gesto que Egwene tinha certeza de que indicava divertimento.
— Ela gosta dele — explicou Elayne.
— Eu sei. — Min olhou de relance para Egwene, que por um instante pensou ter visto uma expressão de tristeza… ou seria arrependimento? — Eu estou aqui — respondeu Min, com cuidado — porque foram me buscar, e eu pude escolher entre vir cavalgando ou amarrada dentro de um saco.
— Você sempre exagera — retrucou Elayne. — Sheriam Sedai viu a carta e disse que foi uma solicitação. Min vê coisas, Egwene. É por isso que ela está aqui, para que as Aes Sedai possam estudar como ela faz isso. Não é o Poder.
— Solicitação — disse Min com uma risadinha desdenhosa. — Quando uma Aes Sedai solicita sua presença, é como uma ordem de uma rainha acompanhada de cem soldados para garantir que seja cumprida.
— Todo mundo vê coisas — replicou Egwene.
Elayne balançou a cabeça.
— Não como Min. Ela vê… auras… ao redor das pessoas. E imagens.
— Não o tempo todo — interrompeu Min. — Não ao redor de todo mundo.
— E ela pode descobrir coisas sobre você a partir delas, embora eu não tenha certeza de que ela sempre diz a verdade. Min contou que eu precisaria dividir meu marido com duas outras mulheres, e eu jamais aceitaria uma coisa dessas. Ela apenas ri e diz que também nunca foi seu ideal de relacionamento. Mas a firmou que eu seria uma rainha quando nem sabia quem eu era, disse que viu uma coroa, e era a Coroa de Rosas de Andor.