— Agora saiam, vocês duas. — Um gongo começou a soar, seu tom grave e sonoro, e Elaida inclinou a cabeça. O sol estava a meio caminho de sua posição mais alta. — Altas — disse Elaida. — Vocês precisam se apressar, se não quiserem mais reprimendas. E Elayne? Vá encontrar a Mestra das Noviças em seu gabinete, depois que terminar seus afazeres. Uma noviça não fala com uma Aes Sedai, a menos que tenha permissão. Corram, vocês duas. Vão se atrasar. Corram!
E elas correram, levantando as saias. Egwene olhou para Elayne, que tinha duas manchas vermelhas nas bochechas e um olhar determinado no rosto.
Atrás delas, Egwene ouviu a Aes Sedai começar a falar:
— Deram-me a entender, garota, que você foi trazida para cá por Moiraine Sedai.
Ela queria ficar e ouvir, tentar descobrir se Elaida perguntaria sobre Rand, mas o gongo anunciava as Altas por toda a Torre Branca, ela estava sendo convocada para suas tarefas. Ela correu como Elaida tinha ordenado.
— Eu serei uma Aes Sedai — grunhiu.
Elayne deu um sorriso rápido e compreensivo, e elas apertaram o passo.
A camisa de Min estava grudada no corpo quando ela finalmente deixou a ponte. Não havia suado por causa do sol, mas por causa das perguntas de Elaida. Ela olhou para trás para se certi ficar de que a Aes Sedai não a seguia, mas não viu Elaida em parte alguma.
Como a Aes Sedai sabia que Moiraine a chamara? Min tinha certeza de que aquele era um segredo que apenas ela, Moiraine e Sheriam sabiam. E todas aquelas perguntas sobre Rand. Não fora fácil fazer cara de paisagem e olhá-la firme nos olhos enquanto mentia na cara de uma Aes Sedai que nunca ouvira falar dele e não sabia nada a seu respeito. O que será que ela quer com ele? Luz, o que Moiraine quer com ele? O que ele é? Luz, eu não quero me apaixonar por um homem que só encontrei uma vez, e ainda por cima um caipira.
— Que a Luz a cegue, Moiraine — resmungou. — Seja lá o motivo pelo qual você me trouxe até aqui, saia de onde quer que esteja se escondendo e me diga logo, para eu poder ir embora!
A única resposta foi a doce canção dos periquitos-cinzentos. Com uma careta, ela saiu em busca de algum lugar para se refrescar.
25
Cairhien
A cidade de Cairhien ficava do outro lado das montanhas, às margens do Rio Alguenya, e a primeira vez que Rand a viu foi do alto das colinas ao norte, à luz do sol do meio-dia. Elricain Tavolin e os cinquenta soldados cairhienos ainda lhe pareciam guardas, especialmente depois de atravessarem a ponte no Gaelin, pois foram ficando mais empertigados à medida que iam avançando para o sul. Mas Loial e Hurin não pareciam se importar, então ele também tentou não ligar. Analisou a cidade, tão grande quanto qualquer uma que já vira. Enormes navios e largas barcas preenchiam o rio, e havia silos altos distribuídos ao longo da outra margem, mas Cairhien parecia disposta de forma precisa atrás de suas muralhas altas e cinzentas. As muralhas formavam um quadrado perfeito, com um lado paralelo ao rio. Em um padrão igualmente planejado, torres se erguiam das muralhas, elevando-se a até vinte vezes sua altura, e mesmo das colinas Rand podia ver que todas terminavam em um topo serrilhado.
Fora das muralhas, cercando-os de uma margem à outra do rio, havia um labirinto de ruas se entrecruzando em diversos ângulos e fervilhando de gente. Rand sabia que aquela área se chamava Portão da Frente, pois Hurin lhe dissera. Um dia houvera uma aldeia que servia de mercado para cada portão da cidade, mas, ao longo dos anos, elas foram crescendo e se tornaram uma só, um caldeirão de ruas e becos que se estendiam para todos os lados.
Quando Rand e os outros adentraram aquelas ruas de terra batida, Tavolin mandou alguns de seus soldados abrirem caminho por entre a massa, gritando e instigando os cavalos como se fossem passar por cima de qualquer um que não saísse do caminho rápido o bastante. As pessoas saíam da frente sem olhar duas vezes, como se aquilo fosse uma ocorrência cotidiana. Mas Rand se pegou sorrindo.
As roupas dos moradores de Portão da Frente eram, em sua maioria, de má qualidade, mas muitas tinham cores vivas, e o lugar era bastante animado. Mascotes gritavam, anunciando seus produtos, e os donos das lojas chamavam as pessoas para examinarem os artigos expostos sobre mesas diante de suas lojas. Barbeiros, vendedores de frutas, amoladores de facas, homens e mulheres oferecendo dezenas de serviços e centenas de artigos à venda vagavam pelas multidões. Era possível ouvir música, vinda de mais de um lugar, em meio ao burburinho. No começo, Rand pensou que vinha das estalagens, mas as placas na frente de todas as casas mostravam homens tocando lautas e harpas, fazendo malabares ou equilibrismo, e, apesar de serem grandes, não tinham janelas. A maioria das construções de Portão da Frente parecia ser de madeira, por maiores que fossem, e muitas pareciam novas, ainda que mal-acabadas. Rand ficou boquiaberto diante de vários prédios com sete ou mais andares. Eles balançavam de leve, embora as pessoas que entravam e saíam apressadas não parecessem notar.
— Camponeses — resmungou Tavolin, olhando direto para a frente, enojado. — Olhe só para eles, corrompidos por costumes estrangeiros. Nem deviam estar aqui.
— E onde deviam estar? — perguntou Rand. O oficial de Cairhien o fuzilou com o olhar e esporeou o cavalo para que avançasse, batendo na multidão com seu relho.
Hurin tocou o braço de Rand.
— Foi a Guerra dos Aiel, Lorde Rand. — Ele olhou ao redor para se certi ficar de que nenhum dos soldados estava perto demais para ouvir. — Muitos dos fazendeiros estavam com medo de voltar para suas terras, perto da Espinha do Mundo, e vieram para cá, que é bastante próximo. É por isso que Galldrian mantém o rio cheio de barcas de grãos vindos de Andor e Tear. Não há colheitas chegando das fazendas a leste daqui, pois não existem mais fazendas por lá. Mas é melhor não mencionar isso a um cairhieno, milorde. Eles gostam de fingir que a guerra nunca aconteceu, ou, pelo menos, que a venceram.
Apesar do chicote de Tavolin, eles foram forçados a parar quando uma estranha procissão atravessou o caminho. Cerca de dez de homens, batendo tambores e dançando, abriam caminho para uma fileira de enormes marionetes, cada qual com uma vez e meia o tamanho dos homens que os faziam se movimentar com a ajuda de longas varas. Gigantescas figuras de homens e mulheres usando coroas e longos mantos ornamentados faziam mesuras para a multidão, em meio a diversas feras fantásticas. Um leão com asas. Um bode andava nas patas traseiras ostentando duas cabeças que deveriam cuspir fogo, a julgar pelas itas vermelhas que pendiam das duas bocas. Havia uma criatura que parecia ser metade gato e metade águia, e outra com uma cabeça de urso em um corpo humano, que Rand supôs representar um Trolloc. A multidão ria e dava vivas enquanto eles passavam dançando.
— Os homens que fizeram aquilo nunca viram um Trolloc — resmungou Hurin. — A cabeça é grande demais, e ele é muito magro. Provavelmente também não acreditam neles, milorde, não mais do que acreditam naquelas outras bestas. Os únicos monstros em que o povo de Portão da Frente acredita são os Aiel.
— Isso é a celebração de algum Festival? — perguntou Rand.
Ele não vira indícios daquilo, a não ser pela procissão, mas julgou que deveria haver uma razão para aquela festa. Tavolin ordenou que seus soldados avançassem outra vez.
— Não é nada fora do normal, Rand — respondeu Loial. Caminhando ao lado de seu cavalo com o baú envolto no cobertor ainda amarrado à sela, o Ogier atraía tantos olhares quanto as marionetes. Alguns até riam e batiam palmas, como haviam feito com os bonecos. — Receio que Galldrian mantenha o povo calado por meio do entretenimento. Ele oferece a músicos e menestréis o Presente do Rei, uma recompensa em prata para se apresentarem em Portão da Frente, e todos os dias patrocina corridas de cavalos à beira do rio. Também há fogos de arti ício todas as noites. — Sua voz tinha um tom desgostoso. — O Ancião Haman diz que Galldrian é uma desgraça. — Ele piscou várias vezes, percebendo o que acabara de dizer, e mais do que depressa olhou ao redor para veri ficar se algum dos soldados ouvira. Aparentemente, não.